domingo, 30 de dezembro de 2012

O POETA E A VIRGEM

      (Para a Iraci, minha nora, em Barbosa Ferraz, com votos de venturoso ano de 2013)

      Para mim isto é algo de insofismável:
      Não se consegue falar condignamente de Jesus, Homem, na festa do Natal, sem que se coloque lado a lado com Ele a pessoa da Mulher.
      Na Arte de todos os tempos, a mulher está presente. A alma do artista sempre peregrinou com sede à procura de um tipo ideal de mulher, uma mulher de verdade que pudesse cativar de vez o coração do homem.
      É certo que os antigos gregos e romanos tinham lá no Olimpo as mais belas mulheres que é possível imaginar. Mas Vênus era volúvel e impudica. Minerva, soberba e belicosa. Diana era virgem, sim, mas sua virgindade não passava de traiçoeiro laço para os incautos. O lendário pastor Endimião que o diga.
      E os artistas, apesar da Arte grega e romana parecer mostrar o contrário, ainda peregrinavam em busca da mulher ideal.
      Foi então que uma estrela misteriosa surgiu nos céus do oriente. E daí, bem cedo, logo ao amanhecer do Cristianismo, madrugou também a Arte marial:

      Nenhum artista,
      Nem o doce Virgílio, nem Horácio,
      Nenhum cantor do Lácio
      Jamais sonhara essa doce visão:
      Maria!

      Na penumbra das catacumbas, nas iluminuras e afrescos sombrios da Idade Média, na inspiração suprema da iconografia bizantina, ou nas preces talhadas em pedra, das agulhas góticas das imponentes catedrais, Ela esteve presente.
      Em Giotto, em Boticelli, em Fra Angélico, nos pincéis vigorosos de Michelângelo. Foi a alma de mãos postas, a Virgem Gótica das catedrais européias. Viveu a vida de cada dia nos quadros de Cellini, Van Dick e Rafael. É uma alma tremulante na "Pietá". Uma floração radiosa de vida nas "Madonas" de Leonardo. Mas é nas "Virgens" de Picasso que Ela ressumbra serenidade com maior vigor. Também no feitio de paz e simplicidade que Portinari Lhe dá nos seus painéis. Até parece que a Arte moderna e estilizada não A deixa tocar no chão. Ela fica mais leve. Menos Terra. Mais Céu.
      É que o artista trabalha com o espírito!

      Foi para contemplá-La que subi a montanha, conforme diz a lenda. Subi e contemplei. Vi os monumentos que Lhe plantaram os homens. As madonas untadas de serenidade. As virgens. Quantas, meu Deus do céu! E eram lindas demais para não ser Ela mesma, ou então, sonhos reais de apaixonados artistas!
      Depois, veio uma plêiade de poetas. Li e interpretei a todos. Uns me fizeram lembrá-La com amor. Com outros, fui radical, indelicado, empurrei-os, coloquei-lhes de lado as páginas mal escritas, antipáticas, cheias de emendas. É que se tratava dEla. E Ela merece o melhor.
      Continuei, fiz-me analista de almas. Queria dissecar todos os olhos que derramaram lágrimas diante dEla. Os lábios que Lhe rezaram num sorriso ou na dor. Não me esqueci nem mesmo de bisbilhotar nas poucas linhas em que o Evangelho contou avaramente a Sua história...

      Como seria a Mulher?

      No princípio era o Verbo. E o Verbo era Artista.
      Mas o Artista é anterior a tudo quanto os homens chamam de Arte. A Mãe que O há de gerar precisa estar a Seu gosto: para Ele, a perfeição está na simplicidade. Identifica-se com ela. Sua Mãe, portanto, há de ser simples. Simples para independer sempre de todas as formas de Arte que os homens puserem a Seu serviço através dos séculos. Pois não é verdade que todas as gerações A chamarão bem-aventurada?
      Paradoxalmente, porém, a Mulher Santíssima há de ser um ponto de convergência e de busca. Luz quente, capaz de germinação. Simplicidade não quer dizer carência.
      A Virgem será cheia de Graça, já o dissera o anjo da Anunciação.
      Toda essa gente que se diz seus filhos, que escreveu e falou dEla, daria para formar uma grande cidade, aproveitando, para começar, os versos de José de Anchieta a Ela dedicados e escritos nas areias da praia. Começar por aí e não parar mais.
      Se quisermos ser indiscretos, poderíamos entrar, por exemplo, depois, na pobreza da cela do frade brasileiro Monte Alverne. Sem licença mesmo. E se ele fosse tão orgulhoso como o pintam muitos historiadores tacanhos, não entraríamos nela, nem o Papa se lembraria dele como, dos brasileiros, o defensor mais vigilante do dogma da Imaculada.
      E como este, são milhares os que a Graça colocou agarrados à saia materna de Maria, que amaram e quiseram louvar a Ela os seus sentimentos, em prosa e versos.
      Muitos, porém, não são filhos. Ou melhor, são mais filhos que os outros - são os poetas rebeldes - Se alguém encetasse a viagem  para encontrá-los, garanto, levaria uma surpresa em cada curva do caminho.
      Um deles, em meio a tanto verso blasfemo, na languidez do desespero, em que o pecado é belo, a violência é bela, tudo o que afirma a vida é belo, faz brotar de seu lirismo uma luz desconcertante. É Antero de Quental:

      Num sonho todo feito de incerteza,
      De noturna e indizível ansiedade,
      É que eu vi Teu olhar de piedade,
      E mais que piedade, de tristeza.
      Ó visão, visão triste e piedosa!
      Fita-me assim calada, assim chorosa,
      E deixa-me sonhar a vida inteira.

      Noutra curva da estrada está sentado o Eça de Queirós. Ele e sua constante angústia:

      Eu me enojei tanto de imundícies,
      Que Ela se enojaria, eu sei, de minha prece...

      Humberto de Campos, numa curva mais além, não cessa de clamar aos viandantes:

      Diante dessa Mulher ideal eu me ajoelho, mas falta-me o alento de rezar. Ela me parece bela demais para eu crer, crer em Sua realidade.

      Não vamos mais longe. Aquele cavalheiro de nome berrantemente italiano, mas um poeta dos mais brasileiros, o Menotti del Picchia, amigo do "Juca Mulato" sensual, ele também encontrou um dia

      A Matriz geradora da vida e da santidade,
      O altar onde a humanidade
      Adora o quotidiano milagre do Verbo.

      Ele também acreditou que existe uma Mulher muito mais mulher que a sua "Dulcinéia"...

      Há de ser sempre assim. Hoje mais ainda. Entre a Religião e a nossa Literatura houve um grande desentendimento. A Literatura Brasileira nasceu justamente quando o Materialismo ateu, a "Enciclopédia" e o Iluminismo de Voltaire mandavam no mundo. E os homens, com isso, tinham vergonha de pronunciar o santo nome de Deus.
      O intelectual ateu só teria possibilidade de encontrar no Cristo a verdade e a vida, quando a primeira grande guerra mundial desmascarasse a "Razão" divinizada, fazendo-o descrer da "divindade" da técnica e do progresso.
      E assim foi. E os ateus e materialistas, que tinham o monopólio da literatura mundial, encontraram, como o apóstolo Paulo, o seu "caminho de Damasco".  Chesterton, Belloc e Graham Greene, na Inglaterra. Gertrud von Le Fort, na Alemanha. Papini, na Itália. Claudel, Pèguy, Léon Bloy, Psychari, na França. Thomas Merton, futuro monge cisterciense, nos Estados Unidos.
      No Brasil, a fermentação espiritual começou com uma reação ao que era caduco, entrevado, como o academicismo, o formalismo, o parnasianismo estéril, o marasmo. Uma rebelião modernista. Uma busca insofismável de autenticidade. Jovens que deixaram os discursos acadêmicos, para escreverem programas de vida.
      Um deles, Jackson de Figueiredo, sob a influência espiritual do Cardeal Leme e de Leonel França, converte Alceu de Amoroso Lima, o famoso Tristão de Athayde que, convertido ao Cristianismo, se faz líder de toda uma geração. Outro, Gustavo Corção, no Centro Dom Vital, foi uma pena ferina e demolidora de ídolos que pretendiam subverter sua querida Igreja Católica.
      Deixo de lado dezenas e dezenas de outros, para não me alongar. Lembro apenas que, daí à frente, nossa Literatura se abriu à simplicidade, à autenticidade, porque as coisas de Deus encontraram seu lugar tanto na Prosa quanto na Poesia.
      Rodrigues de Abreu, por exemplo, um poeta sofredor, confessa francamente, sem respeito humano, que é católico, e com a mesma simplicidade que diz ser tuberculoso.
      Há o caso de insatisfação espiritual com Jorge de Lima. Rei no parnasianismo, regionalista glorioso com a sua belíssima "Nêga Fulô", abandona tudo. Esse homem que cantou a sensualidade negra, e que era ele próprio um mulato sensual, nos seus derradeiros dias de vida não escrevia mais poemas: compunha orações. Simples, humilde a aceitação do seu dom poético, assim como foi humilde e simples a Virgem diante do Anjo e da aceitação da encarnação do Verbo de Deus.
      Tasso da Silveira, modernista, com raiva do Capitalismo e dos católicos medíocres é um cristão dos bons. e gosta mais ainda da Mãe:

      ...gosto de ti, Senhora,
      Porque em Tua presença
      Posso andar descalço,
      Sentar-me de qualquer modo
      E dizer-Te o que sinto.

