terça-feira, 30 de maio de 2017

O PROBLEMA DO MAL NO MUNDO



           
           - "Ou Deus quer eliminar o mal do mundo, mas não pode; ou pode, mas não quer eliminá-lo; ou não pode nem quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, não ama o ser que criou; se não pode nem quer, não é o Deus bom e, ademais, é impotente. Se pode e quer - e isto é o mais seguro - então, de onde vem o mal real que nos acabrunha, e por que Ele, todo poderoso, não o elimina de vez?"  (Epicuro, apud Lactâncio, em "De ira Dei" -  A ira de Deus).


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            A citação acima é um texto de Lactâncio, filósofo grego, nascido no ano 341 antes de Cristo, escrevendo sobre a relação entre Deus e o mal presente no mundo. Nesse livro, o autor adverte os seus partidários de que Deus não é somente bondade, mas também justiça vindicativa contra os maus.
            Na verdade,  à primeira vista, nada tão oposto ao Deus de Jesus de Nazaré, que conhecemos pelos Evangelhos como Pai de amor e de bondade infinita, que a presença do mal no mundo criado por Ele, presença esta terrível e sem remédio, que se estende por todos os tempos e a todos, inocentes e pecadores, sem exceção. Em forma de catástrofes cósmicas, de enfermidades e sofrimentos orgânicos, de padecimentos ou deformações físicas ou morais, o mal se ergue como uma barreira aparentemente intransponível, entre a sensibilidade espontânea do homem e da mulher, e a bondade proclamada de Deus.
            - "O problema do sofrimento e do mal está na raiz de numerosas crises de Fé. Se Deus existe, por que este fracasso, esta morte prematura, esta traição ao nosso amor, este acidente de trânsito, esta doença que me faz sofrer, esta perda de emprego, este fracasso na vida?" -  (Missal dominical, segundo domingo da Quaresma).
            Considerando-se em abstrato a onipotência divina, impõe-se reconhecer que, em pura honestidade lógica, as alternativas propostas pelo dilema de Epicuro são insuperáveis. Se nessa perspectiva, se no mundo há mal, é porque Deus onipotente não quer eliminá-lo. E da mesma forma, se considerarmos o dilema sob o prisma da possibilidade de um mundo sem mal, e se apesar de tudo, o mal existe, é porque o Deus bom e justo não pode evitá-lo.
            Sendo assim não seria o ateísmo a única solução lógica para o ser humano acossado pelo mal sem remédio, conforme proclama pelo mundo inteiro o profeta do ateísmo moderno Richard Dawkins, em seu livro "Deus, um delírio", que acabo de ler por estes dias?
            Em que cabeça cabe que Deus pudesse exigir a morte violenta de Seu Filho feito homem, Jesus de Nazaré, para resgatar os pecados da humanidade, como leio em muitos manuais de devoção em uso por aí?
            É aceitável a monstruosidade de um Deus que, chamado "Pai" pelos cristãos, tenha exigido de um outro pai, Abraão, que Lhe sacrificasse seu filho único e querido, Isaac, como prova de obediência?
           Quem veria hoje um gesto de fidelidade e religiosidade profunda de um voto que, como no caso de Jefté, no "Livro dos Juízes", implicava sacrificar a Javé sua filha inocente?
            Se Deus previu o pecado de Adão, com todas as suas funestas consequências, e nada fez para evitá-lo, carece de boa vontade para com o homem e mulher, e se podia fazer tudo para impedir a queda deles, e não o conseguiu. então voltamos ao dilema de Epicuro: Deus não é todo poderoso como supúnhamos (Pierre Bayle,  "Réponses aux questions").
            Pode-se conceber que um Deus "que é amor" se dedique a castigar com tormentos inauditos e por toda a eternidade, no assim dito inferno, um ser humano que muitas vezes, em um momento de fraqueza, cometa um pecado que os moralistas chamam de "mortal"?
            Se Deus é tão bom e quer salvar a todos os seres humanos, por que aguardar tanto, até a vinda de Jesus de Nazaré, deixando abandonados por séculos e séculos a todos os antepassados? É a pergunta feita por Celso, o pagão, aos apologistas cristãos de seu tempo?   

