domingo, 26 de fevereiro de 2017

BESTEIRAS DE UM JUIZ

           

            Nos felizes tempos em que eu cursava a Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, na Capital paulista, a língua latina era a minha maneira predileta de comunicar-me com professores e colegas.  E até hoje, os oitenta e um anos que me pesam nas costas não me impedem de ler a Bíblia Sagrada em Latim.
            Tenho sempre em minha mesa de trabalho um livro de provérbios latinos que leio todos os dias. E um desses provérbios que mais me agrada é o seguinte: -"De mulieribus numquam satis" - que, em língua de gente, poderia ser traduzido mais ou menos assim: - "Das mulheres nunca se diz o suficiente"
            Pois a "Gazeta do Povo", que eu leio diariamente junto ao café da manhã, publicou tempos atrás  reportagem com um  certo juiz de Sete Lagoas, MG, em que o magistrado, comentando a "Lei Maria da Penha", afirmou com todas as letras, que a desgraça humana entrou no mundo através de uma mulher, "fato que todos nós sabemos...", reforça ele.
            Além da enorme besteira de uma leitura fundamentalista da Bíblia Sagrada, tomando como verdade indiscutível o que nela foi escrito há milhares de anos atrás, ou seja, tomando ao pé da letra o que não passa de um mito, o egrégio e machista juiz continua sua arenga proclamando que o mundo é masculino, que a idéia que temos de Deus é que Ele é masculino, que Jesus é masculino, que os anjos são masculinos, que Satanás é masculino, que o Céu e o Inferno são também do gênero masculino... E por aí, vai...
            Não sei se é por causa dessa sua esquisita obsessão ou por outra qualquer, o fato é que a então Corregedora Nacional da Justiça, a ministra Eliana Calmon, emitiu a opinião de que o juiz faria bem em submeter-se a um exame de sanidade mental, visto que suas estapafúrdias declarações à imprensa configuram uma certeira incitação ao preconceito machista contra a mulher.
            Com efeito, o então emérito juiz de Sete Lagoas declarou à imprensa  que a "Lei Maria da Penha" contém um conjunto de "regras diabólicas, e que não passam de um monstrengo tinhoso..."
            E eu, cá do meu canto, na minha Curitiba cantada em prosa e verso,  e devidamente assistido pelos meus fecundos 81 anos no costado, só posso desejar ao incauto Juiz que ele faça juz (sem trocadilho), ao merecido e, no meu modesto entender, pequeno descanso a que foi justamente (outra vez sem trocadilho) condenado!...
 
                                *******************

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O LIXÃO DA GRANDE METRÓPOLE



            Manchete do jornal:

            - "Pessoas, vacas, cavalos, urubus e cães vadios dividem espaço no lixão do Embocoí".

                                                  ***************************

            Alguém menos prevenido poderia achar normal semelhante cena, mas, no meu entender, um mínimo de percepção da realidade em que vivem vastas parcelas de nosso povo das periferias da  Capital, marginalizadas e desassistidas pelos poderes públicos, nos diz que o quadro é tremendo.
            Quando os primeiros caminhões da coleta do lixo urbano nem bem acabam de descarregar no lixão da metrópole , numa imitação trágica das histórias da carochinha, eles vêm, não se sabe bem de onde. Uns "moram" por perto, outros vêm de longe, chegam, encostam carrinhos ou abrem sacos, e começa a disputa: de um lado, seres humanos, ansiosos e tristes; do outro, urubus e cães vadios, famintos.
            Os bandos de urubus e de cães ficam à espreita. Descarregados os caminhões, eles avançam sobre o lixo; os enormes veículos não os assustam. Então aparecem os perigosos concorrentes: crianças, jovens, adultos, velhos, todos irmanados na ânsia de colher alguns restos que lhes proporcionem um minguado dinheirinho para as necessidades do dia-a-dia. Ávidos, começam a procurar e a catar. Tudo serve: restos de comida, latas, ferro velho, papel, garrafas descartáveis, latinhas de cerveja, plásticos, papelão. Qualquer coisa que possam comer ou vender. É o espetáculo gratuito da miséria.
            Assustando as aves da carniça e os cães, espantando-os, os párias da celebrada Capital "fuçam", como porcos, a imundície. Armados de paus e pedras espantam os cães e os urubus que tentam roubar-lhes o pouco que esperam recolher. Quando já conseguiram o suficiente para vender no ferro-velho ou nos depósitos de recicláveis, correm para trocar por míseros reais o que a busca lhes proporcionou.
           Outros, com menos sorte, depois de seguidas vezes mexendo e remexendo o grande amontoado de lixo, sentam-se sobre a sujeira, contemplando-a desiludidos, até que os tratores da Prefeitura venham fazer o seu serviço, esparramando-a e cobrindo-a de terra.
           A poucos passos do grande palco onde se representa o mais vergonhoso drama da vida real, erguem-se os barracos de mais uma das centenas de invasões de que sofre a metrópole. Das portas, mulheres encarquilhadas, mais pela fome crônica do que pela idade, contemplam seus maridos e filhos na árdua e triste batalha com urubus e cães vadios.
           Nada mais as impressiona. Quem mora em favelas ou em áreas de invasão acostuma-se a assistir a qualquer dessas cenas sem se emocionar. Crianças desnudas de ambos os sexos, brigas, palavrões atirados em altas vozes, pragas e imprecações são comuns no linguajar de adultos, adolescentes e crianças. A ingenuidade, a pureza e a delicadeza de sentimentos não existem, desde os mais tenros anos, para aquelas pobres vítimas da sociedade globalizada e egoísta.
           Quantas vezes, após uma busca prolongada, que resultou infrutífera, uma frágil menina-moça ou um garoto ainda imberbe aceitam o convite de um dos malandros que de longe os observam, e daí a pouco haverá um ou mais jovens a perambular pelas ruas da Capital, nos caminhos da prostituição ou do tráfico de drogas.
            Este é o espetáculo da marginalização, da miséria e da fome, à sombra dos arranha-céus da celebrada metrópole paranaense, cantada em prosa e verso.
            Diante de quadros como este, compreendo melhor o grito de revolta e de incontida indignação do grande romancista e polemista, além de cristão dos bons, que a França nos legou, Léon Bloy:
            - "Ah! Se torcessem vossas roupas de grife, elas haveriam de sangrar! Se espremessem esse automóvel de luxo e vissem como foi adquirido, vocês o achariam feito do pão arrancado à boca dos pobres. Quando recordamos que é preciso que uma criança sofra fome e frio num barraco gelado, para que uma menina cristã e rica desfrute das delícias de uma boa mesa junto à lareira, como nos custa esperarmos a justiça de Deus!"
 