      Depois de tudo isto, sabemos um pouco mais o que é Poesia. E espero, confiante, que a Virgem também lucrou.
      Poeta, para mim, não é quem sabe tamborinar com os dedos sobre um dicionário de rimas. Afinar uma dúzia de palavras, colocar tudo em fila, às vezes rimar, e pronto. Poesia não é isso.
      O Poeta autêntico, inicial maiúscula, é esquivo, não gosta de muito circunlóquio, diz muito em poucas palavras, enquanto outros, os pseudo-poetas, dirão menos em palavras demais. E os que condenam a Poesia, por ela frequentemente desprezar a gramática, rir-se da sintaxe e ludibriar a regência verbal, esses, não são nem ao menos matriculados nos "cursinhos" da Arte. Ignoram que o Poeta tem duas infâncias, e que a Poesia não pode ser produto enlatado, produzida em série, nem obra de cenáculos.
      A Poesia é gestada na simplicidade, na solidão. Somente no silêncio e no recato é quese tem tempo para ser simples, para encontrar a perfeição que Deus goteja em cada ser que criou sobre a Terra.
      O Poeta autêntico, essa espécie de homem ou de mulher ideal que eu invejo, esse "filósofo intuitivo" como o chamou Sertilhanges, saberá sempre ver o que Deus ama. E entre os amores de Deus, a Virgem nunca Lhe será despercebida.
      Se a Poesia seguir esse rumo, a Senhora há de purificá-la sempre mais, divinizá-la com a Sua simplicidade, transfigurá-la com a Sua pureza.
      E se o Poeta é forçosamente alguém que conservou por longo tempo o estado de inocência infantil, transformando-o em estado de inocência poética, certamente Ela receberá com prazer a inocência que o Poeta vivencia na alma.
      Então ele poderá derramar aos pés da Virgem a riqueza íntima que só ele, Poeta, pode possuir, em confidências de candura, em eclosões de quem vê a Luz, em colóquios de beleza e suavidade, só possíveis entre o filho extremoso e a Mãe amada!
     

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A ÁRVORE SOLITÁRIA


       Pensamentos que me surgiram diante de uma velha árvore na frente de minha casa:
      Como é que tu podes, arvore solitária, dar folhas tão suaves e flores tão alegres e tão belas? Sozinha, ali na beira da calçada, a solidão não te prejudica? A falta de outras árvores amigas não te faz tornar-te uma árvores seca, além de solitária, o que tu já és?
      Ou vais querer dizer-me que tu te bastas a ti mesma e que não precisas de uma árvore amiga, de uma árvore irmã, a conviver contigo da mesma solidão?
      No meu entender, a explicação talvez esteja em que tua solidão é aparente. Tu deitas raízes profundas na terra, o ar das madrugadas te envolve,  os passarinhos  fazem de ti a sua morada, os viajantes procuram a tua sombra, e tu,  dia e noite, contemplas a grande abóboda do céu e sentes a cada instante, sobre ti, o olhar  majestoso de Deus.
      Eu te chamei de árvore solitária, pois estás sozinha, ali na frente da casa onde moro com minha mulher  Cleusa, com minha neta Isabela, e com o nosso cachorro Billy.
      Árvore solitária? Pois o que acontece contigo acontece exatamente o mesmo com milhões de pessoas neste nosso mundo de Deus.  A mesma terra, que carrega milhões e milhões de criaturas, carrega-as também. Elas respiram o mesmo ar respirado pela humanidade inteira e contemplam a mesma luz que traz alegria a recantos numerosos da Terra.
      Mas, acima de tudo, as envolve o mesmo Deus, dentro de Quem as criaturas humanas, como minha esposa, minha neta e eu, nos movemos e existimos...
      Por que então se volta, tão insistente, tão teimosa a tantas criaturas como eu, a impressão de que estamos sozinhos, eu e tu, sob um céu distante e hostil? E esta impressão dolorosa me faz falar com Deus:
      - Pai, que moras conosco e nos envolves por todos os lados com a Tua presença, por que ficas tão apagado, tão silencioso diante de nós e dos nossos problemas do dia a dia?
      - Por que permites a impressão de solidão e abandono que o Teu próprio Filho, Jesus, sentiu na cruz ao exclamar, dolorosamente: - Meu Pai, meu Pai, por que me abandonaste?
      - Meu Senhor Jesus,  Filho de Deus, que Te tornaste meu irmão,  que Te encarnaste tomando corpo humano e alma humana, que experimentaste todos os sofrimentos humanos: a alegria, mas também a tristeza; força e coragem, mas também pavor diante do sofrimento e da morte que se aproximava; a segurança absoluta de ser sempre atendido pelo Pai, e a compreensão misteriosa e esmagadora de clamar pelo Pai sem ser ouvido! Cristo, meu Deus, quero que sejas o alento, a coragem, a companhia para mim e para todos os que, como eu, sentem a solidão.
      - Espírito Santo de Deus: assim como a luz absorve a sombra, que a Tua presença divina faça desaparecer, faça sumir a impressão tremenda de quem, como eu, na minha velhice e nos meus cabelos brancos, se sente abandonado e só!... Como esta pobre árvore, solitária, diante de minha casa!
     

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

AINDA FALANDO DO NATAL...


       O Natal nem bem chegou, e já passou, como um viajor apressado.
      Em todo caso, Você nesses dias cumpriu todo o ritual que as convenções sociais   o obrigaram a observar, religiosamente: Você foi ao shoping, comprou presentes prá todo mundo de suas relações, com certeza foi também ao supermercado para ver (só ver) o preço dos artigos importados, ou,  por via das dúvidas, deu um chego na loja de 1,99  para ver se ainda tinha daquelas bonitas mangueiras de luzinhas...
      Espere um pouco: que Natal é esse seu?
      No meu confuso entender, certamente  não é um Natal cristão. Um Natal só baseado em dar e receber presentes, ou num vergonhoso comes e bebes, sem medida, não é um Natal cristão.  Se Você se fantasiou de Papai Noel, para dar uma satisfação a seus filhos, parentes e amigos, lembre-se que o tão falado Papai Noel não é criação cristã, mesmo que o povo diga que a sua origem é o antigo e famoso bispo São Nicolau. Papai Noel, dizem-nos as más línguas, com razão ou sem razão, é uma criação pagã.
      Na minha opinião, certamente contestada por Você e outros da mesma mentalidade, no Natal como hoje o temos, com certeza entrou aí nele o capitalismo materialista e consumista, que na primeira quinzena de janeiro vai fazer o costumeiro balanço de fim de ano e afirmar de boca cheia que o Natal de 2012 foi melhor que o de 2011, porque vendeu 10% a mais...
      Como disse linhas acima, no meu medíocre entender precisamos urgentemente mudar o registro, pois o aniversariante é outro, e diz-nos o Frei Estevão Nunes op que não tem sentido festejar um aniversariante que está a infinitos quilômetros de distância ausente.
      Lembro que estamos no ano de 2012. Mas a partir de quando? Até aqueles que não acreditam em Deus ou em Seu Filho Nosso Senhor Jesus Cristo são obrigados a confessar: a partir de 2012 depois de Cristo. Isto porque, queiram eles ou não, é Jesus quem divide a História em Antes de Cristo, e Depois de Cristo.
      É Ele o aniversariante que desejamos celebrar. E "celebrar" não significa apenas lembrar um aniversariante distante, ao redor de uma mesa de comes e bebes, mas reviver o aniversariante plenamente e gloriosamente vivo aqui e agora, no presente.
      Este é o Natal cristão, um Natal que celebra a vida nova que Jesus, o Cristo de Deus, veio trazer para a humanidade inteira, para todos e para cada um de nós, sem distinção de raça, de cor, de condição social, ou de religião. Cristo nos vem trazer, a cada Natal que celebramos, uma vida de paz, de harmonia, de fraternidade, de solidariedade.
      Veio trazer-nos uma vida que tenha sentido, e não seja apenas ficar correndo o tempo todo atrás dessas coisas que passam tão depressa, que nos trazem só um pouquinho de satisfação, e nada mais do que isso.
      Certamente, se Você é um cristão que se diz caridoso, não lhe basta comprar uma cesta básica para presentear uma família que Você julga necessitada, porque isso não irá de maneira alguma modificar em profundidade a vida dela.
      Não basta Você fazer uma limpeza no supérfluo do seu guarda-roupa, para doar o que sobrar a alguma família carente ou a alguma instituição filantrópica. Isto não vai mudar a vida de ninguém. Aliás, não é esse o Natal de Jesus Cristo.
      Se Você costuma ler de vez em quando a sua Bíblia Sagrada, certamente descobriu nela que Jesus nasceu sem casa, sem roupa, sem berço, sem o calor de um fogo familiar amigo. Nasceu apenas cercado pelo calor sem tamanho do amor de Maria e José, e o salutar alimento que provinha da própria vida de Sua Mãe, Maria.
      Como que para dizer-nos que nada que é material pode dar sentido à vida de cada um de nós. Como que para lembrar-nos que a busca de bens materiais não é a coisa principal na vida humana, e que há outros valores mais mais altos.
      Passadas as festividades do Natal, cumpre-nos agora vivenciar o sentido do seu Mistério e adequar-nos a ele. É reconhecer que só há um sentido para a vida, que é mergulhar sem hesitação e sem desvios, nessa busca de uma vida em plenitude, a nós prometida pelo Pai de todas as vidas!
      Esta é a verdadeira e autêntica mensagem que nos traz o Natal que acabamos de celebrar.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

NÃO HAVIA LUGAR PARA ELE...


