segunda-feira, 7 de agosto de 2017

MEU VIZINHO E O DANADO DE SEU GATO...



            Conversando hoje com um vizinho, que é Ministro da Eucaristia na minha Paróquia cá em Curitiba, nosso assunto eram pormenores interessantes da Bíblia Sagrada.
            Em certo ponto de nosso bate-papo ele me disse:
            - "A título de curiosidade, nunca encontrei na Bíblia qualquer alusão ao gato, enquanto o cachorro é citado muitas vezes..."
            Então foi a minha deixa para mostrar-lhe que a Bíblia, na verdade, fala várias vezes do cachorro, mas não se esquece do gato, animal para mim tão encantador. E lhe respondi:
            - "Engano seu. Abra sua Bíblia em Baruch , capítulo 6, versículos 20-21, e lá Você encontrará o seu gato".
            Dei-lhe minha Bíblia para procurar o texto citado, e o vizinho o encontrou e o leu em voz alta:
             - "Suas faces estão negras da fumaça que se espalha na casa. Corujas, andorinhas e outros pássaros voam sobre seus corpos e suas cabeças, e gatos também passam sobres eles."
            Referência aos ídolos da Babilônia... É   ali que o gato aparece na Bíblia... O homem agradeceu-me pela informação, e eu fiquei satisfeito com a dica que lhe dei gratuitamente...
            Para que o benévolo leitor também encontre o danado do bichano em seu texto sagrado, não se esqueça, lembro mais uma vez:
            - "Procure Você também: Livro de Baruch, 6, 20-21."
            E assim consegui praticar uma boa ação, satisfazendo a curiosidade do meu vizinho, e eventualmente também a sua!...


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sexta-feira, 21 de julho de 2017

SAUDADES DE MINHA FILHA RAQUEL



            A data mais triste do ano para minha esposa Cleusa, para meus filhos Carlos e Aroldo Jr., para mim, e muito especialmente para minha querida neta, a Isabela, está chegando: o fatídico dia 21 de agosto, em que a mãe da Isabela e minha filha inesquecível, a Raquel, partiu deste mundo de dores para a Casa do Pai de todos os pais.
            A tristeza infindável que nos martiriza pela ausência física da pessoa amada é, paradoxalmente, aliviada pela alegria e pela certeza absoluta de que a Raquel, pela sua vida profundamente vivida, pela sua Caridade ardente para com todos que a rodeavam, descansa hoje na bem-aventurança eterna.
            Com seu organismo debilitado por um insidioso câncer que lhe corroía coluna vertebral e pulmão, com metástase cerebral, ela esperava a morte iminente, mas sua alma transfigurada pela resignação, pela acendrada confiança em Deus, e pelo amor de toda a sua pequena família que sofria com ela dia após dia.
            Permanece a dor da saudade no coração de sua filha Isabela, de seus pais, de seus irmãos, que dedicam à Raquel este singelo poema brotado da alma e fruto da dor, mas aliviada pela certeza de que ela descansa em paz junto ao "Abbá"/PaiMãe de Jesus de Nazaré, e Pai absoluto de todas as vidas:



                                            "Eu esperei a morte como se espera o Bem Amado
                                              Ignorava como ela viria
                                              Nem como viria
                                              Mas eu a esperava
                                              E não havia medo nessa expectativa
                                              Havia somente ânsia e curiosidade
                                              Porque a morte do cristão é bela
                                              Porque a morte do cristão é uma porta
                                              Que se abre para lugares desconhecidos
                                              Mas imaginados
                                              Como o Amor
                                              Que nos promete uma outra vida
                                              Diferente da nossa

                                                                    Eu esperei a morte
                                                                    Como se espera o Bem Amado
                                                                    Porque sei que em breve ela viria
                                                                    E me receberia
                                                                    Em seus braços amigos

                                               Seus lábios frios tocarão a minha face
                                               E sob a sua carícia
                                               Eu adormeceria o sono da Eternidade
                                               Como nos braços do Bem Amado

                                                                    Sei que este sono
                                                                    Será um ressurgimento
                                                                     Porque sei que a Morte é a Ressurreição
                                                                     A Libertação
                                                                     A Comunhão Total
                                                                     Com o Amor Infinito
                                                                      Junto ao Coração
                                                                      Do Pai de todos os pais


                                      
                                            Descanse na paz do Senhor, minha inesquecível Raquel
                                           
           



quinta-feira, 22 de junho de 2017

DEPOIMENTO PESSOAL



            Oitenta e um anos de idade, boa saúde, e ainda com o privilégio de ser amante de um bom vinho, não me falta melhor fortuna  que me sentar  à sombra de bela árvore no quintal de minha casa e mergulhar na leitura de meus autores prediletos: os lá dos primeiros séculos da história da Igreja, como o que estou lendo atualmente, São Cipriano, bispo e mártir do século III depois de Cristo.
            Antes do mais, ele, Doutor da paz e Mestre da unidade, não gostava que um cristão rezasse sozinho e em particular, como que  rezando só para si mesmo. De fato, não dizendo: - "Meu Pai que estais no Céu"; nem "Meu pão de cada dia dai-me hoje". O correto, para São Cipriano, seria dizer: "Nosso Pai; Nosso pão".
            Do mesmo modo, rezando-se o "Pai nosso", não se pede só para si o perdão da dívida de cada um, ou que não caia em tentação e seja livre do mal, rogando cada um para si mesmo.   Nossa oração, dizia ele, deve ser pública e universal, pois quando oramos não o fazemos para um só, mas para o povo todo, já que todo o povo forma uma só realidade, que é a Igreja.
            O Deus da paz e Mestre da concórdia, Jesus, que nos ensinou a viver a unidade, quis que orássemos um por todos, como Ele em Si mesmo carregou a todos, na Sua obra de redenção.
            Lemos no Antigo Testamento que os três jovens, lançados na fornalha  ardente, observaram esta lei da oração, harmoniosos na prece e concordes pela união dos espíritos. A firmeza da Bíblia Sagrada assim o declara e, narrando de que maneira eles oravam,  apresenta-os como exemplo a ser imitados em nossas preces, a fim de que nos tornássemos semelhantes a eles. Então, nos ensina a Bíblia, os três jovens, como que por uma só boca, cantavam um hino de louvor  e bendiziam  a  Deus. Falavam como se tivessem uma só boca e que Cristo ainda não lhes havia ensinado a orar.
            Por isto a palavra foi favorável e eficaz para os orantes. De fato, a oração pacífica, simples e espiritual, mereceu sempre a Graça do Senhor.
            De igual modo oravam os apóstolos e os discípulos depois da ascensão do Senhor: -"Eram perseverantes, todos unânimes na oração com as mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e seus irmãos".
            Perseveram unânimes na oração, manifestando tanto pela persistência como pela concórdia de sua oração, que Deus os faz habitar unânimes na Sua casa, só admite na Sua eterna e divina casa aqueles cuja oração é unânime.- "Rezai assim, diz o Senhor:  Pai nosso, que estais nos céus".
            Homem e mulher, renascidos pela Graça, restituídos a Deus, dizem, em primeiro lugar, "Pai",
porque já começaram a ser filhos.
            - "Veio ao que era seu e os seus não O receberam. A todos aqueles que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, a todos aqueles que creem em Seu nome.
            Quem, portanto, crê em Seu nome e se fez filho de Deus, deve começar por aqui, isto é, por dar graças e por confessar-se filho de Deus ao declarar ser Deus o seu Pai nos céus.
            E paro por aqui, encerrando o texto de hoje com uma oração muito do gosto de São Cipriano, e que ela se torne também para nós a oração de todo o dia, mesmo naqueles dias em que não pudermos passar sem uma bela taça de vinho:
            - "Ó Deus, anunciarei o Vosso nome a meus irmãos enólogos pela alegria que nos dais ao degustarmos sobriamente o fruto da videira, lembrando que Vós,  no Vosso amor para conosco, deu-nos a graça de Vos termos sempre conosco, no sacrário de nossas igrejas, sob as espécies sacramentais do pão e... do vinho, consagrados pelo sacerdote, durante a Santa Missa.
             Assim seja. Amém.

