terça-feira, 3 de maio de 2016

"MENINO, VAMOS REZAR!"



                    Estive lendo numa revista, já meio gasta pelo tempo, reportagem sobre a vida familiar num país socialista, ou comunista, não sei lá muito bem qual a diferença.
                    O fato é que não tenho (nem desejo ter) experiência pessoal do que seja uma infância socialista. Nunca andei no colo do Estado, não  fui cuidado por técnicos nem apascentado por mocinhas de frivolidade pedante, alunas de Faculdade de Sociologia, querendo me impingir doutrinação marxista. Não conheço, apesar dos meus já vividos e cansados oitenta anos  neste mundo de Deus (ou do Diabo, como querem alguns), esse tom de voz convencional da falsa maternidade, essa meiguice eficiente que se vê na televisão durante um horrível programa infantil, ou, nos idos tempos de professor em escolas públicas, com suas enfadonhas conferências sobre técnicas pedagógicas.
                    A voz que eu ouvia da Coordenadora Pedagógica era franca e forte, voz de mãe cheia de filhos, que sabia distribuir os tapas quando necessários, cortar o pão à mesa, e providenciar roupa limpa e bem passada a ferro elétrico. Nada disso me interessava.
                   Minha infância, no sul da velha e saudosa Minas Gerais, foi livre e feliz, em casa grande de comércio, quatro portas para a entrada dos fregueses, pequena escada para subir, casa antiga pintada de azul-claro, cor preferida de meu pai, com pequeno jardim bem cuidado por minha mãe, à frente, entre a grade  e a casa propriamente dita.
                   Mamãe (era assim que meu irmão, irmã e eu a tratávamos) nos ensinou a tabuada e as primeiras leituras à luz de um lampião de querosene, pois não tínhamos luz elétrica, e, confesso, nem muito interesse na tabuada,  não tinha a menor vontade de aprender, e creio que é por isso que, até hoje, ao somar 15 + 75, preciso usar a calculadora...
                   Em todo caso, era bom soletrar a cartilha com o pensamento alheio, bem longe dali, com vontade  de acabar e ir ver a galinha carijó no choco ou continuar carregando terra no meu carrinho de madeira, presente de minha avó num de meus aniversários.
                  Ainda não havia entre a cartilha e a galinha carijó a relação de cumplicidade que mais tarde me seria inculcada nas primeiras lições de coisas, quando o mundo começasse a girar em torno de minha precoce adolescência. Mas entre todas as coisas havia uma imensa solidariedade, porque tudo estava na casa de meu pai, Noé Teixeira, barbeiro de profissão.
                  Felizmente - descobri mais tarde, nos tempos de ginásio - que minha mãe não tinha nem o elementar completo, mas nunca me mandou aprender com as galinhas. Com ela, à luz do lampião, depois de terminadas as tarefas domésticas na cozinha, sentávamos ao redor da mesa, e eu, meu irmão e minha irmã, começávamos a entrar nos meandros secretos da cartilha e da tabuada.
                 Meu soletrar o b-a-bá da cartilha foi livre e gratuito, como a galinha carijó no ninho, como as belas margaridas do jardinzinho à frente da casa. Cada coisa, entre nós e sob a estrita observação de minha mãe, tinha nesse tempo o seu próprio direito de existir. Por isso, o mundo era muito amplo e muito seguro para mim e meus irmãos.
                 O tempo também não existia; ou era uma espécie de dança de todas as coisas.  E quando as pessoas dançavam, não deixavam de ser elas mesmas. Quando o teto vinha ao meu encontro, oscilando, crescendo, também não deixava de ser teto. O tempo era a regra de um brinquedo enorme; fazia meu pai sair e depois fazia-o voltar. Aliás, o mais certo é dizer que a regra vinha de meu próprio pai. Tudo era arbitrário, e por isso mesmo havia uma enorme segurança em volta de mim e de meus dois irmãos: porque os árbitros eram pai e mãe.
                Eu poderia ter aprendido com melhor método, ter economizado alguns dias na leitura daquela frase: "O viúvo viu a ave" , ou ter aprendido uma frase mais clara; mas o certo é que não ficaria sabendo que cada coisa tem seu nome. Tempo para brincar; tempo de estudar; tempo para comer. E tempo para rezar. Tempo, esse, do qual nunca esqueço:
               - "Vamos, moleque, vamos rezar. Bicho é que dorme sem rezar. Pai nosso..."
               Olhei o céu e vi umas nuvens que pareciam algodão. Eram branquinhas, branquinhas. Com certeza era atrás daquelas nuvens que morava o Pai do Céu, de que tanto me falavam.
               Saudades de minha infância feliz, na pequenina cidade de Caldas, no sul de Minas Gerais! Tempos felizes, sem pecado, sem Dilma Roussef, sem Lula, sem inflação, sem toda essa corrupção escancarada, que torna o Brasil uma terra sem lei e comandada por travestis de fancaria!...

                                                           *****************

Aroldo Teixeira de Almeida é professor aposentado de Português e Francês, do Quadro Próprio do Magistério Paranaense.

              
   
       
           
            
      

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