      Quando Você passar pelas estradas da vida, abrigado contra o frio, protegido contra a chuva, e descobrir na Pessoa de um pobre o próprio Jesus Cristo ensopado, de roupa colada ao corpo, de ossos gelados, de alma tiritando de frio, mesmo que Você não possa parar, mesmo que não haja lugar no seu carro, ou não lhe seja possivel levar para casa o seu Senhor na pessoa daquele pobre, - vá rezando para que um dia sem grande demora haja lugar para Ele em todos os carros, em todos os lares, em todos os corações...
      Deus me livre de querer julgar irmãos ou irmãs minhas que veem pobres caídos no chão, talvez em dias de chuva, sem agasalho, e que, no entanto, esses irmãos ou irmãs minhas não encontrem possibilidade nem de parar por um instante...
      É tão raro, é tão difícil sermos criaturas livres para fazer tudo o que o coração nos pede! Não somos sozinhos neste nosso mundo. Dependemos de muita gente. E mesmo que não dependêssemos de ninguém, como seria bom se tivéssemos a possibilidade de levar conosco para casa o Irmão caído na chuva! Sem dúvida, foi o que fez o Samaritano que conhecemos pelo texto dos Evangelhos...
      O triste é que, sem sermos um Louco Sagrado como Vicente de Paula ou Francisco de Assis, o fato é que diante do Irmão caído na chuva, logo mil raciocínios rebentam em nossa cabeça:
      - Se eu levar esse pobre hoje para minha casa, amanhã aparecerão dez, e o número só tenderia a crescer...
      Horrível é fazermos de conta que nada vimos. Antievangélico e anticristão é nunca parar um instante para examinar o que fazer, chamar os vizinhos, ou membros conhecidos de nossa paróquia, ou algum companheiro de trabalho ou de diversão, ou qualquer outra pessoa de boa vontade!
      O que, sozinhos, é impensável fazer, talvez com a ajuda de outros, seria ainda impossível? Para o Irmão caído na rua o abrigo, o cobertor, a sopa quente, seriam preciosos no momento. Mais importante ainda seria completar a ajuda encaminhando o Irmão para uma entidade que lhe conseguisse um emprego, que permitisse ao nosso Irmão ou Irmã necessitados caminhar seguros com os próprios pés.
      Se tivermos coragem de ir mais longe ainda, poderíamos perguntar como ajudar nossas autoridades públicas a construir uma Cidade menos egoísta e mais humana.
      Afinal, é verdade ou não, que todos nós que nos dizemos cristãos, temos o mesmo Pai, e que, sendo assim, todos nós somos Irmãos?...
      Que este Natal que estamos comemorando seja de verdade um Natal cristão, que nos ilumine e que nos leve a fazer com que o Amor, a Caridade, a Fraternidade se tornem definitivamente o sal  que nos tempere a vida e o relacionamento com os nossos Irmãos, na caminhada para a Casa do Pai de todos os pais!

domingo, 23 de dezembro de 2012

CAMINHAMOS DENTRO DE DEUS


      - "Já chegou a hora de acordar, pois nossa salvação está mais próxima agora, do que quando abraçamos a Fé. A noite avançou e o dia se aproxima. Portanto, deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz."
                                                              ****************
      Tenho para mim que uma das imagens mais impressionantes de Deus é o ar. Deus está em toda parte; caminhamos dentro dEle. Dentro dEle nos movemos e gesticulamos... Mas Deus é tão discreto, se esconde tanto, se apaga tanto, que nem damos por Sua presença.
      Não é o que também acontece com o ar? Nós nos movemos dentro dele, mas nem nos damos ao trabalho de avaliar o quanto lhe devemos. Só medimos mesmo o que o ar representa para nós, quando, de repente, ele nos falta. Costumo  passar por essa dolorosa experiência, por ser portador de bronquite crônica e sujeito periodicamente a terríveis crises de falta de ar. Felizes, nesta hora, os que podem apelar para balões ou tendas de oxigênio...
      Deus ainda é mais discreto do que o ar. Quando o ar nos falta, sufocamos. Se não formos socorridos, com urgência, nossa vida se esvai.
      Muitas pessoas perdem a Fé em Deus e continuam a viver na mesma tranquilidade de sempre. Deus não lhes causa nenhuma sufocação, nenhuma angústia de morte para quem dEle se afasta...
      Seria muito bom que, em tempos normais, de plena saúde, nós nos acostumássemos a pensar, agradecidos, no ar que nos acompanha, nos envolve e nos protege.
      Melhor ainda seria se, pensando no ar, pensássemos em Deus, cuja presença nos envolve por todos os lados. Ao contemplarmos um aquário, dentro do qual os peixes mergulham, felizes, indo e vindo, subindo e descendo, não é assim, exatamente assim, que vivemos mergulhados em Deus?
      Ao fim do ofício sagrado no templo, ao ver as pessoas deixando o recinto e voltando para casa, me vem o pensamento de que elas deixam o templo, mas não saem de dentro de Deus.
      Como então teríamos a coragem de pecar, de ofender a Deus, sabendo que vivemos mergulhados nEle? Se tivéssemos bem viva em nós a consciência de que Deus está em nossa frente, atrás de nós, nos lados, dentro de nós - como poderíamos encher-nos de ódio? como irritar-nos? como perder a calma? como ser invejosos, ou avarentos, ou egoístas, ou vaidosos ou orgulhosos?
      E que ninguém se encha de medo com a presença de Deus que nos acompanha, nos cobre e nos envolve... Deus não provoca o medo. Ele é tão simples, tão bom, tão Pai/Mãe... Complicados somos nós, criaturas humanas finitas, contingentes, pecadoras. Deus é muitíssimo mais humano do que nós...
      E que enorme sensação de segurança nos pode dar a certeza de que, em toda parte e sempre, estamos com Deus!... Deveríamos cortar definitivamente de nossa vida expressões como solidão, sozinho, só. Não estamos sozinhos, nunca!
      Que podemos temer, se dia e noite, a toda hora e sempre, está conosco nosso Criador e Pai, o Senhor do Universo, o nosso Deus, Aquele que nos deu o Seu Filho, Jesus, cuja vinda a este nosso mundo estamos comemorando nestes dias?
      Vinde, Senhor Jesus!

     

sábado, 22 de dezembro de 2012

"...e viva Barbosa Ferraz!"

Neste fim de ano, e com as festas que se aproximam, não posso esquecer-me da cidade de Barbosa Ferraz, na qual vivi durante muito tempo, ali lecionei no hoje Colégio Estadual Machado de Assis, Língua Portuguesa, durante 30 anos, ali conheci a mulher, Cleusa, que se tornou minha esposa e mãe de meus filhos Carlos, Raquel (já no Reino de Deus), Júlio e Aroldo Júnior. Em Barbosa Ferraz vive meu filho Carlos, minha nora Iraci e meus netos João Carlos  e Henrique, além de parentes de minha esposa, dentre os quais peço licença para nomear o Euclidião (que prometeu estar aqui em casa neste mês, mas que desistiu da viagem, não sei por que cargas d'água), sua irmã Iracema, seu cunhado Paulo Mendonça e enorme grupo de netos, sobrinhos, etc. e tal.
É muita gente, para lembrar-se de todos, ainda mais que ali lecionei durante trinta anos, e o número de alunos que sofreram comigo nas aulas de Português é incalculável. Em todo caso, para aqueles que ainda se lembram de mim, o meu abraço fraterno e os meus votos de um Natal cristão e feliz, e um ano de 2013 muito venturoso, apesar desse algarismo "treze", que muita gente supersticiosa diz que traz azar...
Nesta manhã de sábado já estive no mercado, já comprei o peru, mais um chester, frango, lombo de porco, meia dúzia de garrafas de vinho tinto seco, e estou convidando os parentes e amigos de Barbosa Ferraz a virem cear comigo, com minha esposa Cleusa e minha neta Isabela, além de meus filhos Aroldo e Júlio, com as respectivas esposas e a filharada, que já perdi a conta e nem sei mais quantos são...
Para quem não puder vir, aproveito o ensejo para reiterar meus votos de um feliz e principalmente santo Natal, com as bênçãos do menino Jesus, e com os meus augúrios de um venturoso 2013 entrante.
E vou ficando por aqui, que a Cleusa está me convocando para ajudá-la na cozinha...
Vinde, Senhor Jesus!

Aroldo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O GRANDE SILÊNCIO



No silêncio das árvores
ainda há o agitar dos ramos movidos pelo vento...
No silêncio das águas
ainda há o marulho das vagas ou o cantar das correntes
atravessando as pedras...

No silêncio dos céus
ainda há o palpitar das estrelas carregado de mensagens.

Aprendi
que não basta falar para atingir o silêncio...

Enquanto os cuidados com a vida me agitam,
ainda não penetrei na área do grande silêncio,
onde somente aí
se escuta a voz de Deus.

Ainda não penetrei na área do grande silêncio - aí, somente aí, se escuta a voz de Deus. Será tão difícil assim penetrar na área do grande silêncio?...
Não basta ficar de boca fechada. Não basta não falar. Quantas vezes os maiores tumultos dentro de nós  se dão em horas de lábios cerrados...
Se é verdade que o preço para chegar à área do grande silêncio é conseguir que os cuidados, as preocupações, os problemas do dia a dia não nos agitem, não haverá o perigo de o grande silêncio só ser atingido pelas pessoas que se desliguem dos problemas dos irmãos, que veem como se não vissem, e ouvem como se não escutassem?
Tentemos ver claro, se confiamos na ação da Graça de Deus:
Uma coisa é ocupar-nos, e outra é preocupar-nos. Preocupar-se é ocupar-se antes do tempo, afobar-se, perder a serenidade.
Lembro aqui uma norma muito sábia, que aprendi lendo um texto de Santo Inácio de Loiola: - Tentar tudo, como se tudo dependesse de nós... Depois, entregar-nos, de olhos fechados, nas mãos de Deus, como se tudo dependesse dEle!
Um salmo de minha predileção diz assim: - "Derrama no Senhor os teus cuidados."
Claro que só tem direito de derramar os seus cuidados no abismo da misericórdia, que é o coração de Cristo, quem fez o possível e uma ponta do impossível...
Mas também,  tentado tudo de nossa parte, é uma delícia fechar os olhos e pular na escuridão...
Quando as palavras somem, quando os cuidados adormecem, quando nos entregamos, de verdade, nas mãos do Senhor que vem, o grande silêncio nos mergulha na paz, na confiança, na alegria, pois é então que a voz de Deus se faz ouvir e nos move a clamar pela vinda do Senhor Jesus, no Seu natal que se aproxima:
- Vinde, Senhor Jesus!
                                                             **************
Por motivos alheios à minha vontade, este meu despretensioso blog ficou algum tempo fora do ar, mas agora espero, se Deus o permitir, que eu consiga continuar meu diálogo com os leitores que me derem a honra de um momento de sua preciosa atenção.
A todos um feliz Natal com as bênçãos do Menino Jesus, que certamente não hão de faltar nos corações de todas as pessoas de boa vontade.
- Vinde, Senhor Jesus...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A ESPERANÇA CRISTÃ