                                                  ******************************
 
Aroldo Teixeira de Almeida é licenciado em Teologia Dogmática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Capital paulista.
 
                                                 ******************************

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"...e por falar em mulheres!"



            Tempos atrás, quando ainda estudante de Teologia na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, na Capital paulista, tive a imerecida honra de participar de um debate promovido pela "Rede Vida" com o então bispo de Porecatu (MG).
            Propus então ao ilustre prelado duas questões que por essa época andavam perturbando meu espírito. .
            Primeira: atendendo à exortação do saudoso Papa João XXIII para que se prestasse acurada atenção aos sinais dos tempos, estaria a Igreja disposta a dar uma guinada para a modernidade, concedendo o sacerdócio ministerial às mulheres? 
            Segunda: um fato real, de um jovem casal católico, apenas quatro anos de casados: ele, em viagem de negócios, teve um contato casual com uma mulher, e contraiu o vírus da Aids. A esposa, jovem, vinte e três anos, não aceitou abster-se de uma vida sexual sadia e segura, e exigiu do marido o uso do preservativo nas relações sexuais.
            Aproveitei a ocasião do debate, e perguntei ao bispo se, diante desse caso concreto, a Igreja suspenderia o impedimento para um católico do uso de preservativos, tendo em vista a saúde da esposa e de eventuais filhos. A resposta do bispo foi curta e grossa, literalmente mandando-me calar a boca e  respeitar o sagrado e infalível magistério eclesiástico.
           Como é que ficaria, então, a situação da mulher no âmbito desse   sagrado e infalível magistério eclesiástico? Uma interpretação  diferenciada da situação de homem e de mulher dentro da Igreja  teria perdido a sintonia com um dos mais belos avanços da humanidade.
            Por um lado, colocar-se-ia a Igreja institucional muito atrás das atitudes vivas de Jesus de Nazaré em relação às mulheres. Por outro lado, se impediria o dinamismo da mais profunda e dogmática proclamação a esse respeito,  feita pelo apóstolo Paulo na sua "Carta aos Gálatas"  (3,28): - "Já não há mais judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus".
            E termino meu texto com um pensamento do então arcebispo de Curitiba, comentando a visita de Jesus às irmãs  Marta e Maria: 
            _ "Não terá chegada a hora de a Igreja romper, decidida e claramente, com certa  discriminação que não deriva do Evangelho, mas de nossa cultura ainda tão impregnada de influências pagãs?"
 