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quarta-feira, 7 de junho de 2017

O CRISTÃO E O MUNDO SEM DEUS



            Volto ao tema, porque ele me parece importantíssimo em nossa peregrinação pelos caminhos muitas vezes tortuosos e espinhentos da vida.
            Em Português, a palavra "mundo"  comporta uma grande variedade de sentidos. Na cristandade da  Idade Média e em épocas posteriores o conceito de "mundo" era religioso,  além de que parecia algo que devia ser rejeitado e esquecido pelo crente.
             Para isto era sempre lembrada a primeira carta de João (2, 15-17) na qual eram os cristãos exortados:
             - "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Quem ama o mundo, não está nele o amor do Pai, porque todas as coisas do mundo, tais como a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o fausto da vida não vêm do Pai, mas do mundo. E quem faz a vontade do Pai permanece eternamente."
             É muito clara esta advertência, não deixando margem a nenhuma dúvida porque, neste caso concreto, "mundo"  é o reino do egoísmo e do pecado. O mundo, assim considerado, "não pode receber o Espírito Santo"  (Jo 14,7), porque a paz de Cristo não é um dom semelhante aos dons deste mundo. Com certeza, "mundo", neste sentido, deve ser tomado como uma "criação má", algo puramente material oposto por sua natureza ao mundo espiritual.
             Infelizmente, esta interpretação derivada do maniqueísmo e do agnosticismo nos foi imposta durante muito tempo no decorrer da História, como uma visão "tenebrosa" do mundo, carente da luz de Cristo e oposta à vontade de Deus.
             Entretanto, o mundo material, porque criado por Deus, no rigor do termo não pode ser "tenebroso", e nem por sua natureza se opõe a Deus. As trevas do mundo não estão no seu aspecto
material, mas unicamente no pecado de homem e mulher, que rejeitaram o amor de Deus, muitas vezes sob o pretexto de uma religiosidade mal compreendida. Neste sentido, o mundo "tenebroso"  não passa de um mundo sem amor, distante de Cristo, um mundo formado por pessoas enrodilhadas sobre si mesmas, egoístas e sem calor humano.
             Tradicionalmente, a oposição cristã ao "mundo" é uma oposição de fundo teológico, enquanto rejeita o mundo na medida em que confina a liberdade de homem e mulher numa escravidão a preconceitos e paixões, sumariamente descritos pelo apóstolo Paulo na sua Carta aos Romanos (1, 18-32).
            Creio que há, sem dúvida nenhuma, o lado positivo deste quadro. Se o cristão deve permanecer "no mundo", mas não ser "do mundo"  (Jo 15, 18-19; 17,11), deve entretanto permanecer no mundo como testemunho e manifestação de Cristo, que é a "luz do mundo" (Jo 8,12) e que por Sua morte e ressurreição expulsa  dele o mal e atrai homens e mulheres para Si, para um mundo novo, mundo este vivido pelo cristão, no qual  não há mais lugar para o mal, o ódio, a ganância, o egoísmo, a mentira, a frustração e o desespero; mas que, muito mais que isso, tem como seu trabalho
central e mais íntimo a realização das promessas salvíficas de Deus, no Reinado de Cristo e na Sua obra de redenção.
              A Fé cristã, ao confessar esta verdade, esta presença redentora de Cristo num mundo de pecado, e por isso mesmo pecador, assume a chave do sentido pleno de homem e de mulher, do mundo e da história, inclusive de todas as injustiça e desumanidades, que corroem a profundamente a vida humana.
              Precisamente porque a Fé não se baseia na evidência clara, externa e científica, mas na fidelidade ao Deus das promessas bíblicas, ela exige de nós um compromisso pessoal com a pessoa de Cristo, que ama o mundo e sua História, que redimiu homem e mulher, e que sustém a vida, o mundo e seu destino em Suas próprias mãos benéficas e benfazejas.
              E esta é a esperança que nos anima a caminharmos sem descanso, apesar de todos os pesares e percalços trazidos pelos nossos pecados, em busca deste Reino que nunca terá fim: o reinado de nosso Deus e redentor, Jesus Cristo, o Filho de Maria. Amém.  

terça-feira, 30 de maio de 2017

O PROBLEMA DO MAL NO MUNDO



           
           - "Ou Deus quer eliminar o mal do mundo, mas não pode; ou pode, mas não quer eliminá-lo; ou não pode nem quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, não ama o ser que criou; se não pode nem quer, não é o Deus bom e, ademais, é impotente. Se pode e quer - e isto é o mais seguro - então, de onde vem o mal real que nos acabrunha, e por que Ele, todo poderoso, não o elimina de vez?"  (Epicuro, apud Lactâncio, em "De ira Dei" -  A ira de Deus).