      A esperança "espiritual" em Jesus Cristo, presente em "Espírito", não significa esperança menos intensa, presença menos real: o Senhor Jesus é "Espírito" para melhor salvar o mundo temporal criado por Ele. Do mesmo modo, as provações e os sofrimentos em nada diminuem a realidade "carnal" da nossa esperança.
      Lembro-me que na década de sessenta o filósofo frances Jacques Maritain, que eu estudava na época, dizia que o "marxismo seria a última heresia cristã", porque seculariza a grande idéia escatológica passada para segundo plano na cristandade ocidental e, sobretudo depois da Reforma, os equívocos renascem: a palavra escatologia significa "doutrina sobre o fim do mundo", que a maioria das pessoas entende como uma queda em direção ao nada.
      Convém colocar no devido lugar o sentido das palavras: "escatologia", "fim" dos tempos, significam também plenitude: o vocábulo grego "telos" quer dizer fim e consumação na perfeição e, entre as consumações, está a do casamento.  A Sagrada Escritura fala da "idade da plenitude de Cristo", da Sua "estatura adulta", do "pleroma" do "fim dos tempos", termos que se aplicam tanto à encarnação no seio da Virgem Maria, quanto à "vinda" em Glória. Do mesmo modo, "apocalipse" não significa a grande destruição, a catátrofe radical, mas a revelação de um mistério oculto na Providência Divina.
      As "convulsões" do "fim" são, portanto, o contrário de um mistério positivo de consumação, de plenitude e de revelação, e não se trata de destruição pura e simples das obras criadas por nós. "a Fé cristã na parusia (ou segunda vinda de Cristo), nada tem a ver com o mau humor e o alívio covarde." O verdadeiro cristão aguarda com altivez e esperança a volta do seu Senhor: Vinde, Senhor Jesus!
            

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

OS TRÊS ASPECTOS DO ATO DE FÉ


      De vez em quando assalta-me uma pungente saudade de meus tempos de acadêmico de Teologia, na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo,  na qual me licenciei em Teologia Sistemática, nos longínquos  idos de sessenta.
      É o que me aconteceu agora, ao folhear o livro do escritor belga, Charles Moeller, "A Fé em Jesus Cristo", primeiro volume da trilogia "Literatura do Século XX e Cristianismo". E, falando da Fé em Jesus Cristo, achei útil fazer um pouco de Teologia neste blog, e o faço abordando um tema não muito costumeiro, segundo meu parecer. Peço licença aos eventuais leitores para tentar desenvolver o que denomino  "Os três aspectos do ato de Fé", tema exaustivamente explorado por Moeller na sua importante obra.
      Pois vamos então à Teologia:
      Que devemos entender por esta virtude teologal da Fé, que nos faz aderir com certeza à Palavra de Deus, presente nas Escrituras Sagradas e proclamada pela Igreja?
      A vida de Fé aparece com mais evidência no testemunho daqueles que consideramos santos neste século, por exemplo, esses mártires que morrem por Cristo em várias regiões do mundo, nas mãos de fanáticos fundamentalistas de todas as ideologias, apesar de que isso não preocupa muito os nossos contemporâneos, que costumam dizer: esses santos têm Fé; nós não a temos, ou não estamos muito certos de a ter."
      Como então chegar à Fé, ou encontrá-la, ou fortalecê-la?
      É sobretudo o problema do ato de Fé, pelo qual homem e mulher se obrigam inteiros, de corpo e alma, sob a garantia do testemunho divino, que nos preocupa a todos. O ato de Fé não se trata de um gesto feito de uma vez por todas, no passado, mas sim de um compromisso que deve ser renovado todos os dias; porque é todos os dias que se deve renovar o ato de Fé, não apenas com a boca, mas com toda a alma.
      Se apelarmos para a Teologia, ela nos responde que a Fé é sobrenatural, livre e racional.
      É sobrenatural, porque, no princípio, no meio e no fim, é sempre o apelo de Deus que solicita homem e mulher, os ampara e os faz chegarem à Fé.
      É livre,  porque, sem o consentimento da vontade humana, nem todo o oceano da divindade conseguiria franquear os umbrais do nosso tabernáculo interior.
      É racional, porque, no começo, no meio e no fim, o ato de Fé é uma atividade eminentemente digna da inteligência humana.
      Estes três aspectos são entre si complementares, sustentam-se mutuamente, implicam-se sem descontinuar, e a autêntica vida de Fé consiste, entre outras coisas, em manter vivo o equilíbrio desses três polos, entre os quais, como num campo de forças elétricas, oscila o nosso ato de Fé.
      Ficam aqui estes rudimentos de Teologia, como colaboração deste blog para irmos conhecendo melhor a Fé que nos anima e que nos indica o caminho para a Casa do Pai de todos os pais.

sábado, 1 de dezembro de 2012

PENUMBRA DAS ESCRITURAS E PENUMBRA DA CRUZ



      - "Deus suficientemente revelado nas Escrituras, para que O encontrem aqueles que verdadeiramente O procuram. Mas Deus suficientemente oculto nas Escrituras, para que não O encontrem aqueles que de coração não O procuram."

                                                           *****************

       Esta profunda intuição de Pascal constitui o centro de seus "Pensamentos", porque este centro é Cristo, e Cristo é precisamente o Deus ao mesmo tempo revelado e oculto. Pascal compreendeu admiravelmente que a penumbra das Escrituras é a mesma que vela a divindade de Cristo na encarnação e na paixão do Verbo encarnado. Jesus Cristo é a ponte suspensa entre a dor e a questão bíblica,  nas palavras do mesmo autor.
      A penumbra da Fé é inevitável: todos os mecanismos impassíveis do mundo: nada é mais fácil do que acreditar Deus ausente deles. Apenas,
      - Suportando Ele mesmo esses mecanismos impassíveis, inflingindo-Se, em suas inadaptações e injustiças, todos os determinismos da Terra, a paixão, o sofrimento e a morte, antes de no-los impor.
      Deus tornou-os transparentes à Sua própria presença. As causas segundas, mediante as quais concordou em ser crucificado, corporalmente na Cruz, espiritualmente nos Evangelhos, são portanto uma penumbra que vela e revela conjuntamente a presença do Deus de amor. É a nuvem luminosa do Antigo Testamento; Deus plantou a Sua tenda entre nós, revesstindo a nossa carne  e aparecendo entre os homens. Esta penumbra é Jesus Cristo.
      Se Deus se encarnou, é porque não podia ser de outro modo. Se resolveu um dia, por amor, fazer-Se pobre para que nós sejamos ricos, fazer-se homem para que nós nos tornemos participantes de Sua divindade, é porque não podia manifestar-Se de outro modo senão nessa coluna de nuvem, escura durante o dia e luminosa de noite, que guiava Israel em sua viagem através do deserto, para a terra do Reino. A penumbra da Fé é justamente o que nos dá o Deus da Fé.
      Penumbra quer dizer misto de claridade e escuridão, claramente. Ela deve conter Deus: há escuridão, visto que Deus se oculta, revestindo as causas segundas, como nos diz a Filosofia. E há também claridades, porque através desse determinismo aparente, Deus Se mostra a nós. Longe da penumbra da Fé ser uma objeção primordial à Fé, é pelo contrário o indício mesmo de que Deus pode estar nela, e que é racional para nós procurá-Lo nela.
      O âmago do Cristianismo é o mistério desta humildade de Deus. Em vez de Se manifestar em todo o poder de Sua glória, Deus Se oferece humildemente à Terra. Apresenta-Se sob as roupagens de um homem que Se pode ferir, escarnecer, matar. Oferece-Se sob o véu de textos, que podem ser contestados, mal interpretados, negados, destruídos. Chama-nos pela voz de uma Igreja que é, por sua vez, indefesa, humilde e doce de coração, à imagem de Jesus, seu Esposo, vestida como Davi, com a simples pele de pastor, armada de uma modesta funda e de pedregulhos da torrente...
      O Senhor da glória não quis o poder nem o nada, o trovão ou o silêncio do abismo, porque o poder tirânico ou o triste nada são o contrário do amor. O amor quer a doçura humilde e gratuita, não se defende. Oferece a cabeça, de antemão, aos matadores; contudo é mais poderoso que a morte, e torrentes de água não poderiam extinguir o fogo da Sua caridade. O amor quer também a vida, a doce vida, e é o que Ele dá, e não o nada.
      O amor de Deus, certamente, é loucura aos olhos de determinada sabedoria humana. Mas ele é racional, de uma sabedoria superior, a de Deus, que é Amor.
      Não consiste em amar, a vida mais verdadeira?

                                                        *******************

PROLEGÔMENOS:-

      Neste domingo, 2 de dezembro, começa o novo ano litúrgico da Igreja Católica, chamado Tempo do Advento e, no caso, Primeiro Domingo do Advento, tempo sagrado em que começamos a esperar o "advento" de Jesus, a Sua chegada entre nós, comemorada no Natal. Isto porque:
      Os cristãos de nosso tempo querem pão, pão verdadeiro, que sacie; querem água, água verdadeira que lhes estanque a sede; querem luz, a luz da verdade, que não se apaga. Querem ouvir a Palavra divina, simples, poderosa, indo até à junção do espírito e das medulas.
      Essa Palavra de Deus é Jesus Cristo.
      É nEle que a Igreja pede que se creia. Em mais ninguém. Porém, com Ele, nEle, no Pai e no Espírito Santo.
      Também eu, depois de muitos rodeios, me convenci de que basta pensar nEle, e da imperiosa necessidade que tenho de exclamar, no mais íntimo de minha alma: - Vinde, Senhor Jesus!

                                                   ************************

      Há uma frase que não é minha, mas da jovem Igreja cristã. Num império pagão que a esmagava por todos os lados, ela testemunhava sua Fé na ressurreição do Filho de Maria. Essa frase é divinamente simples, porque inspirada no espírito de amor, e retrata muito bem a sublime esperança que nos acalenta neste Tempo do Advento: - Vinde, Senhor Jesus!