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            A problemática do mal no mundo tem mil e uma nuances, e esta problemática sempre me preocupou. Um padre amigo, cá da paróquia que frequento e a quem expus as minhas dúvidas, me aconselhou a leitura dos livros de Santo Agostinho. Ledo engano. Li a todos, detendo-me muito mais nas suas famosas "Confissões". A mentalidade agostiniana, mais propensa a sublinhar o peso do pecado original e o perigo dos pecados pessoais, do que a valorizar a universalidade da salvação e a extensão infinita da misericórdia divina, sempre me desalentou.
            Ainda mais: quando no seu tratado clássico "De Gratia Dei" - A Graça de Deus - me deparei com a horripilante, desumana e cruel doutrina da predestinação, segundo a qual Deus  destina inapelavelmente alguns para o Céu e outros para o Inferno, sem possibilidade de reversão, fiquei ainda mais complexado do que antes. É verdade que já conhecia alguma coisa sobre predestinação, lendo Calvino e os jansenistas, mas nunca com a intensidade e definitividade  como em Agostinho.
            Isto me acompanhou durante durante um certo tempo, e só me libertei de meus fantasmas quando conheci o teólogo galego, Andrés Torres Queiruga, com o qual aprendi que a doutrina da predestinação deveria ser totalmente banida dos manuais de teologia, pois representa a parte mais condenável e falha de Agostinho sobre a Graça de Deus. - Por sorte esta doutrina, que parte de uma idéia de Deus que me faz estremecer, nunca foi totalmente acolhida na Igreja.
            Na verdade, como salienta Altaner em sua "Patrologia", a doutrina de Santo Agostinho sobre a Graça, baseada em uma idéia de um Deus temível e vingador, encontrou sempre, dentro da Igreja, muita contestação,  e provocou mais tarde, como em Lutero e Calvino, fautores do protestantismo, muitos e graves erros teológicos.

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            Já me estendi muito e paro por aqui, citando uma frase do teólogo suíço Hans Kung, de Frankfurt, Alemanha, na conferência de imprensa por ocasião do lançamento de seu controvertido livro "Ser Cristão":
            -"O autor escreveu o livro não por considerar-se a si mesmo um bom cristão, mas por considerar uma coisa sumamente boa ser cristão."

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                "...et sic transit gloria hujus mundi, et sic etiam Deus me adjuvet..." - completo eu.

 
           
           

sexta-feira, 26 de maio de 2017

VIDA PARA ALÉM DA MORTE



             Esta frase que serve de título ao meu texto de hoje, e lembrando-me também de meus filhos  inesquecíveis, minha  filha Raquel e meu filho Júlio, que flecharam o Céu buscando o Infinito, levou-me a meditar nesta manhã de sexta-feira e perguntar a mim mesmo: dentro da Fé que professo, se é possível uma visão positiva do fenômeno universal da morte. E a Fé que me anima responde-me que sim, porque dentro da vida humana há uma chance única na qual homem e mulher, pela primeira vez, nascem totalmente ou acabam de nascer, justamente na morte.
            Esta resposta pode ser profundamente frustrante, pois a morte sempre foi entendida como o fim da vida. Ela é dolorosa e triste como um final de festa ou como o derradeiro e definitivo aceno de uma despedida.
             A morte é, sim, o fim da vida. Ela marca a ruptura de um processo vital. Como que criando um corte entre o tempo presente e a eternidade. Mas ela, felizmente, cobre um aspecto apenas do ser humano: o biológico e o temporal. Homem e mulher  constituem algo muito superior ao biológico, porque são mais do que um animal. São também superiores ao tempo, porque suspiram pela eternidade do amor e da vida.
            Homem e mulher são pessoas, e mais que isso, interioridade. Para eles, a morte não é simplesmente um fim, mas um fim-plenitude, um fim alcançado, o lugar do verdadeiro e definitivo nascimento. Lembra-me a mulher grávida que, entre angústia, dor e esperança, segura o filhinho recém-nascido e murmura, agradecida: atingi, ó Deus, minha meta de mulher: sou mãe!
            Este fim-plenitude alcançado pela morte só é encontrado por nós na Fé. É nesta Fé que encontramos a base para a Esperança de que nossa vida não se perde no vazio do nada. Esta nossa convicção se baseia em Deus. Neste Deus que Se revelou na ressurreição de Jesus de Nazaré, e que ressuscitará também a nós pelo Seu poder infinito.
            E foi nesta Fé que meus filhos inesquecíveis, a Raquel e o Júlio, alcançaram, na morte, o seu nascimento definitivo, que é o Deus de Jesus Cristo e de todos nós, cristãos!