                                                     *************************

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

UM FATO EM FOCO = A MULHER NA IGREJA



            Senhora amiga, ministra da Eucaristia cá na paróquia que frequento, pediu-me que eu escrevesse alguma coisa a respeito da posição da mulher na Igreja. Apesar de não ser "expert" no assunto, tentarei alinhavar alguma coisa a respeito.
            Um fato inconteste: em razão de seu sexo, as mulheres são rigorosamente excluídas de qualquer instância oficial que lhes permita exercer funções  sacramentais, governamentais e magisteriais na Igreja, se bem que após o Concílio Vaticano II elas conseguiram um grande passo, no meu modesto entender: o de servir junto ao altar como ministras da Eucaristia.
            Permanece inflexível, no entanto, o princípio segundo o qual nenhuma mulher é admitida às funções eclesiais cujo exercício exige, como condição prévia, a ordenação sacerdotal. A disciplina da Igreja formalizou o preceito segundo o qual o sexo feminino é impedimento ao sacerdócio.
            O Direito Canônico  faz uma distinção de funções reservadas exclusivamente aos homens:  aquelas que exigem previamente a pertença à hierarquia sacerdotal. Nem por isso podemos dizer que as tarefas abertas às mulheres na Igreja são desprezíveis ou negligenciáveis; mas são sempre secundárias em razão da escala hierárquica.
            Pode concluir-se então que as mulheres são menores na comunidade eclesial? Sua exclusão dos setores maiores da Igreja constitui um verdadeiro estatuto de inferioridade?  Um atentado real à sua dignidade essencial de pessoa humana? Uma forma evangélica de discriminação?
            Atualmente número crescente de cristãos reconhece que a fidelidade da Igreja ao Evangelho exige uma transformação da situação das mulheres em relação à instituição eclesial dessas limitações.
            Pergunta-se, com razão: Por que a Igreja permanece agarrada à imagem tradicional da mulher, quando as novas relações que se instauraram hoje entre homens e mulheres, em todos os demais domínios, permitem elaborar uma linguagem diferente sobre o ser feminino? Será que a autoridade eclesiástica está persuadida de que a concepção clássica da mulher faz parte integrante da Revelação Cristã? Ou mantém ela esta concepção por medo de que uma outra concepção venha a provocar modificações muito indesejáveis na sua liturgia e no seu exercício do poder autoritário de seu magistério?
          Com efeito, me parece, o que estaria em jogo nesta questão não é só a relação entre homens e mulheres na comunidade eclesial, mas a da própria e autêntica concepção de Igreja, segundo o Evangelho e a atitude de Jesus para com as mulheres.
          Deixo aqui este breve questionamento, e pretendo voltar com melhores argumentos num próximo texto.
 
                                                        **********************
            

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O MAL IMENSO DO PECADO



            Semana passada, mais precisamente no sábado, fui à Missa vespertina, e notando o Padre Alceu no confessionário, sem alguém para atender, criei coragem e decidi-me a confessar os meus pecados, que não eram poucos, e alguns deles bastante graves, no meu exame de consciência.
             Li no "Catecismo da Igreja Católica" que o pecado é um mal imenso.  Só não o sinto "doer" com toda certeza por ter já perdido a sensibilidade religioso-espiritual, a agudeza da Fé dos meus tempos de seminarista, andando hoje por aí distraído pelas preocupações mundanas do dia-dia de aposentado, sem ter praticamente nada para fazer, além das minhas constantes leituras, meu passatempo predileto...
            É claro que, estudando o "Catecismo", aprendi que o pecado acarreta uma perturbação não só de ordem pessoal, mas também da ordem universal, estabelecida por Deus com infinito amor, infinita sabedoria. O pecado é uma destruição de bens imensos, quer se considere o pecador individualmente, quer a sociedade, a humanidade inteira. 
             A consciência cristã viva (digo "viva", porque ela anda muitas vezes adormecida ou morta) percebe, "sente" o pecado como transgressão, descaso, desobediência, desprezo efetivo do amor de Deus, uma quebra de amizade entre mim e Deus, uma deliberada ofensa contra Deus. Tenho plena consciência de que isso é grave demais para que eu possa avalia-la como natural: só a Graça divina me permitiria chegar mais perto dessa compreensão.
            Ora, se eu quero voltar para Deus, essa volta exige de mim uma purificação profunda, radical. Não porque Deus queira me ver sofrer para pagar os males que pratiquei, mas porque, para chegar ao amor total que é necessário para me apegar a Deus, até "me perder" nEle, como será no Céu, é também intrinsecamente necessário que eu seja purificado no "fogo" de Seu amor. O amor de Deus é purificador. Mas a purificação, que aprendi estudando a "Teologia Sistemática" de Pannenberg, inclui inevitavelmente que saia de mim a impureza, a maldade, o egoísmo, o apego às coisas que me separam do Amor. É um verdadeiro arrancar de raízes. E isso dói.
            Falta-me coragem para entregar-me assim ao Amor. Uma dia, se conseguir sair das "ilusões" dos sentidos, quando me sentir nu e descoberto diante de Deus e de mim mesmo, isto com toda certeza será um sofrimento ", mas amado. O "Purgatório", ensinou-me o "Catecismo da Igreja Católica",  é amor purificador, sem desespero, pelo contrário, cheio de esperança, em que o sofrimento é conhecido e visto como um momento de aproximação da Luz, do Bem Infinito, da Paz.
            Aí está o caminho. E não há outro. Até porque, num texto do Papa Paulo VI, encontrei que, sem essas penas purificadoras, homem e mulher facilmente perderiam a noção do enorme mal que faz o pecado.
            Se o perdão da culpa e da pena eterna, facilitada pelo Sacramento da Penitência, viesse acrescentado por uma facilitação bem grande do perdão de toda pena, certamente  eu deixaria de pensar que o pecado não teria tanta importância assim. Mas a gravidade das penas me fazem reconhecer a insanidade e a malícia  de meus pecados, bem como as deploráveis consequências que eles me acarretam.
            Não fosse a esperada e gratuita misericórdia de Deus, minha condenação eterna se tornaria inevitável!...

                                                   *******************************