                                                     ***********************

      Prezado leitor deste  despretensioso blog:
      Peço-te que o deixes, que abras O Livro, a Bíblia Sagrada. Ela é um espelho onde o próprio Deus se reflete. Se fores descrente, tua descrença é talvez uma crença que se ignora. Talvez tu estejas muito próximo, mas imaginando que estás muito longe. Vê o que disse o grande Orígenes, lá bem longe, quase na origem dos tempos: - Há muitas pessoas que, julgando-se fora da Igreja, estão na realidade dentro dela; e muitos outros, que julgando-se na Igreja, estão fora dela.
      Isto porque há os que dizem: Senhor, Senhor! - mas que não entrarão no Reino de Deus!
      Leitor incrédulo, deixa este blog, lembrando-te das palavras de Jesus: - Eu vim para salvar o que estava perdido!
      Estas alentadoras palavras de Jesus de Nazaré com toda certeza trazem a mim, que estava perdido, como também talvez a ti, uma pletora abundante de esperança, que replenará nosso coração, e o fará pulsar mais depressa, na grande expectativa do Senhor que está para vir.
      - Vinde, Senhor Jesus!
      Sim, Ele virá com toda certeza, desde que nosso coração e nossa alma estiverem preparados para recebê-Lo.
      - Vinde, Senhor Jesus!

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PS:- Se alguém se considera "influenciado pelo diabo", como acabo de ler em um blog, segue-se que, se é influenciado, é porque se deixou influenciar... É, portanto, responsável pelos atos que daí resultarem.
É bom reler o relato das "tentações de Jesus", onde se poderá aprender que é necessário resistir às influências do diabo...( se é que ele existe mesmo). Eu acredito em Deus; longe de mim acreditar em diabo, satanás, belzebu, tinhoso e outros bichos de igual quilate. Somos seres racionais e livres, e estes seres nefastos, se existirem mesmo,  só agem em nós se lhes abrimos LIVREMENTE o nosso sacrário interior! E, se o fizermos, seremos responsáveis por tudo o que decorrer desse ato!

                                             *********************

     

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

AI DOS SACIADOS!... DOS QUE NÃO TÊM FOME!...


 
      - Tenho pena, Senhor, dos que têm fome, e mais pena ainda dos saciados, que morrem de fastio e de tédio... (Dom Hélder Câmara, "Um olhar sobre a cidade").
 
      Seguindo as palavras do Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, tenho pena dos que têm fome, e não consigo me acostumar a ver criaturas humanas, filhos de Deus, disputando restos de comida em depósitos de lixo, como escrevi dias atrás sobre o "Lixão do Embocoí."
      E como poderei dizer, com o ilustre Arcebispo, que tenho  também  mais pena ainda dos saciados que morrem de fastio e de tédio?
      Deus me entende! Eu me aflijo vendo uma criatura de Deus que nem sabe mais o que fazer com o dinheiro; não tem mais em que gastar, pois que já tem tudo na vida, em abundância e superfluidade. Não conseguindo, mesmo com os seus esbanjamentos faraônicos, acabar com a sua enorme fortuna.
      Isso me faz pensar na precariedade dos bens deste mundo: quem sabe, hoje mesmo a morte pode chegar, e de nada valerão, do lado de lá, todos os créditos nos Bancos da Terra, todas as cadernetas de poupança, todos os talonários de cheques. Nada disto será levado para a outra vida, a não ser o resultado da própria vida que vivemos neste mundo transitório!
      Tenho pena, Senhor, dos sem-casa, dos sem-abrigo, e mais pena ainda dos que estão instalados na vida, dos enraizados, que fizeram da Terra sua morada permanente...
      Tenho pena dos sem-casa e sem-abrigo... Pois é tão bom, ao final do dia, terminado o trabalho, voltar para casa; ter um canto seu, parentes à espera; quem sabe um banho quente reparador, um jantar com os entes queridos!
      Deve ser terrível  para o morador de rua não ter um lugar seu, para onde ir, e não ficar rolando debaixo de marquises, no patamar de igrejas, nos pisos de edifícios ou debaixo de pontes, sem comida, sem família, sem agasalhos, sem banho, sem nada...
      Como então tenho coragem de dizer que ainda mais me aflige encontrar pessoas instaladas, enraizadas, totalmente esquecidas de que não temos aqui morada permanente e de que, a cada instante, pode soar o sinal da partida definitiva?...
      Feliz de quem guarda a lembrança de que estamos em marcha, em caminho, em peregrinação, e que, de casa mesmo, permanente, só quando chegarmos à Casa do Pai de todos os pais!
      Quem vive à luz desta verdade, que haurimos nas páginas sagradas dos Evangelhos, faz tudo para que não falte a ninguém um teto mesmo humilde e um catre para repousar o corpo cansado!...
      Tenho pena, Senhor, dos que Te procuram tateando nas sombras, mas tenho mais pena ainda de quem acha que se basta a si mesmo, não precisa de Ti, se crendo um super-Deus...
      Tenho pena dos que procuram Deus e têm a impressão de não encontrá-Lo: tateiam nas sombras! Mas quem busca o Senhor, mesmo que tenha a impressão de não O encontrar, já tem garantido o encontro com o Criador e Pai!
      Fico triste ao encontrar alguém que se diz senhor absoluto de sua vida e de seu destino, que se basta a si mesmo, se julga seguro e forte, que nem precisa de Deus.
      Perdoa-lhe, Senhor: é mais fraqueza do que maldade. Tu és grande demais, Senhor, e sobretudo, dizem-nos os Evangelhos,  és bom demais para desceres a mesquinharias e vinganças! Vai ao encontro deles, Senhor! Tu és pai, e és Pai de todos nós, principalmente és Pai para os que dizem que não são Teus filhos!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

E POR FALAR EM SORRIR...


      Sorrir! É tão importante sorrir, dependendo da profundidade e da origem do sorriso.
      Os pais, pai e mãe, verdadeiramente pais na plena acepção da palavra, aguardam, com ansiedade, o primeiro sorriso do filhinho, como minha esposa e eu aguardávamos, impacientes, o primeiro sorriso de nossos filhos, o Carlos, o Júlio, o Aroldo, e a Raquel, ela agora já na Casa do Pai de todos os pais.
      O eventual e compreensivo leitor deste blog com toda certeza sabe que sorrir é próprio do ser humano. O macaco, tão imitador do homem, não sorri... Minha neta Isabela tem em casa um cachorrinho de estimação que sabe manifestar sua alegria sorrindo a seu modo, isto é, balançando a cauda...
      Na frase inicial falei da importância de medir a profundidade e a origem do sorriso. Não merece o nome de sorriso o entreabrir artificial dos lábios, só para ser amável com os frequeses,  com as visitas de pessoas importantes, ou com os amigos convencionais do dia a dia.
      Não merece o nome de sorriso o entreabrir de lábios que costuma acompanhar a ironia, gozando a  perversidade que deve ter atingido o alvo, gozando a malícia que deve ter feito alguém sofrer...
      Sorriso, sorriso mesmo, verdadeiro, vem de dentro. Traduz alegria, compreensão, amor e paz.
      O sorriso, o riso e a risada são irmãos. O riso é mais aberto, mais ruidoso, mais festivo.  Quando o meu time do coração, o Coritiba, faz um gol contra o Atlético, não é suficiente sorrir: explode o grito de surpresa, de alegria, seguido de boas risadas de felicidade...
      Sorri minha esposa, a Cida, quando preparou uma sobremesa gostosa para mim e nossa neta, a Isabela, sabendo que apreciamos seu bom gosto de cozinheira, sua boa vontade e seus dotes de perfeita mestra na confecção de seus temperos...
      Sorri o operário que executa, com rapidez e segurança, o trabalho que lhe foi confiado, e se vê encorajado pelos olhares de aprovação de quem lhe contratou os serviços.
      Quem já acompanhou o sorriso de um casal de namorados, que se acham em pleno êxtase de seu amor?  Ele pode mostrar não importa o quê, ela pode responder seja lá o que for; mas tudo é pretexto para mais risos e sorrisos por assim dizer celestiais.
      As más línguas dizem que é mau sinal andar pelas ruas falando sozinho... Isto eu não faço, mas confesso que sorrio muito sozinho, quando caminho pelas ruas e praças de Curitiba.. - Quando tudo está em paz em casa, quando minha neta Isabela chega feliz do colégio dizendo que recuperou a nota de Matemática, quando o jardim de minha mulher se abre em flores que poderiam participar de exposição em qualquer planeta, quando a luz se despede do dia e nos convida para o repouso noturno, quando encontro uma senhora grávida e fico imaginando na criança que vai nascer e mais tarde assistir a prodígios incomparavelmente maiores do que a energia nuclear e as viagens espaciais e, muito especialmente, quando encontro sinais visíveis da ação do Pai de todos os pais em nossa vida,  então eu não me contenho, e sorrio, sorrio!
      Portanto, compreensivo leitor que agora me lê: mesmo que não goste do que escrevo, desamarre seu rosto. Não pense que cara feia vai melhorar meu texto. Cara feia, para o povão, não é tanto falta de beleza; é cara enjoada, enfezada, de poucos amigos...
      Não ranja os dentes. Não tranque os lábios. Deixe que eles se abram felizes, sorrindo para tudo e para todos, para homens e mulheres e, principalmente, para Deus!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