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            A citação acima é um texto de Lactâncio, filósofo grego, nascido no ano 341 antes de Cristo, escrevendo sobre a relação entre Deus e o mal presente no mundo. Nesse livro, o autor adverte os seus partidários de que Deus não é somente bondade, mas também justiça vindicativa contra os maus.
            Na verdade,  à primeira vista, nada tão oposto ao Deus de Jesus de Nazaré, que conhecemos pelos Evangelhos como Pai de amor e de bondade infinita, que a presença do mal no mundo criado por Ele, presença esta terrível e sem remédio, que se estende por todos os tempos e a todos, inocentes e pecadores, sem exceção. Em forma de catástrofes cósmicas, de enfermidades e sofrimentos orgânicos, de padecimentos ou deformações físicas ou morais, o mal se ergue como uma barreira aparentemente intransponível, entre a sensibilidade espontânea do homem e da mulher, e a bondade proclamada de Deus.
            - "O problema do sofrimento e do mal está na raiz de numerosas crises de Fé. Se Deus existe, por que este fracasso, esta morte prematura, esta traição ao nosso amor, este acidente de trânsito, esta doença que me faz sofrer, esta perda de emprego, este fracasso na vida?" -  (Missal dominical, segundo domingo da Quaresma).
            Considerando-se em abstrato a onipotência divina, impõe-se reconhecer que, em pura honestidade lógica, as alternativas propostas pelo dilema de Epicuro são insuperáveis. Se nessa perspectiva, se no mundo há mal, é porque Deus onipotente não quer eliminá-lo. E da mesma forma, se considerarmos o dilema sob o prisma da possibilidade de um mundo sem mal, e se apesar de tudo, o mal existe, é porque o Deus bom e justo não pode evitá-lo.
            Sendo assim não seria o ateísmo a única solução lógica para o ser humano acossado pelo mal sem remédio, conforme proclama pelo mundo inteiro o profeta do ateísmo moderno Richard Dawkins, em seu livro "Deus, um delírio", que acabo de ler por estes dias?
            Em que cabeça cabe que Deus pudesse exigir a morte violenta de Seu Filho feito homem, Jesus de Nazaré, para resgatar os pecados da humanidade, como leio em muitos manuais de devoção em uso por aí?
            É aceitável a monstruosidade de um Deus que, chamado "Pai" pelos cristãos, tenha exigido de um outro pai, Abraão, que Lhe sacrificasse seu filho único e querido, Isaac, como prova de obediência?
           Quem veria hoje um gesto de fidelidade e religiosidade profunda de um voto que, como no caso de Jefté, no "Livro dos Juízes", implicava sacrificar a Javé sua filha inocente?
            Se Deus previu o pecado de Adão, com todas as suas funestas consequências, e nada fez para evitá-lo, carece de boa vontade para com o homem e mulher, e se podia fazer tudo para impedir a queda deles, e não o conseguiu. então voltamos ao dilema de Epicuro: Deus não é todo poderoso como supúnhamos (Pierre Bayle,  "Réponses aux questions").
            Pode-se conceber que um Deus "que é amor" se dedique a castigar com tormentos inauditos e por toda a eternidade, no assim dito inferno, um ser humano que muitas vezes, em um momento de fraqueza, cometa um pecado que os moralistas chamam de "mortal"?
            Se Deus é tão bom e quer salvar a todos os seres humanos, por que aguardar tanto, até a vinda de Jesus de Nazaré, deixando abandonados por séculos e séculos a todos os antepassados? É a pergunta feita por Celso, o pagão, aos apologistas cristãos de seu tempo?   

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            A problemática do mal no mundo tem mil e uma nuances, e esta problemática sempre me preocupou. Um padre amigo, cá da paróquia que frequento e a quem expus as minhas dúvidas, me aconselhou a leitura dos livros de Santo Agostinho. Ledo engano. Li a todos, detendo-me muito mais nas suas famosas "Confissões". A mentalidade agostiniana, mais propensa a sublinhar o peso do pecado original e o perigo dos pecados pessoais, do que a valorizar a universalidade da salvação e a extensão infinita da misericórdia divina, sempre me desalentou.
            Ainda mais: quando no seu tratado clássico "De Gratia Dei" - A Graça de Deus - me deparei com a horripilante, desumana e cruel doutrina da predestinação, segundo a qual Deus  destina inapelavelmente alguns para o Céu e outros para o Inferno, sem possibilidade de reversão, fiquei ainda mais complexado do que antes. É verdade que já conhecia alguma coisa sobre predestinação, lendo Calvino e os jansenistas, mas nunca com a intensidade e definitividade  como em Agostinho.
            Isto me acompanhou durante durante um certo tempo, e só me libertei de meus fantasmas quando conheci o teólogo galego, Andrés Torres Queiruga, com o qual aprendi que a doutrina da predestinação deveria ser totalmente banida dos manuais de teologia, pois representa a parte mais condenável e falha de Agostinho sobre a Graça de Deus. - Por sorte esta doutrina, que parte de uma idéia de Deus que me faz estremecer, nunca foi totalmente acolhida na Igreja.
            Na verdade, como salienta Altaner em sua "Patrologia", a doutrina de Santo Agostinho sobre a Graça, baseada em uma idéia de um Deus temível e vingador, encontrou sempre, dentro da Igreja, muita contestação,  e provocou mais tarde, como em Lutero e Calvino, fautores do protestantismo, muitos e graves erros teológicos.

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            Já me estendi muito e paro por aqui, citando uma frase do teólogo suíço Hans Kung, de Frankfurt, Alemanha, na conferência de imprensa por ocasião do lançamento de seu controvertido livro "Ser Cristão":
            -"O autor escreveu o livro não por considerar-se a si mesmo um bom cristão, mas por considerar uma coisa sumamente boa ser cristão."

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                "...et sic transit gloria hujus mundi, et sic etiam Deus me adjuvet..." - completo eu.

 
           
           

sexta-feira, 26 de maio de 2017

VIDA PARA ALÉM DA MORTE



             Esta frase que serve de título ao meu texto de hoje, e lembrando-me também de meus filhos  inesquecíveis, minha  filha Raquel e meu filho Júlio, que flecharam o Céu buscando o Infinito, levou-me a meditar nesta manhã de sexta-feira e perguntar a mim mesmo: dentro da Fé que professo, se é possível uma visão positiva do fenômeno universal da morte. E a Fé que me anima responde-me que sim, porque dentro da vida humana há uma chance única na qual homem e mulher, pela primeira vez, nascem totalmente ou acabam de nascer, justamente na morte.
            Esta resposta pode ser profundamente frustrante, pois a morte sempre foi entendida como o fim da vida. Ela é dolorosa e triste como um final de festa ou como o derradeiro e definitivo aceno de uma despedida.
             A morte é, sim, o fim da vida. Ela marca a ruptura de um processo vital. Como que criando um corte entre o tempo presente e a eternidade. Mas ela, felizmente, cobre um aspecto apenas do ser humano: o biológico e o temporal. Homem e mulher  constituem algo muito superior ao biológico, porque são mais do que um animal. São também superiores ao tempo, porque suspiram pela eternidade do amor e da vida.
            Homem e mulher são pessoas, e mais que isso, interioridade. Para eles, a morte não é simplesmente um fim, mas um fim-plenitude, um fim alcançado, o lugar do verdadeiro e definitivo nascimento. Lembra-me a mulher grávida que, entre angústia, dor e esperança, segura o filhinho recém-nascido e murmura, agradecida: atingi, ó Deus, minha meta de mulher: sou mãe!
            Este fim-plenitude alcançado pela morte só é encontrado por nós na Fé. É nesta Fé que encontramos a base para a Esperança de que nossa vida não se perde no vazio do nada. Esta nossa convicção se baseia em Deus. Neste Deus que Se revelou na ressurreição de Jesus de Nazaré, e que ressuscitará também a nós pelo Seu poder infinito.
            E foi nesta Fé que meus filhos inesquecíveis, a Raquel e o Júlio, alcançaram, na morte, o seu nascimento definitivo, que é o Deus de Jesus Cristo e de todos nós, cristãos!


