sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

AOS MEUS FILHOS E NETOS



            "Como um sopro se acabam os nossos anos. Pode durar setenta anos a nossa vida; os mais fortes talvez cheguem a oitenta."  (salmo 89).
            Foi meditando nestas palavras do salmo 89, que rezo diariamente na "Liturgia das Horas", é
que  me decidi a escrever-lhes esta carta, parafraseando, aliás, uma outra escrita pelo professor Afonso Antoniuk. Ele, com certeza, é também pai e avô, e por isso compreenderá o por quê eu me atrevi a imitá-lo.
            Em janeiro entro no meu octogésimo terceiro ano, dentro, portanto, dos limites estabelecidos pelo salmista. Sendo assim, talvez muito em breve, ou talvez com maior demora, quando este velhote meio careca já não for o mesmo, peço-lhes a caridade de terem comigo um pouco mais de paciência e compreensão.
            Quando eu derramar sopa ou café na roupa, ou esquecer de amarrar os cordões dos também velhos sapatos, lembrem-se das muitas vezes em que passei um bom tempo mostrando a vocês como amarrar os seus.
            Quando amigos e vizinhos vierem conversar comigo e vocês me ouvirem repetir sempre as mesmas histórias de antigamente, e que vocês já sabem de cor e salteado como é que terminam, não me olhem com olhos gozadores, nem me interrompam. Lembrem-se de que, quando eram pequenos,
à beira de seus leitos eu lhes contava centenas de vezes a mesma história do Chapeuzinho vermelho e do lobo mau, até que o sono chegasse, e vocês conseguissem adormecer. Sem esquecer, é claro, que muitas vezes eu me atrevia até a cantarolar com voz desafinada ingênuas cantigas de ninar, quando o sono lhes custava a chegar.
            Quando me virem embasbacado e ignorante diante da parafernália eletrônica que hoje é café pequeno para vocês, tenham paciência e não me lastimem com sorrisos zombeteiros. Lembrem-se de que fui eu quem lhes ensinou as primeiras letras e a vencerem os obstáculos da vida, como agora vocês o fazem muito bem, manuseando com maestria teclados de computadores, engenhosos celulares ou cordas de guitarras elétricas.
            Quando eu for à igreja e demorar muito a sair de lá, atrapalhado entre os bancos ou porque me foi difícil encontrar a saída, sejam pacientes e saibam que dezenas de vezes me dirigi a esse lugar santo para pedir a Deus que nunca faltasse nada aos meus filhos e netos, nem alimentos, nem passeios, nem divertimentos sadios, nem tudo aquilo que pudesse dar-lhes alegria e torna-los contentes e felizes.
            Quando me faltarem as pernas no caminhar, e nem a bengala conseguir manter-me em pé,
deem-me suas mãos para ajudar-me a trocar os passos, como eu fiz com vocês para ensiná-los mais depressa a andar.
            Se porventura eu molhar ou sujar as roupas íntimas por conta da incontinência própria da velhice, não me censurem, pois quantas vezes eu ajudei sua mãe ou avó a trocar as fraldas sujas ou molhadas de vocês...
            Peço-lhes agora, e isto é muito importante para mim, perdão pelas minhas constantes ausências naqueles tempos já distantes em Barbosa Ferraz, vocês ainda crianças, ir e voltar do trabalho, manhã, tarde e noite, deixando-os dormindo de manhãzinha e encontrando-os adormecidos à noite, isto me fazia sofrer muito. Mas deveu-se à luta pela subsistência e para conseguir, com meu trabalho diuturno, proporcionar-lhes o melhor, o que nem sempre foi possível fazer, e aqui também lhes peço compreensão.
            Quando me ouvirem dizer que estou cansado  da vida e que me custa muito carregar nas costas oitenta e dois anos de idade, não fiquem zangados nem tristes, pois algum dia vocês entenderão que o que digo não contradiz o carinho e o amor que sempre tive por vocês.
            Não fiquem chorosos ao me verem encurvado e trêmulo, muitas vezes perdendo o equilíbrio e desabando no chão, deem-me as mãos, ajudem-me a levantar e me amparem, como eu os acompanhei em suas caminhadas, e eu lhes devolverei gratidão e sorrisos pela atenção que tiverem comigo.
            E se eu, em consequência da idade, começar a esquecer os seus próprios nomes e até a confundir uns com os outros, por caridade, nunca se esqueçam de mim!...
           
            Seu pai, e seu avô, Aroldo.

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