TER sem RETER


      Minha neta, Isabela, tem um cachorrinho poodle, chamado Billy. E eu, observando-o, noto que ele está sempre, de uma maneira ou de outra, roendo um osso, que nunca acaba. E eu me pergunto:
      -  Donde virá a paixão do cachorro pelo osso?
      Tenho para mim que se oferecermos aos cães carne de um lado, osso do outro, eles nem vacilam: largam a carne e agarram o osso...
      É só reparar um cachorro agarrado ao osso... Deus do céu! Que sofreguidão! Que fúria! E rosna, de tão feliz que está! Rosna também para espantar qualquer intruso que tenha a audácia de querer participar de seu banquete... Tem ciúme da própria sombra, pois o faz lembrar-se de outro cão que pretenda dividir com ele um pedaço, por mínimo que seja, de seu festim delicioso...
      Me parece que vale como frutuosa meditação olhar, com olhos de ver, um cachorro agarrado ao osso...
      É curioso! Chamar cachorro de cachorro, falar de seu agarramento ao osso, não inclui nada de ofensivo... Mas é muito delicada qualquer aproximação quanto a criaturas humanas com agarramentos que lembram o cachorro agarrado ao seu osso. Mas é ou não é o caso de cada qual de nós perguntar a si mesmo se, em matéria de agarramentos, não há nada que lembre a cena à qual estou aludindo?
      Sem a pretensão de não julgar a ninguém, deixando a cada consciência o encargo de se examinar ,atrevo-me a perguntar:   
      - Há ou não agarramento a dinheiro e outros bens semelhantes que lembrem o agarramento ao osso, com todos os pormenores da cena canina recordada acima: arreganhar os dentes, mostrar as unhas, rosnar, não deixar ninguém chegar perto, querer o osso só para si e, não raro, morder o observador incauto?...
      Às vezes nós, humanos, temos a intenção de ir ainda mais longe: não contentes com o osso que já temos nos dentes, ainda avançamos nos ossos dos outros...
      - Há ou não agarramento a cargos e ofícios que lembram o agarramento ao osso? Há criaturas que foram esplêndidas no cargo que ocupavam; desdobraram-se; obtiveram resultados magníficos; não mediram sacrifícios; dedicaram ao cargo o melhor de sua vida.
      Mas, cadê a coragem para largar o osso?... Convenceram-se a si mesmos de que não se trata de nada de pessoal: querem morrer no posto, por que onde encontrar quem conheça o trabalho como quem praticamente criou tudo e fez o trabalho crescer? Onde encontrar alguém que tenha a mesma dedicação?...
      E não faltam amigos aduladores - mais aduladores do que amigos - para dizer e redizer que é impossível largar o osso, que é preciso sacrificar-se...
      Convém examinar se nossas amizades não são agarramento ao osso... É amizade autêntica a amizade possessiva, absorvente, ciumenta, rosnante, que mostra dentes e garras a quem se aproxima, como se todos quisessem tomar-nos o osso?
      Que o eventual leitor deste despretensioso blog não se ofenda com a comparação: estou pedindo apenas que, encontrando um cão agarrado a um osso, parem, olhem, meditem... Meditem!
     

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O LIXÃO DO EMBOCOÍ

 
 
      A "Gazeta do Povo", de Curitiba, publicou tempos atrás foto com a seguinte legenda: -"Pessoas, vacas, cavalos, urubus e cães vadios dividem espaço no lixão do Embocoí."
      Alguém, menos prevenido, poderia achar normal semelhante cena, mas um mínimo de percepção da realidade em que vivem vastas parcelas de nosso povo das periferias, marginalizadas e desassistidas pelos poderes públicos, nos atesta que o quadro é tremendo.
      Quando os primeiros caminhões da coleta do lixo urbano nem bem acabam de descarregar, eles e elas aparecem ou já estão à espera. Como por encanto, numa imitação trágica das estórias da carochinha, eles e elas vêm, não se sabe bem de onde. Uns "moram" por perto, outros vêm de longe, chegam, encostam carrinhos ou abrem sacos, e começa a disputa: de um lado, seres humanos, ansiosos e tristes; do outro, urubus e cães vadios, famintos...
      Os bandos de urubus e de cães ficam à espreita. Descarregados os caminhões, eles avançam sobre o lixo, os enormes caminhões não os assustam. Então aparecem os concorrentes mais perigosos: crianças, jovens, adultos, velhos, todos irmanados na ânsia de colher alguns restos que lhes proporcionem um minguado dinheirinho para as necessidades do dia a dia. Ávidos, começam a procurar e catar. Tudo serve: restos de comida, latas, ferro velho, plástico, papel, latinhas de cerveja, garrafas descartáveis. Qualquer coisa que possam comer ou vender. O espetáculo gratuito da miséria.
      Assustando as aves da carniça e os cães, espantando-os, os párias da cidade grande fuçam, como porcos, a imundície. Armados de paus e pedras espantam os cães e urubus que tentam roubar-lhes o pouco que esperam recolher. Quando já conseguiram o suficiente para vender no ferro-velho ou nos depósitos de papel e recicláveis, correm para trocar por míseros reais o que a busca lhes proporcionou. Outros, com menos sorte, depois de seguidas vezes mexer e remexer o grande amontoado de lixo, ficam como que bestificados, sentam-se sobre a sujeira, contemplando-a desiludidos, até que os tratores da Prefeitura venham fazer o seu serviço, espalhando-a e cobrindo-a de terra.
      A poucos passos do grande palco onde se representa o mais ignominioso drama da vida real, erguem-se os barracos de mais uma das centenas de invasões de que sofre a metrópole. Das portas, mulheres encarquilhadas, mais pela fome crônica do que pela idade, contemplam seus maridos e filhos na árdua e triste batalha contra urubus e cães vadios.
      Nada mais as impressiona. Quem mora em favelas ou em áreas de invasão acostuma-se a assistir a qualquer cena dessas sem se emocionar. Crianças desnudas de ambos os sexos, brigas, palavrões atirados em altas vozes, pragas e imprecações são comuns no linguajar de adultos, adolescentes e crianças. A ingenuidade, a pureza e a delicadeza de sentimentos não existem, desde os mais tenros anos, para aquelas pobres vítimas da sociedade globalizada e egoísta.
      Quantas vezes, após uma busca prolongada que resultou infrutífera, uma pequena menina-moça ou um garoto ainda imberbe aceitam o convite de um dos malandros que de longe os observam, e daí a pouco haverá mais dois jovens a perambular pela cidade, nos caminhos da prostituição ou do tráfico de drogas.
      Esse é o espetáculo da marginalização, da miséria e da fome, à sombra dos arranha-céus, bem pertinho da cidade grande. Legiões de miseráveis continuarão indo todos os dias para o lixão, crime que pagam por terem nascido na pobreza.
      Diante de quadro como este, compreendemos o grito de revolta e de incontida indignação do grande escritor, além de cristão dos bons, que a França nos deu, Léon Bloy:
      - "Ah, ricos! Se torcessem vossas roupas de grife, elas haveriam de sangrar. Se espremessem esse automóvel de luxo e vissem como foi adquirido, vocês o achariam feito do pão arrancado à boca dos pobres. Quando recordamos que é preciso que uma criança sofra fome e frio num barraco gelado, para que uma menina cristã e rica desfrute das delícias de uma boa mesa junto à lareira, como nos custa esperarmos a justiça de Deus!
      

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

MEU IRMÃO O SACRISTÃO


      Se não me falha a memória, parece-me ter lido alhures que não há mais idéias novas neste nosso planeta das arábias. Todo o possível e imaginável no campo das idéias  já foi dito pelos nossos antepassados, e nós somente o repetimos hoje sob novas roupagens.
      Entretanto, por mais que escarafunche o bestunto, já passando dos setenta e seis malaventurados invernos da existência, não me lembra ter lido algo a respeito de sacristães. Ora bolas, resmungo eu, afinal de contas, a "irmandade" dos sacristães é uma classe profissional enorme, espalhada pelas igrejas católicas de todo o mundo, e não fica nada mal alinhavar algumas palavras sobre eles.
      Sem nenhum desdouro para os nossos irmãos sacristães, mas não sei por que cargas d'água, geralmente, pelo que tenho observado, os sacristães apresentam uma característica toda especial, que merece algum estudo especializado, coisa que até agora não me consta ter sido feita: na maioria dos casos ou é gente já de certa idade, ou meio caolha, corcunda, manquitola, um tanto surda, e não raras vezes ocasião de chacota por parte de certos espíritos gozadores.
       Dizem até alguns desses gozadores que, não tendo conseguido nada melhor na vida, uma classe de pessoas optou, sem outra alternativa, por essa profissão tão criticada e alvo de anedotas: a sacristãneidade.
      É claro que a maior parte daquilo que se diz dos sacristães é fruto do espírito alegre e faceto do nosso povo, que não deixa, entretanto, de ter lá o seu tanto quanto de verdade.
      Paradoxo ou não, apesar de viver o dia quase inteiro na igreja, vendo tantas cerimônias complicadas, convivendo com padres, cônegos e monsenhores, quase sempre é o sacristão o menos piedoso dos homens. Por isso se diz de Santa Teresa, que um dia estando ela em oração na igreja, viu passar um vulto apressadamente, diante do altar, fazer uma espécie de trejeito como se fosse uma genuflexão e desaparecer na sacristia, levando a santa a pensar que se tratava do "tinhoso", pelo ódio que tem a Cristo.  Mas, notando melhor, viu que não era o tinhoso coisa nenhuma, e sim o piedoso e compenetrado sacristão da igreja.
      Não sei se é verdade, mas passo para a frente pelo preço que me custou.
      Certa vez o vigário foi obrigado a ficar de cama, dando um pouco mais de repouso ao seu já bem maltratado corpo. Vai daí, chamou o prestimoso sacristão e deu-lhe modesta série de avisos para o bom andamento da igreja durante sua ausência:
      - Olegário, avise os fiéis que não posso celebrar hoje e amanhã a Santa Missa, porque me sinto adoentado. Que não se preocupem com isso, porque não é por culpa deles que ficarão sem cumprir o preceito dominical. Avise também que na próxima quinta-feira será a festa de São Pedro e São Paulo, e véspera da primeira sexta-feira do mês. Por isso haverá confissões e também haverá coleta especial em favor do Papa. Ainda mais: na quarta-feira abençoarei o casamento de Benedito Bueno com Pafúncia dos Prazeres, e que se alguém souber de algum impedimento para essa união, deve declarar sob pena de pecado grave. Foi também achado um embrulho na igreja, e quem o esqueceu poderá vir buscá-lo na sacristia.
      No dia seguinte, às seis horas, como de costume, o sacristão abriu a igreja, acendeu as luzes, bateu os sinos, e quando os fiéis já estavam presentes, o nosso homem, muito compenetrado do seu ofício, transmitiu-lhes o aviso do vigário:
      - O padre Aleixo manda avisar que está doente, mas que isso não é pecado mortal. Quinta-feira próxima é a primeira sexta-feira do mês, e o Papa virá fazer a coleta. Além disso, quinta-feira é também a festa de Benedito Bueno e Pafúncia dos Prazeres, e o vigário fará o casamento de São Pedro e São Paulo. Se alguém souber de algum impedimento, deverá colocá-lo no embrulho que se encontra na sacristia.
      Devo dizer, entretanto, pela minha experiência adquirida ao longo do tempo, nas muitas igrejas por que passei, que entre os sacristães há honrosas exceções. Se não a bem da verdade, pelo menos em atenção ao nosso sacristão da paróquia, pessoa que muito me honra com sua preciosa amizade...

sábado, 24 de novembro de 2012

SONHOS DE UMA TARDE DE VERÃO


      Ele a encontrou à sombra de florido flamboyant, no jardim da cidade. Não sei se esse encontro lhe trouxe alguma transformação para o futuro. O que posso afirmar, com certeza, é que, nos rápidos momentos passados juntos, ela lhe proporcionou instantes de indizível felicidade.
 