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sexta-feira, 12 de maio de 2017

RELENDO O "DIÁRIO DE ANNE FRANK"



            Estou lendo, pela terceira ou quarta vez, o diário de Anne Frank, a menina que, a seu tempo, por ocasião da segunda guerra mundial, emocionou o mundo inteiro, com a publicação de seu "Diário".
            Anne Frank morreu, juntamente com sua irmã, Margot, num campo de concentração nazista. (Margot morreu na câmara de gás, e Anne morreu de morte natural, vitimada pelo tifo).
Alguns dias antes de morrer Anne Frank escreveu em seu "Diário" estas palavras que sempre me emocionam quando eu o releio:
            - "Verdadeiramente minha vida mudou, e para muito melhor, porque Deus não me abandonou, e não me abandonará jamais."
             Estas palavras me fazem lembrar daquelas outras proclamadas não pelo Deus de Israel, mas por Seu Filho, tornado homem na Terra, para assumir a condição  e os sofrimentos de homens e de mulheres, bem como a dar a eles e a elas um novo sentido à sua esperança: - "Deixai vir a Mim os pequeninos."
             Apesar de sua saúde frágil, marcada por sofrimentos horríveis nos tempos de cativeiro, a alma de Anne Frank era daquelas  que, desde sempre,  responderam às palavras de Jesus de Nazaré: Deus, de fato, nunca a abandonou.]
             Naquele campo de torturas e de mortes, em Bergen-Belsen,  com seus fatídicos fornos crematórios e com o desencadeamento demoníaco das mais atrozes demonstrações da barbárie nazista, é preciso confessar que este Deus que Anne Frank  mal conseguia definir, mas cuja imagem estava presente em seu coração, nunca haveria mesmo de abandoná-la até seus últimos dias, como nos comprova o "Diário".
            E eu o creio, porque Deus, o "Abbá" de Jesus é Pai, e também porque, no mais profundo de nossas fraquezas humanas diante do sofrimento,  no recesso mais sombrio de nossas angústias e revoltas, Anne Frank representa para nós uma das mais eloquentes certezas da realização plena de nossa esperança teologal..
            Ela, que se considerava um nada, conseguiu romper a muralha de silêncio culposo  das religiões (o Papa Pio XII?) e mostrar ao mundo inteiro  nas páginas de seu "Diário", a chaga sangrenta das deportações em massa e do extermínio dos judeus nos campos de concentração. E pensar que nós, no Brasil,
estivemos bastante próximos dessa nefasta ideologia nazista na sua versão tupiniquim  do  integralismo de Plínio Salgado, cópia mal feita do fascismo de Mussolini, aliado confesso de Hitler.
            O Prêmio Nobel da Paz, o Padre Pire, que  à sua sexta aldeia européia  acolhia os refugiados de todas as regiões da Europa,  deu-lhe o nome de Anne Frank, a pequenina mártir que emocionou a  todos nós, e se tornou a menina querida do mundo inteiro..
            E termino o meu texto recomendando a todos que tenham oportunidade, que leiam o "Diário de Anne Frank", pedindo a Deus que nunca mais aconteça neste nosso mundo a tragédia da guerra e dos fatídicos campos de concentração, onde milhares e milhares de inocentes pagaram com a vida  a bestialidade dos que se julgam os senhores do mundo.

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segunda-feira, 1 de maio de 2017

O BATISMO QUE NOS PURIFICA



            Sou um "curioso" inveterado dos  assim ditos "Padres da Igreja",  da mais remota antiguidade que deixaram para nós, cristãos deste nosso século, obras teológicas de grande valor e de perene riqueza de Fé a fortalecer-nos em nossa caminhada para Deus.
             Tenho hoje diante dos olhos um texto do grande bispo São Basílio, que viveu e pontificou no século IV, escrevendo sobre o Espírito Santo. Como eu gostei muito do texto, peço licença ao eventual e benévolo leitor para transcrevê-lo aqui, valorizando o meu modesto blog:

              "Do Livro sobre o Espírito Santo,  de São Basílio, Bispo da Igreja Católica":

               O Espírito vivifica

               O Senhor, que nos vivifica, e que nos concede a vida, estabeleceu conosco a aliança do Batismo, como símbolo da morte e da vida. A água é imagem da morte e o Espírito nos dá o penhor da vida. Assim torna-se evidente o que antes perguntávamos: por que a água está unida ao Espírito? É dupla, com efeito, a finalidade do Batismo: destruir o corpo do pecado para que nunca mais produza frutos de morte, e vivificá-lo pelo Espírito, para que dê frutos de santidade.
             A água é a imagem da morte porque recebe o corpo como num sepulcro, e o Espírito, por sua vez, comunica a força vivificante que renova nossas almas, libertando-as da morte do pecado e restituindo-lhes a vida. Nisto consiste o novo nascimento da água e do Espírito: na água realiza-se a nossa morte, enquanto e Espírito nos traz a vida.
             O grande mistério do Batismo realiza-se em três imersões e três invocações, para que não somente fique expressa a imagem da morte, mas também a alma dos batizados seja iluminada pelo dom da ciência divina. Por isso, se a água tem o dom da Graça, não é por sua própria natureza, mas pela presença do Espírito. O Batismo, de fato,   não  é uma purificação da imundície corporal, mas o compromisso de uma consciência pura diante de Deus. Eis porque o Senhor, a fim de nos preparar para a vida que brota da ressurreição, propõe-nos todo o programa de uma vida evangélica, prescrevendo que não nos entreguemos à cólera,  sejamos pacientes nas contrariedades e livres da aflição dos prazeres e do amor ao dinheiro. Isto nos manda o Senhor, para nos induzir a praticar, desde agora, aquelas virtudes que na vida futura se possuem como condição natural da nova existência em Deus.
             O Espírito Santo restitui o Paraíso, concede-nos entrar no Reino dos Céus  e voltar à adoção de filhos. Dá-nos a confiança de chamar a Deus nosso Pai, de participar da Graça de Cristo, de sermos chamados filhos da luz, de tomar parte na glória eterna, numa palavra, de receber a plenitude de todas as bênçãos, tanto na vida presente quanto na futura.
             Dá-nos ainda contemplar, como num espelho, a graça daqueles bens que nos foram prometidos e que pela Fé esperamos usufruir como se já estivessem presentes.
             Ora, se é assim o penhor, qual não será a plena realidade? E, se tão grandes são as primícias, como não será a consumação de tudo na presença de Nosso Senhor Jesus Cristo?

                                                    ***********************

             E eu encerro este blog de hoje, com a seguinte prece, que retiro da  "Liturgia das Horas":  

                                           Quando emerge nossa carne das águas do Batismo,
                                           Deixando   ali sepultos os crimes do pecado,
                                           A pomba do Espírito vem voando para nós,
                                           e vem do Céu, trazendo a paz que Deus nos dá,
                                           e a Igreja é figurada pela Arca da Aliança..
                                           Bendito sacramento da Água Batismal
                                           pela qual nos tornamos capazes
                                           de entrar na Vida Eterna
                                           purificados de todos os pecados da vida passada.
                                           
                                           Amém. Aleluia.

                                                    ***********************      
   


sexta-feira, 21 de abril de 2017

PINGOS E RESPINGOS...