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sexta-feira, 12 de maio de 2017

RELENDO O "DIÁRIO DE ANNE FRANK"



            Estou lendo, pela terceira ou quarta vez, o diário de Anne Frank, a menina que, a seu tempo, por ocasião da segunda guerra mundial, emocionou o mundo inteiro, com a publicação de seu "Diário".
            Anne Frank morreu, juntamente com sua irmã, Margot, num campo de concentração nazista. (Margot morreu na câmara de gás, e Anne morreu de morte natural, vitimada pelo tifo).
Alguns dias antes de morrer Anne Frank escreveu em seu "Diário" estas palavras que sempre me emocionam quando eu o releio:
            - "Verdadeiramente minha vida mudou, e para muito melhor, porque Deus não me abandonou, e não me abandonará jamais."
             Estas palavras me fazem lembrar daquelas outras proclamadas não pelo Deus de Israel, mas por Seu Filho, tornado homem na Terra, para assumir a condição  e os sofrimentos de homens e de mulheres, bem como a dar a eles e a elas um novo sentido à sua esperança: - "Deixai vir a Mim os pequeninos."
             Apesar de sua saúde frágil, marcada por sofrimentos horríveis nos tempos de cativeiro, a alma de Anne Frank era daquelas  que, desde sempre,  responderam às palavras de Jesus de Nazaré: Deus, de fato, nunca a abandonou.]
             Naquele campo de torturas e de mortes, em Bergen-Belsen,  com seus fatídicos fornos crematórios e com o desencadeamento demoníaco das mais atrozes demonstrações da barbárie nazista, é preciso confessar que este Deus que Anne Frank  mal conseguia definir, mas cuja imagem estava presente em seu coração, nunca haveria mesmo de abandoná-la até seus últimos dias, como nos comprova o "Diário".
            E eu o creio, porque Deus, o "Abbá" de Jesus é Pai, e também porque, no mais profundo de nossas fraquezas humanas diante do sofrimento,  no recesso mais sombrio de nossas angústias e revoltas, Anne Frank representa para nós uma das mais eloquentes certezas da realização plena de nossa esperança teologal..
            Ela, que se considerava um nada, conseguiu romper a muralha de silêncio culposo  das religiões (o Papa Pio XII?) e mostrar ao mundo inteiro  nas páginas de seu "Diário", a chaga sangrenta das deportações em massa e do extermínio dos judeus nos campos de concentração. E pensar que nós, no Brasil,
estivemos bastante próximos dessa nefasta ideologia nazista na sua versão tupiniquim  do  integralismo de Plínio Salgado, cópia mal feita do fascismo de Mussolini, aliado confesso de Hitler.
            O Prêmio Nobel da Paz, o Padre Pire, que  à sua sexta aldeia européia  acolhia os refugiados de todas as regiões da Europa,  deu-lhe o nome de Anne Frank, a pequenina mártir que emocionou a  todos nós, e se tornou a menina querida do mundo inteiro..
            E termino o meu texto recomendando a todos que tenham oportunidade, que leiam o "Diário de Anne Frank", pedindo a Deus que nunca mais aconteça neste nosso mundo a tragédia da guerra e dos fatídicos campos de concentração, onde milhares e milhares de inocentes pagaram com a vida  a bestialidade dos que se julgam os senhores do mundo.