                                                         *******************
 
      Jovem camponês, filho de pequeno proprietário rural que teve suas terras leiloadas para cobrir dívidas de financiamento bancário, ao rapaz não sobrou outra alternativa  a não ser deixar a enxada e o arado, e vir tentar a sorte na cidade grande. Chegou há muitas semanas, com algum dinheiro no bolso de brim barato e um incêndio de ambições na cabeça.
      As avenidas rumorosas, a agitação poliforme, o trânsito desenfreado e perigoso, o imprevisto e o inesperado assaltando-o a cada esquina, os odores diferentes, a moda descontraída e insinuante das mulheres, o maravilhoso das coisas e dos aspectos urbanos, a cidade inteira alucina-o numa alegria deslumbrante.
      Na sua ingenuidade de recém-chegado, julga fáceis todas as coisas; abertos à sua frente todos os caminhos. Nesta ilusão perigosa, procura emprego com as mais fagueiras esperanças.
      Vê, porém, frustrados, todos os seus anseios. Ou porque sua aparência não fosse lá bastante convidativa, ou porque a vida está mesmo apertada, o certo é que não conseguiu nenhuma colocação.
      Assim, correm os meses, as refeições vão-se encolhendo, até se transformarem em sanduíches de pão com mortadela; a cara da dona da pensão vai-se fechando a cada dia que passa sem pagamento. Coisa trágica!
      O moço resolve dar o milésimo giro pela zona comercial, a ver se tem mais sorte desta vez. Aventura-se por um supermercado. Fala ao gerente. Oferece os seus serviços. O gerente não o conhece. O candidato não tem referências. Ademais, o salário mínimo subiu, os consumidores retraíram-se, a recessão bate às portas, a Assembléia Constituinte ameaça a estabilidade e a jornada de quarenta horas, e com isso vai para as ruas uma boa leva de trabalhadores. Voltasse outro dia. Talvez até lá surgisse alguma vaga.
      Desengano maldito!
      O pobre se atira a todas as casas comerciais. Todas elas têm gente de sobra. Todas dizem que o novo plano econômico do Governo fracassou, que estão operando no vermelho, por isso são obrigados a comprimir despesas, não podem contratar ninguém. Oficinas, bares, farmácias, lojas de confecções, postos de gasolina, tudo a mesma coisa.
      E pelas calçadas rescaldantes, frustrado, arrependido de ter vindo para a cidade, caminha o infeliz na sua lentidão desiludida, coração opresso, até que cansado da busca infrutífera, se atira nos braços acolhedores de um banco de jardim.
      E foi então que ela chegou.
      E chegou faceira, cativante, ostentando suas graças e donaires na sedução irresistível das formas bem feitas. Como era linda! Encantadora mesmo! Se o rapaz estivesse a par da linguagem das novelas e dos romances, diria que ela estava tentadora. Não conhecia essa linguagem, por isso se limitou a contemplá-la, embevecido, em muda admiração, pois nunca na sua vida ele vira beleza igual.
      E a borboleta (pois era uma linda borboleta, dessas grandes e douradas), atraída pelo perfume de rubicunda rosa, voava e tornava a voar, descomprometida, fazendo brilhar ao sol as asas de setim.
      O divorciado da sorte deixou-se estar a contemplá-la, na plácida modorra de um faquir. E foi então, aos seus olhos incrédulos que, dentre as translúcidas asas da borboleta a volitar, pareceu-lhe surgir tênue fumaça, que pouco a pouco se foi adensando até formar um rosto... e esse rosto era o seu!
      Nessa fantástica miragem, viu-se o rapaz transformado em rotundo ricaço, a exibir o fausto e a ostentação de uma situação privilegiada. A cada volteio da despreocupada borboleta, mais e mais o jovem se aprofundava em seu êxtase. É agora dono de rico e majestoso palacete, centro de reunião e de festas da fina flor da sociedade local.
      Suas emoções crepitam. Passam-se minutos, que lhe parecem séculos, neste deslumbramento de riquezas nunca jamais possuídas. Diante dele espelham-se todos os seus mais ardentes desejos, agora realizados, e ele se vê em companhia de outros rapazes, de muitas e muitas moças maravilhosas, simpático, atraente, e com aquele ar desdenhoso e distante, da abastança regalada.
      As translúcidas asas da borboleta dourada transformam-se, para o rapaz que sonha, num televisor gigantesco, onde as imagens alegres do mundo se sucedem sem parar. O mundo está delirante, as pessoas cada vez mais belas e encantadoras, a cidade sempre mais cheia de magia, e ele entre tudo isso. Que delícia! Como é bom viver!
      O rapaz sonha. Está no auge de sua felicidade, com todos os seus desejos realizados, apaixonado de todas as mulheres, possuidor de todas as comodidades da vida, fruindo todos os prazeres e luxos que o dinheiro proporciona, quando um estudante, que "enforcara" as aulas, também avista as fulgurações da borboleta dourada!...
      Na ânsia de colher novo espécime para sua coleção, corre para ela, persegue-a, alcança-a, dá-lhe com o livro, derruba-a na grama verde do jardim. E, com ela, as falazes quimeras do sonhador!
 
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      Coisas da vida!
      O pobre moço vê destruída, de um golpe, toda a sua felicidade.
      Já agora o tortura o aguilhão da fome. Procura algum dinheiro nos bolsos. Nada. Vazios.  E melancólico, frustrado mais uma vez, roendo dolorosamente as unhas maltratadas, ergue os olhos para o horizonte longínquo, procurando nele, quem sabe, uma nova borboleta dourada, que lhe venha trazer, por alguns instantes, mais alguns retalhos de mentira à sua vida inútil e miserável!...

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A BELEZA DO LOUVOR A DEUS


      A beleza e a grandeza do Antigo Testamento, no meu modesto entender, está começando a se tornar plenamente evidente em algumas ótimas teologias do Antigo Testamento escritas por especialistas protestantes, como Von Rad e outros. O universo do Antigo Testamento é um universo de louvor, do qual homem e mulher constituem parte viva e essencial, lado a lado com os coros angélicos no Céu.
      Ora, para o cristão o louvor a Deus é a mais segura manifestação da verdadeira vida. A característica do Xeol, a região dos mortos segundo a Bíblia, é a ausência total de louvor. Os salmos, como eu os entendo, são a mais pura expressão da essência da vida neste nosso universo: Javé se faz presente quando os salmos são cantados com vigor triunfante e cheio de jubilosa alegria (e não apenas murmurados a meia voz e meditados individualmente na barba de cada um).
      Essa presença e comunhão, esse vir a ser no ato de louvor é o cerne do culto no Antigo Testamento, como o é também hoje quando a comunidade se reúne no culto litúrgico. O louvor vivo é a plenitude do ser de homem e mulher em relação a Deus.  Contudo, tem também uma dimensão histórica: fé no poder de Deus e em Suas grandes obras de misericórdia, assim como em Suas promessas torna a história presente àqueles que cantam como realidade e fato teológico.
      A compreensão teológica desses grandes feitos do Senhor é sentida e experimentada em toda a sua beleza. O magnífico poder da radiosa presença do Senhor revelada em Seus feitos salvíficos toma inteiramente posse do adorador. Daí a qualidade arrebatadora dos salmos, quando a comunidade em peso ergue a voz vibrante na liturgia, cantando, jubilando, exultando...
      Lembro-me muito bem do tempo em que cursava Teologia na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, e nosso coro era conduzido pelo Padre Talarico, maestro de grande sensibilidade e empatia, que em certos domingos do Tempo Pascal conseguia movimentar-nos a cantar de tal maneira, que eu pensava que fôssemos arrancar o teto de nossa igreja.
      Repetimos a mesma façanha na festa da Ascensão que se seguiu. O texto musical prestava-se perfeitamente para isso: Jubilate Deo omnis terra, "cantai a Deus vossa alegria, Terra inteira".
      Jubilate: expressa uma alegria que quase não se pode conter. Onde encontrar isso hoje em nossa liturgia? Este é o verdadeiro grito de triundo da liturgia, o triunfo que experimentamos quando a beleza divina e angélica se apodera de todo o nosso ser na alegria do Cristo ressuscitado!
      A grandeza de Deus é mais bem louvada pelos homens e mulheres que atingem e percebem seus limites, sabendo que seu louvor não é capaz de alcançar a Deus. Neste aspecto, o canto gregoriano possui uma graça particular para fazer sobressair essa experiência do louvor, que atinge seu limite, fracassa e, no entanto, continua vivo numa nova dimensão.
      Desse modo, o louvor atinge não só o coração de Deus, mas também o coração da própria criação, encontrando, por toda parte, o belo da grandeza de Javé, nosso Deus e Senhor.
      Até hoje, mais de 49 anos passados desde os meus tempos de Faculdade de Teologia, a lembrança  desses fatos me faz faz voltar no tempo e sentir-me tão empolgado como costumava sentir, ao viver tão expressiva experiência!

domingo, 18 de novembro de 2012

TEOLOGIA EM PÍLULAS


      - Se quase não há mais cristandade, em compensação há cristãos. Cristãos escolhidos, que preparam o futuro em segredo. Que os haja em todas as nossas comunidades, cristãos fervorosos, lavando uma vida espiritual infinitamente mais rigorosa que a dos nossos antecessores na Fé, é já uma esperança e uma alegria. Quanto mais, no plano dos conjuntos políticos e institucionais, a apostasia é planetária, no plano das comunidades populares a Fé se mostra viva.
      Graças sejam dadas a Deus, porque verdadeiramente é um milagre, o milagre da Fé.
 