            ***  O Deus de minha Fé não é o Deus que muda as leis da Natureza a Seu bel prazer, ou segundo Suas conveniências. E muito menos o Deus que desatende as súplicas de nós, Seus filhos, ainda que sejam justas, como acabar com a fome de populações inteiras em várias partes deste nosso mundo, mandar a chuva benfazeja para regiões martirizadas pela seca, ou curar nossas doenças.
           ***   Nosso Deus é, antes de tudo, amor. É o grande companheiro que está com os deserdados da sorte, com o enfermo, e não com a enfermidade, contra a qual Ele pouco pode intervir, porque ela permanece na esfera autônoma da Natureza, que Ele respeita.
          ***   O homem de Fé e o ateu não habitam mundos diferentes; simplesmente habitam de maneira diferente um só e o mesmo mundo. Ambos vivem a mesma vida, só que a vivem de modo diferente.
          ***   A bondade de Deus é tão universal, que não exclui ninguém, nem mesmo os maus, os pecadores, ou mesmo os que O negam. Faz nascer o sol igualmente sobre os bons, como também sobre os justos e injustos. Por isso, perdoa sempre, até ao ponto de, como o pai da parábola do filho pródigo, não castigar nem repreender, mas alegrar-se e fazer festa pelo regresso do filho á casa paterna.
         ***  Aquilo por que Deus Se interessa no homem e na mulher é tudo, enquanto realização positiva do homem e da mulher. Literalmente tudo, como corpo e alma, cultura e alimento, trabalho e religião. Aliás, Deus não é nada religioso, porque religião é pensar e servir a Deus, mas o Pai de Jesus de Nazaré não pensa em Si mesmo nem precisa ser servido por homem e mulher. Na verdade, Ele pensa em nós e busca exclusivamente nosso bem, não quer servos nem incensários que proclamem Sua glória. Busca-nos a nós mesmos, deseja nossa existência e nossa felicidade. Para isso criou o mundo e o colocou em nossas mãos.
        *** Isto me acontece dia e noite, e talvez para todo o sempre: diante do sofrimento angustiante de minha falecida filha Raquel, nos quatro anos de sua doença, com um insidioso câncer que tomou todo o seu cérebro, me custou muito tentar convencê-la de que Deus nos criou por amor. Confesso francamente hoje, diante da dolorosa ausência de minha inesquecível Raquel, que em certos momentos sou tentado a crer que eu, que me digo cristão, me sinto totalmente consciente desta cruel dúvida:  - Será mesmo verdade que Deus nos criou por amor? Que Ele, na Sua misericórdia, me perdoe!
      

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O PERTURBADOR SILÊNCIO DE DEUS



            Num certo sentido, homens e mulheres deste nosso mundo estão cercados por todos os lados pelo doloroso e angustiante silêncio de Deus, abandonados totalmente à própria sorte de seres contingentes, finitos, entregues à morte.
           "Homens e mulheres sentem que suas vidas se intercalam entre duas gigantescas noites: a noite da não existência. Ontem não eram. Esse ontem recua bilhões de anos até o famoso big-bang inicial. E antes dele paira o silêncio do nada. Após a morte, abre-se nova noite escura sem término. Entre essas duas ameaças do caos inicial e final, homem e mulher caminham solitários, sem luz.
            É o que leio em "Introdução à Teologia", de Libânio/Murad.
            Ou nas perturbadoras palavras do cientista J. Monod:
            - "Homem e mulher sabem que estão sós na cega imensidão do universo, de que saíram por puro acaso).
            Ou como diria Albert Einsten:
            - "Estranha é nossa situação aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta passagem, sem saber por quê, ainda que algumas vezes tentando adivinhar um propósito".  (Dawkins, "Deus, Um Delírio").
            Continuando, poder-se-ia invocar Pascal, nos seus "Pensamentos":
            - "Aspiramos à verdade, e só encontramos incertezas. Buscamos a felicidade e só achamos miséria e morte. O silêncio eterno desses espaços infinitos nos apavora..."
            O saudoso Papa Bento XVI em seu livro "Jesus de Nazaré", comentando o salmo 73, em que o justo sofredor protesta diante de Deus contra os males que nos acometem, pergunta:
            - "Deus não vê nada, realmente? Não ouve? Não se preocupa com o destino do homem?" E cita um dos lamentos do salmista:
            - "Foi então para nada que conservei um coração puro? Sou provado a cada hora e molestado continuamente..."
            É de fato um grande enigma, e diante dele os crentes sentem duramente o peso do silêncio divino, não como negação da existência de Deus, mas sim como sensação de abandono e indiferença por parte de Deus. Este silêncio enigmático e sufocante desconcerta a muitos cristãos menos prevenidos, sempre desejosos de qualquer manifestação sensacional de Deus. Uma espécie de teofania do Antigo Testamento, com raios e trovões, que purificasse para sempre o mundo corrompido, curasse todas as mazelas e sofrimentos da humanidade, e reconduzisse à Fé teocêntrica os povos e as nações.
            Acossados por este silêncio de Deus para eles incompreensível, homem e mulher de todas as etnias fazem ouvir o seu gemido angustioso, um gemido que vem de longe, expresso por boca humana, e que parece refletir uma dor primeira que remonta às origens do mundo. Não um gemido genérico do animal ferido que sente a terra entreabrir-se para devorá-lo, mas o gemido existencial do homem e da mulher, isto é, o gemido da alma erguida que se levanta e interroga a Deus, pedindo-Lhe explicações para a onda de mal e de sofrimento que envolve por todos os lados o mundo por Ele criado.
          Começando pelo bíblico Jó ("Pereça o dia em que nasci, que sobre ele não brilhe a luz); continuando pelos salmistas; assumido dramaticamente por Jeremias nas suas elegias, até culminar no angustiado grito de Jesus de Nazaré na cruz, este gemido secular perpassa por toda a Bíblia, num clamor contínuo e sem respostas:
            - "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Clamo de dia, e não respondes; grito de noite, e não encontro repouso..."  - (Salmo 22).
            Nos quatro evangelhos a tradição existencial do silêncio de Deus aparece de forma muito explícita em dois momentos muito importantes da vida de Jesus de Nazaré: no Horto das Oliveiras (Mt 27, 36-46, Mc 14, 32; Lc 22, 39-46 e, em seguida, na cruz (Mt 27, 46; Mc 15,  Lc 23,46, Jo 19-28).
            Já em nossos dias, visitando o campo de concentração de Auschiwtz, onde um milhão e meio de judeus foram mortos pelos nazistas, o Papa Bento XVI deixou-se levar pela emoção e lançou também este brado, que surpreendeu e comoveu o mundo inteiro:
            - "Por que, ó Deus, o Senhor permaneceu em silêncio? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava Deus naqueles dias? Por que ficou Ele em silêncio? Como pôde permitir esse massacre sem fim, esse triunfo do mal?
            E eu, parodiando a pungente pergunta do judeu alemão Hans Jonas na Europa do pós-guerra, tomo a liberdade de acrescentar:
- "Onde está Deus, que não vem libertar-nos da violência das guerras e do terrorismo desenfreado que acomete regiões inteiras deste nosso mundo?
            E poderia ainda acrescentar com Andrés Torres Queiruga, no seu livro "Recuperar a Salvação":                                                         
- "Onde está Deus quando nos acontece uma desgraça, ou nos sentimos infelizes? Onde se situa Deus em nossa vida e em nossa História?"
            A tentação exercida entre nosso povo simples e marginalizado, principalmente os das periferias, pelo baixo espiritismo e pelas incontáveis seitas pentecostais e milagreiras, é prova de uma fome quase doentia de milagres, fome de apalpar, de apreender, de agarrar essa presença ou ausência misteriosa que governa o mundo:
            -"Ah! Se rompesses os céus e descesses! As montanhas se desmanchariam diante de Ti!" (Isaias, 63,19).
            Para a mentalidade contemporânea, homem e mulher experimentam uma dificuldade quase insuperável no seu ansiado contato com Deus. Isto porque "Deus, enquanto mistério indizível, não pode ser encontrado em nosso mundo, parece não poder entrar nesse mundo com que nós temos de nos haver, pois que assim Ele Se tornaria o que não é, a saber: uma realidade singular lado a lado com outra realidade que não Ele." (Karl Rahner, "Curso Fundamental da Fé").
            Na verdade, para nós cristãos-católicos,  Deus nos fala sem cessar. E é justamente a Liturgia  que nos  vem continuamente lembrar esta realidade empolgante: Deus está no mundo. Deus desceu sobre a Terra e se fez como um de nós. Não é apenas uma presença figurada como na Arca da Aliança. É uma presença tão difundida e tangível, que nos envolve como uma atmosfera por todos os lados, como envolve o mundo. Já o disse Teilhard de Chardin, sacerdote e cientista, no seu livro "El Medio Divino":
            - "Que nos falta então para que O possamos abraçar? Somente uma coisa: vê-Lo."
            Presença que se tornou concreta e palpável na Encarnação. Deus Se fez carne, na pessoa de Seu Filho, levantou Sua tenda entre nós, entrando na história humana para dela não mais sair. Portanto, para nós,  "a vida histórica de Jesus é a revelação mais plena do Deus cristão." (Leonardo Boff, "Jesus Cristo Libertador").
            Deus Se nos manifesta, sim, e nós O conhecemos pela mediação de Jesus de Nazaré. Em Jesus, Deus Se manifestou a nós como Aquele que Se interessou de tal modo por nós, que quis participar intimamente do nosso destino, e assim tornar-Se o Deus próximo e familiar, o "Deus conosco", o "Emanuel" que conhecemos pelos Evangelhos.
            Como cantou o padre Zezinho, evangelizando através da música: "Em Jesus, Deus Se tornou refeição e Se fez o caminho."
            Lembremo-nos, também, do que está escrito no Apocalipse:
            - "Eis que estou à porta, e bato", significando que Deus está na soleira e bate à porta, mas, se não a abrirmos livremente, Ele não entrará. Por absoluto respeito à nossa liberdade, recusa-Se a forçar a entrada do nosso coração e da nossa vontade livre. Permanece, entretanto, presente sempre, perdoando e salvando, não Se vai embora, e continua a bater.
           Por isso, é muito salutar que tomemos consciência desta verdade terrível:  - É próprio da liberdade humana poder, com sua minúscula recusa, perdida nas imensidades do tempo e do espaço, deter o oceano da Graça divina."  (Charles Moeller, "A Fé em Jesus Cristo").
          Jesus de Nazaré, pela Sua vida e pela Sua prática,  como o "Abbá"- Seu  Pai - é bom e misericordioso. Não quis ofuscar-nos com a luz de Sua glória e poder; por isso penetrou sorrateiramente entre homens e mulheres, fez-Se um entre muitos, e é preciso descobrir a Sua presença escondida, encarnada sob as vestes do quotidiano. Ele está aí e nos chama; nós, porém, nem sempre ouvimos Sua voz, nem sempre queremos abrir nosso coração à Sua Palavra que Se fez carne, que Se fez Eucaristia.
          Assim, este perturbador "silêncio de Deus"  é um silêncio causado por nós próprios, que sufocamos os apelos divinos com os nossos barulhos inúteis. Não há "silêncio de Deus", e sim incapacidade humana para captar imediata e claramente Sua voz. Voz que insiste, apesar de tudo, e que é experimentada, quando A percebemos como dom pessoal e gratuito, porque Deus não Se mostra de modo arbitrário, mesquinho ou favoritista. Revela-Se a todos e desde sempre na generosidade irrestrita do Seu amor por todos nós.
         E é o que acabamos de celebrar na quaresma, e estamos ainda a celebrar neste tempo pós-pascal,  em nossas igrejas e no recesso de nossos lares.