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segunda-feira, 1 de maio de 2017

O BATISMO QUE NOS PURIFICA



            Sou um "curioso" inveterado dos  assim ditos "Padres da Igreja",  da mais remota antiguidade que deixaram para nós, cristãos deste nosso século, obras teológicas de grande valor e de perene riqueza de Fé a fortalecer-nos em nossa caminhada para Deus.
             Tenho hoje diante dos olhos um texto do grande bispo São Basílio, que viveu e pontificou no século IV, escrevendo sobre o Espírito Santo. Como eu gostei muito do texto, peço licença ao eventual e benévolo leitor para transcrevê-lo aqui, valorizando o meu modesto blog:

              "Do Livro sobre o Espírito Santo,  de São Basílio, Bispo da Igreja Católica":

               O Espírito vivifica

               O Senhor, que nos vivifica, e que nos concede a vida, estabeleceu conosco a aliança do Batismo, como símbolo da morte e da vida. A água é imagem da morte e o Espírito nos dá o penhor da vida. Assim torna-se evidente o que antes perguntávamos: por que a água está unida ao Espírito? É dupla, com efeito, a finalidade do Batismo: destruir o corpo do pecado para que nunca mais produza frutos de morte, e vivificá-lo pelo Espírito, para que dê frutos de santidade.
             A água é a imagem da morte porque recebe o corpo como num sepulcro, e o Espírito, por sua vez, comunica a força vivificante que renova nossas almas, libertando-as da morte do pecado e restituindo-lhes a vida. Nisto consiste o novo nascimento da água e do Espírito: na água realiza-se a nossa morte, enquanto e Espírito nos traz a vida.
             O grande mistério do Batismo realiza-se em três imersões e três invocações, para que não somente fique expressa a imagem da morte, mas também a alma dos batizados seja iluminada pelo dom da ciência divina. Por isso, se a água tem o dom da Graça, não é por sua própria natureza, mas pela presença do Espírito. O Batismo, de fato,   não  é uma purificação da imundície corporal, mas o compromisso de uma consciência pura diante de Deus. Eis porque o Senhor, a fim de nos preparar para a vida que brota da ressurreição, propõe-nos todo o programa de uma vida evangélica, prescrevendo que não nos entreguemos à cólera,  sejamos pacientes nas contrariedades e livres da aflição dos prazeres e do amor ao dinheiro. Isto nos manda o Senhor, para nos induzir a praticar, desde agora, aquelas virtudes que na vida futura se possuem como condição natural da nova existência em Deus.
             O Espírito Santo restitui o Paraíso, concede-nos entrar no Reino dos Céus  e voltar à adoção de filhos. Dá-nos a confiança de chamar a Deus nosso Pai, de participar da Graça de Cristo, de sermos chamados filhos da luz, de tomar parte na glória eterna, numa palavra, de receber a plenitude de todas as bênçãos, tanto na vida presente quanto na futura.
             Dá-nos ainda contemplar, como num espelho, a graça daqueles bens que nos foram prometidos e que pela Fé esperamos usufruir como se já estivessem presentes.
             Ora, se é assim o penhor, qual não será a plena realidade? E, se tão grandes são as primícias, como não será a consumação de tudo na presença de Nosso Senhor Jesus Cristo?

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             E eu encerro este blog de hoje, com a seguinte prece, que retiro da  "Liturgia das Horas":  

                                           Quando emerge nossa carne das águas do Batismo,
                                           Deixando   ali sepultos os crimes do pecado,
                                           A pomba do Espírito vem voando para nós,
                                           e vem do Céu, trazendo a paz que Deus nos dá,
                                           e a Igreja é figurada pela Arca da Aliança..
                                           Bendito sacramento da Água Batismal
                                           pela qual nos tornamos capazes
                                           de entrar na Vida Eterna
                                           purificados de todos os pecados da vida passada.
                                           
                                           Amém. Aleluia.

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