      - Haverá sempre pobres entre vós! - dizia Jesus. Não deveríamos esquecer que se esses pobres reclamam todos os nossos cuidados temporais e espirituais, não é em primeiro lugar porque se trata de ventres a saciar, de corações humanos a encher de ternura, mas sobretudo porque a sua multidão inumerável constitui, entre nós, a presença de Jesus Cristo.
 
      - Os cristãos que desejam milagres espetaculares enganam-se. O homem e a mulher são feitos de tal modo que, não estando moralmente preparados para ir ao encontro de Deus, nem o milagre mais extraordinário os convencerá.
 
      - Reza e trabalha! - dizia  São Bento. É preciso lutar, como se tudo dependesse de nós, e por-se de joelhos como se tudo dependesse de Deus.
 
      - Deus não pode encher o mundo de milagres nem atender a todos os oprimidos em virtude da injustiça, da enfermidade, da guerra, ou por causa de catástrofes naturais. Mas entrou e entra na História através de nossa liberdade para transformar tudo isso à medida que nos for possível.
 
      - A espera de uma nova terra, longe de esmorecer, deve antes avivar a nossa preocupação pelo aperfeiçoamento desta Terra, na qual cresce o corpo da nova família humana.
 
      - Os cristãos deste século querem pão, pão verdadeiro que sacie; querem água, água verdadeira que lhes estanque a sede; querem luz, a luz da verdade, que não se apaga. Querem ouvir a Palavra divina, simples, poderosa, indo até à junção do espírito e das medulas. Essa Palavra de Deus é Jesus Cristo, o Verbo de Deus.
 
      - A Fé é sobrenatural, livre e racional. É sobrenatural porque, no princípio, no meio e no fim, é sempre o apelo de Deus que solicita homem e mulher, os ampara e os faz chegar à Fé. É livre, porque, sem o consentimento da vontade humana, nem todo o oceano da divindade conseguiria franquear os umbrais de nosso tabernáculo interior. Enfim, é racional, porque no começo, no meio e no fim, o ato de Fé é uma atividade eminentemente digna da inteligência humana,
 
      - É próprio da liberdade humana poder, com sua minúscula recusa, perdida nas imensidades do tempo e do espaço, deter o oceano da graça divina.
 
      - A Pátria, para mim, é onde consigo rezar bem.
 
      - Nós nunca sabemos que dique derrubamos quando cedemos às tentações, porque um pecado não se isola; é como uma invasão da morte. Nunca se sabe quanto se perdeu, nem se avaliará a extensão do desastre, senão no Juízo Final.
 
      - Deus prepara os seus dons à medida de nossa sede. Decerto nós não podemos impor a Deus a maneira de nos atender. Mas também não podemos considerar nossas decepções como negativas. Para além de nossas esperanças, precisamos acreditar na Esperança.
 
      - A Graça é a parte de Deus; o desejo da Graça é a minha parte.
 
      - A primeira responsabilidade de um homem e de uma mulher de Fé é fazer da sua Fé uma parte real da vida, não a discutindo, mas a vivendo.
 
      - Não posso descobrir Deus em mim nem a mim em Deus, se não tenho a coragem de enfrentar-me exatamente como sou, com todas as minhas limitações, e de aceitar os outros como eles são, também com todas as suas limitações. 

sábado, 17 de novembro de 2012

VOLTAR AO PAI



      Uma coisa é sumamente importante em minha vida de cristão, acima de tudo: "voltar ao Pai".
      A Bíblia nos diz que o Filho veio ao mundo e morreu por nós, ressuscitou e voltou para o Pai. Enviou-nos o Espírito Santo para que nEle e com Ele pudéssemos voltar ao Pai.
      Sim, para que pudéssemos passar completamente para além da névoa de tudo que é transitório e inconclusivo: voltar ao Imenso, ao Primordial, à Fonte, ao Inconhecível, Àquele que ama e conhece, ao Silencioso, ao Misericordioso, ao Santo, Àquele que é tudo.
      Procurar algo, preocupar-se com algo fora disso, é loucura e enfermidade. Pois isso é o sentido pleno e o cerne de toda existência. E é nisso que todos os negócios de nossa vida e todas as necessidades do mundo e dos homens e mulheres tomam seu sentido certo. Tudo aponta para essa única grande volta à Fonte.
      Toda a meta que não é fim último, todo o fim da linha, que podemos ver e planejar como fim ou fins, são simplesmente absurdos, porque estas coisas nem têm início. A volta é a volta para além de todos os fins e o início de todos os inícios.
      O retorno ao Pai não é um voltar no tempo, não é fechar o livro da História, nem reverter seja o que for. É ir adiante, ir além. Pois retroceder pelo mesmo caminho seria vaidade acrescentada à vaidade - renovação do mesmo absurdo em sentido reverso.
      Nosso destino é seguir para além de tudo, deixar tudo, apressar para atingir o Fim e encontrar, no Fim, nosso Princípio, o Princípio sempre novo que não tem fim.
      Obedecer-Lhe no caminho para alcançar Aquele em quem tive início, que é a chave e o fim - porque, na verdade, Ele é o Princípio.
      Esta é a lição que o monge cisterciense norte-americano, Thomas Merton, me ensina nesta manhã de sábado, quando estou sozinho em casa, enquanto minha mulher e a neta Isabela estão no litoral, em merecidas férias...
     

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

E POR FALAR EM RESSURREIÇÃO...



      Se em novembro temos um dia consagrado aos mortos, (e eu tenho um morto muito querido a lembrar: minha filha Raquel, falecida há dois anos), para o cristão a morte não é o fim definitivo e total da pessoa humana, pois acredito na ressurreição dos mortos, não em um problemático final dos tempos, mas no instante da própria morte.
      O apóstolo Paulo chamava o homem ressuscitado de corpo-espiritual. Com isso entendia o homem todo inteiro alma-corpo, mas totalmente realizado e repleto de Deus.
      Como poderíamos designar o homem ressuscitado? Utilizando-nos de uma categoria da antropologia baseada no princípio-esperança, talvez pudéssemos dizer: homo revelatus,  como sugere o teólogo brasileiro Leonardo Boff,  no seu primoroso livro "A nossa ressurreição na morte".
      Com a ressurreição, se revelou realizado o verdadeiro homem que estava crescendo dentro da situação terrestre, aquele que Deus realmente quis quando o colocou dentro do processo evolutivo. O homem verdadeiro, em sua radical patência, é só o homem escatológico, explica Boff.
      Pela ressurreição, o poder-ser do homem-ser se realiza exaustivamente: ele sai totalmente de sua latência, pois nele se revela o desígnio de Deus sobre a natureza humana, que é fazê-la participar de Sua divindade com toda a realidade dela, corpo-espírito-aberta-para-a-totalidade.
      O homo revelatus participa da ubiquidade cósmica de Deus e de Cristo: possui uma presença total no mundo criado, tornando-se assim o homo cosmicus.
      Agora, na presente condição espácio-temporal, existe apenas o homo revelatus, que está ainda preso às categorias deste mundo, e vive na condição bíblica de simul justus et peccator  (ao mesmo tempo justo e pecador).
      A morte vem libertá-lo e possibilitar-lhe uma penetração mais profunda no coração do mundo. Pela ressurreição na morte ele participa do Cristo ressuscitado e cósmico. Na consumação final do mundo-universo, ele mesmo se potencializará, porque o cosmos lhe pertence essencialmente.
      No final da vida terrestre, o homem deixa atrás de si um cadáver, que é dado à terra. É como um casulo que possibilita o emergir radiante da crisálida e da borboleta, agora não mais presa pelos limites do casulo, mas aberta ao horizonte vasto de toda a realidade.
      Diante da pergunta fundamental da antropologia - que será do homem? que podemos esperar de seu futuro? - a Fé nos responde cheia de júbilo: vida eterna do homem-corpo-espírito em comunhão íntima com Deus, com os outros, e com todo o universo.
      -"Passa certamente a figura deste mundo deformado pelo pecado", adverte-nos o Concílio Vaticano II", mas aprendemos que Deus prepara morada nova e nova Terra. Nela habitará a justiça, e sua felicidade irá satisfazer e superar todos os desejos da paz que sobem nos corações dos homens. Então vencida a morte, os Filhos de Deus ressuscitarão em Cristo... e toda aquela criação que Deus fez para o homem será libertada da servidão da vontade... O Reino já está presente em mistério aqui na Terra. Chegando o Senhor, o Reino se consumará."(Gaudium et Spes, 39).
      São muito consoladoras as palavras da Missa dos Mortos, que resumem toda a teologia exposta nas linhas anteriores:
      - "Em Cristo brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola, porque, aos que creem em Deus a vida não é tirada, mas transformada; desfeito o corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível", nas palavras felizes do apóstolo Paulo.
      Hoje ainda choro a ausência física entre nós de minha filha Raquel. Mas, porque tenho a firme certeza de que ela ressuscitou na morte, esta convicção torna menos pesada para mim a tristeza da separação.