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quinta-feira, 13 de abril de 2017

CRISTO, O CORDEIRO PASCAL



            "O Cordeiro Pascal Jesus Cristo, imolado na cruz, libertou-nos da morte para a vida!"

             "Muitíssimas coisas foram preditas pelos profetas sobre o mistério da Páscoa, que é Cristo, "a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém". Palavras do Apóstolo Paulo, que leio em Gálatas, 1,5."
              O Senhor Jesus Cristo desceu  dos céus à Terra para curar a enfermidade de homem e mulher, maculados pelo pecado e condenados à perdição eterna, não fosse a misericórdia gratuita de Deus. Revestido da nossa natureza no seio da Virgem Maria,  Jesus Se fez homem, tomou sobre Si os sofrimentos do homem num corpo humano sujeito ao sofrimento e à morte. Seu espírito, que não pode morrer, fez morrer a morte homicida.
            Foi levado à cruz como cordeiro pascal e morto como ovelha, libertou homem e mulher das seduções do mundo e do pecado, como outrora tirou os israelitas da escravidão no Egito, como salvou-nos da escravidão do demônio, como outrora salvara o povo eleito das mãos do faraó, marcando nossas almas com o sinal de Seu espírito e nossos corpos com o Seu sangue redentor.
            Jesus venceu a morte e confundiu o demônio, como outrora Moisés ao faraó. Foi Ele que destruiu a iniquidade e condenou a injustiça à esterilidade, como Moisés no Egito.
            Foi Jesus que nos fez passar da escravidão do pecado para a liberdade, das trevas para a luz, da morte para a vida,  da tirania para o reino sem fim, e fez de nós um sacerdócio novo, um povo eleito para sempre. Foi Jesus a Páscoa da nossa salvação eterna.
            Foi Ele que tomou sobre Si os sofrimentos de muitos: foi morto em Abel, vendido em José, amarrado de pés e mãos em Isaac, exilado de Sua terra em Jacó, exposto em Moisés infante, sacrificado no cordeiro pascal, perseguido em Davi e ultrajado nos profetas.
            Foi Ele que Se encarnou no seio da Virgem Maria, foi traído por um amigo,  suspenso na cruz, sepultado na terra fria, mas, sustentado por Deus, ressuscitado dos mortos pelo Pai, e subiu ao mais alto dos céus.
            Foi Ele o cordeiro que não abriu a boca, o cordeiro imolado, nascido de Maria, foi Ele a ovelha retirada do rebanho, levada ao matadouro, imolada à tarde e sepultada perto da noite. Ao ser crucificado, não lhe quebraram osso algum, e ao ser sepultado, não experimentou a corrupção do corpo; mas ressuscitado dos mortos, ressuscitou também a humanidade das profundezas do sepulcro.

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Da Liturgia das Horas, da quinta-feira santa:

                                                 Todos os homens e mulheres pecaram
                                                 e carecem da glória de Deus
                                                 sendo justificados, de graça,
                                                 mediante a libertação
                                                 realizada por meio de Cristo,
                                                 Deus destinou que Cristo fosse, por Seu sangue,
                                                 a vítima da propiação
                                                 pela Fé
                                                 que recebemos nEle mesmo.
                                                 Eis aqui o Cordeiro de Deus,
                                                 o que tira o pecado do mundo

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domingo, 9 de abril de 2017

LIGEIRA MEDITAÇÃO SOBRE O DOMINGO DE RAMOS


           "Bendito o que vem em nome do Senhor!"
 
           Vinde comigo, benévolos leitores, subamos juntos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo, que volta da aldeia de Betânia onde estava com o amigo Lázaro e suas irmãs,  e Se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação.
            Caminha o Senhor Jesus livremente para Jerusalém, Ele que desceu do Céu por nossa causa - prostrados que estávamos por terra - para elevar-nos consigo "bem acima de toda autoridade, poder, potência e soberania, ou qualquer título que se possa mencionar (Ef 1,21), como lemos na Bíblia Sagrada.
            O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, diz-nos a Escritura, e ninguém ouvirá Sua voz (Mt 12,19). Pelo contrário, vem manso e humilde, e Se apresentará com vestes pobres e aparência modesta.
            Acompanhemos o Senhor, que corre apressadamente para a Sua Paixão, e imitemos os que foram ao Seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas para nós mesmos nos prostrarmos a Seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que Se aproxima, e acolhermos Aquele Deus que lugar algum pode conter.
            Alegra-Se Jesus, porque deste modo nos mostra a Sua mansidão e humildade, e Se eleva, por assim dizer, sobre o ocaso de nossa infinita pequenez. Ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-Se um de nós, para nos elevar e nos reconduzir a Si.
            Portanto, em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram nosso olhar por pouco tempo, mas perdem depressa o seu verdor, prostremo-nos aos pés de Cristo. Revestidos de Sua Graça, ou melhor, revestidos dEle próprio, - vós todos que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo  (Gl 3,27) - prostremo-nos a Seus pés como se fôssemos mantos e palmas estendidos diante dEle.
           Antes, éramos como escarlate por causa de nossos pecados, mas hoje purificados pelo Batismo da salvação, nos tornamos brancos como a neve. Por conseguinte, não ofereçamos mais ao vencedor do pecado e da morte, ramos e palmas, porém o prêmio de Sua vitória, que é nossa alma redimida.
            Agitando à Sua passagem ramos espirituais de nossa conversão, O aclamemos todos os dias, dizendo estas mesmas palavras com que Ele foi saudado pelos Seus seguidores:
 
            - "Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel."
 
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segunda-feira, 3 de abril de 2017

CAPITU, A MENINA DOS OLHOS DE RESSACA



            Estou relendo pela quinta ou sexta vez o "Dom Casmurro", obra prima de Machado de Assis. Releio, não tanto por causa do autor, mas o releio porque, cada vez que o faço, mais me apaixono pela Capitu, a menina dos olhos de ressaca.
            E, terminada a releitura, sempre me vem à cabeça, queira eu ou não queira, a interrogação que nunca deixa de martelar-me o cérebro: por que será que o ranzinza Machado de Assis foi tão ruim com a Capitu?
            Sempre ouvi dizer que, apesar de ser considerado o maior escritor brasileiro, era ele um sujeito cínico, perverso mesmo, mas nunca imaginei que fosse Capitu quem deveria sofrer as malvadezas dele.
            Saudosa e pobre Capitu!
            Não me chamo Bentinho, não morei nunca no casarão da Matacavalos, mas não consigo  perdoar o que o Machado fez com Você, nem a esquecerei jamais!
            Quantas vezes ainda hoje, apesar dos oitenta e um anos no costado, nas balbúrdias da vida, no silêncio do  estudo, na concentração da prece, ou nos gestos do amor, eu me vejo de repente ensimesmado, distraído, pensando em Você, conversando com você, namorando-a à distância, nós dois sentados à beira do poço, na chácara do velho Pádua!
            Parece-me vê-la novamente, aquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita meio desbotado, os olhos de cigana oblíqua e dissimulada, o riso claro, espontâneo e alegre. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças negras, com as pontas atadas uma à outra, a descer-lhe pelas costas, à moda do tempo...
            Ainda me lembro daquele dia em que, ao entrar na sala de visitas, ouvi proferir meu nome e escondi-me atrás da porta. E ali, trêmulo, com medo de um espirro, ouvi o José Dias contar à minha mãe muita coisa de nós dois, que andávamos pelos cantos, aos segredinhos, e que, se pegássemos de namoro, então é que seria a dificuldade para me botarem no seminário, fazerem-me padre, promessa de minha mãe!...
            Fugi da varanda. Ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coração parecendo querer sair-me boca a fora. Vozes confusas me repetiam o discurso do José Dias:
            - "Sempre juntos... " - "Aos segredinhos..." - "Se eles pegam de namoro..."
            Ah! Capitu! Naquele tempo tudo isso eram apenas travessuras de crianças, ainda não sabíamos analisar o que nos ia pelo coração. Você se lembra do dia em que eu a surpreendi escrevendo no muro com a ponta de um prego? Eu quis ver de perto e dei um passo. Você agarrou-me, mas , ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e tapou o escrito com o corpo. Foi o mesmo que atiçar em mim o desejo de ler o que era. Dei um pulo, e antes que Você raspasse o muro, li dois nomes abertos ao prego, e esses nomes eram os nossos!
            Voltei-me para Você. Você tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro...
            Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, diria o velho Machado. Na verdade, eu e Você não falamos nada, o muro falou por nós. Daí então, Capitu, poderíamos ter sido muito felizes. Mas mamãe tinha feito promessa de botar-me para padre. E não havia jeito de tirar-lhe isso da cabeça, pois até o vigário da paróquia estava a seu favor.
             Você preferia tudo ao seminário. Até fugir Você me propôs, ou então ligar uma canoa a muitíssimas outras, fazer até Roma uma ponte de canoas, e lá pedir ao Papa dispensa da promessa de minha mãe. Nada lhe parecia difícil, pois Você era Capitu, isto é, uma criatura muito particular, muito mais mulher do que eu era homem.
            E o tempo correu. Alguns dias antes de partir para o seminário, fui visitá-la em sua casa. Encontrei-a na varanda, penteando os cabelos. Tomei o pente de suas mãos, desmanchei-lhe os cabelos, e eu mesmo quis penteá-los. E o fiz muito devagar, demoradamente, com carinho,
desmanchando e penteando de novo, indefinidamente, como se quisesse segurar o tempo!
            Você refletia. A reflexão não era coisa rara em Você, mas nesse dia era uma reflexão toda especial. Você pensava em algum último e desesperado recurso para me livrar do malfadado seminário. Fiquei tão comovido com a sua dedicação que corri à janela e comprei duas cocadas de um moleque que passava. Tive de comê-las sozinho. Em meio à crise, eu ainda achei tempo para cocadas, ao passo que Você não quis saber delas, e quanto Você gostava de doces! E o moleque foi cantando rua a fora o pregão das velhas tardes, tão sabido do bairro e da nossa infância: -"Chora, menina, chora; chora porque não tem vintém."
            Creio que a letra, destinada a ferir a vaidade das crianças, foi que aborreceu minha amiga, pois logo me disse: - "Se eu fosse rica, Você fugia, metia-se num navio e ia para a Europa..."
            Como se vê, Capitu, Você aos quatorze anos já tinha ideias atrevidas. Mas apesar delas, apesar do juramento que fizemos certa tarde à beira do poço, de que um dia nos casaríamos, apesar dos mil "pai-nossos", e das mil "ave-marias" que prometi aos céus, minha mãe me botou no seminário!
           E a nossa despedida, Capitu? Você se lembra? Foi de tardezinha, debaixo do caramanchão; e ali ficamos, não sei quanto tempo, somando as nossas ilusões, os nossos temores, começando já a somar as nossas saudades.
           Vieram depois as lutas. Eu não queria saber do seminário. Os padres lustrosos e enfatuados me enfaravam. Enjoava-me o cheiro do incenso. Enfastiavam-me as longas rezas. A carolice dos companheiros dava-me nos nervos. E inventava planos para sair. E monsenhor Cabral, o reitor, não deixava. O José Dias, cúmplice, não descobria logo a maneira mais honrosa de safar-me da batina. Mamãe continuava esperançosa de ainda me ver um dia dizendo missa. E Você lá na sua janela, pensando... sofrendo... E como eu sofria também nesse tempo, Capitu!
            Depois... depois... Ah! Machado de Assis!... O que é que Você foi fazer da minha Capitu de olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada?
 
 
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           Fecho o livro no ponto em que um dia o deixei, para chorar a traição da Capitu. E, chorando sua traição, sinto vontade de chorar a morte da minha juventude e dos  mal- ajambrados sete anos que passei num seminário da Capital paulista, também promessa de minha inesquecível mãe, que Deus a tenha na Sua paz!

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quinta-feira, 30 de março de 2017

SUBLIME MISSÃO CRISTÃ: HUMANIZAR E IRMANAR


            Tenho plena convicção de que todos nós, humanos que somos, recebemos de Deus uma solene missão: humanizar e irmanar homem e mulher nos caminhos de peregrinos neste mundo. E esta é uma tarefa sobretudo do cristão, que confessa e professa que Deus Pai criou os homens e mulheres em Cristo e os tornou filhos seus em Seu Filho, Jesus, estabelecendo um novo modo de relacionamento na humanidade. Neste sentido, esta tarefa se estende desde o Papa, os bispos, sacerdotes, os fiéis cristãos,  até chegar à lavadeira Dona Joaquina, cá do meu bairro, o Tingui, em Curitiba.
            É claro que, para humanizar, é preciso, antes de tudo, sermos humanos, e para construir uma efetiva fraternidade é preciso que todos nós sejamos irmãos.
            Disto, os pobres nos dão uma grande lição de vida. Entre os pobres não falta o espírito de solidariedade, de partilha, de fraternidade, de simplicidade, de serena misericórdia. Na minha já longínqua infância na cidade de Caldas, sul de Minas Gerais, a extrema pobreza de meus pais não os impediu de viver a solidariedade com seus vizinhos tão pobres como eles, e partilhar, juntos, a fraternidade e a misericórdia, que são  os "sinais" que Jesus ensinou e que eles aprenderam na meditação diária da Bíblia Sagrada...
            Vivendo sempre com a Bíblia à mão, meus saudosos pais me deixaram a lição de que é questão de vida ou morte viver a proposta de Jesus, para uma vida dedicada à fidelidade ao Evangelho.
            Aprendi com eles que essa fidelidade depende em primeiro lugar da força do Espírito Santo, que nos fortalece e nos orienta como seguir, com segurança,  em meio a tantos caminhos tortuosos
que nos surgem à frente.
            E hoje, com os oitenta e um anos que me pesam no dia-a-dia da velhice, tenho a plena certeza de que o ensinar de Jesus - "misereor super turbas" - (tenho compaixão deste povo) - revelando-me assim o rosto misericordioso do Pai de todos os pais, principalmente ali onde acontece o exercício da misericórdia, que tem um lugar bem preciso: encontrar o ferido no caminho, aproximar-se do indefeso, defendê-lo contra os salteadores, descentrar-se para anunciar o Reino de Cristo,  enfrentar e assumir os riscos e perseguições do mundo da antimisericórdia, viver o gozo antecipado da Ressurreição e levar a Esperança da libertação a quem perdeu toda esperança.
            E fico pensando que,  se minha vida de cristão  passar a  reger-se pelo "princípio da misericórdia",  terá como centro de minha Fé "o Deus dos feridos no caminho",  porque aprendi com Monsenhor Roxo, meu professor nos tempos de estudante de Teologia, na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, na Capital paulista, que viver o seguimento de Jesus é tarefa não só para o cristão individualmente, mas para toda a comunidade cristã.
           Oxalá esta tarefa se concretize em toda a ecumene cristã, em prol da libertação também não só de indivíduos, mas de povos inteiros escravizados e vitimados pela injustiça.
            

segunda-feira, 27 de março de 2017

A POLÍTICA, A POLITICALHA E O CRISTÃO



             Os profissionais da "coisa" já começaram (ou estão SEMPRE começando) a mover os pauzinhos para as próximas eleições que estão para vir. Num texto que publiquei tempos atrás, escrevi que as igrejas, tanto a Católica como as Evangélicas, não deveriam identificar-se com qualquer sistema político, econômico ou similar, pois isto não é competência das igrejas.
           No âmbito da Igreja Católica, que é aquela à qual pertenço, lembro que o Concílio Vaticano II, a seu tempo, proclamou solenemente a autonomia das realidades temporais terrestres, cuja incumbência pertence por direito ao Estado. Nestes termos, também o Estado não pode imiscuir-se no plano espiritual-religioso, que é campo exclusivo das Igrejas. O Estado não pode impor a religião aos seus súditos, mas isto sim, garantir a inteira liberdade de crença e a paz entre os praticantes das diversas religiões.
            O objetivo e a medida intrínseca da Política é a promoção de uma ordem justa na sociedade, em todos os seus setores. A Política é mais do que uma simples técnica para a definição dos ordenamentos políticos, como quer que se queira  defini-los. O pensamento social não pretende conferir à Igreja poder sobre o Estado.  Ela deseja e deve simplesmente contribuir para a purificação do estamento político e prestar a própria ajuda para fazer que tudo quanto for justo possa, aqui e agora, ser reconhecido e realizado para o Bem Comum da sociedade.
            As Igrejas não podem nem devem tomar nas próprias mãos a batalha política para realizar uma sociedade mais justa e consentânea com o Bem Comum. Esta é uma tarefa do Estado. Mas também não podem ficar "em cima do muro", não podem nem devem ficar à margem quando se trata da luta pela justiça. Uma sociedade justa não pode ser obra das Igrejas; deve ser realizada pelo Estado, através de uma prática política autêntica, voltada para os legítimos interesses da sociedade.
            Na esfera política, o dever imediato de trabalhar por uma ordem justa na sociedade é próprio dos fiéis leigos, e não das Igrejas, como instituição. Os fiéis de qualquer Igreja, como cidadãos do Estado, são chamados a participar pessoalmente da vida pública.  Eles não podem abdicar da múltipla e variada ação econômica, social, legislativa, executiva e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o Bem Comum.
            A missão do fiel de qualquer Igreja, dentro das realidades terrestres, é configurar retamente a vida social,  respeitando a sua justa autonomia e cooperando, segundo sua competência e responsabilidade com os demais cidadãos. E sempre,  como pessoa religiosa, deve sentir-se animado pela Caridade Cristã, e sua vida pública deve ser vista como Caridade Social porque, homem e mulher, além da  Justiça,  têm e terão sempre necessidade do Amor.

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