sexta-feira, 12 de maio de 2017

RELENDO O "DIÁRIO DE ANNE FRANK"



            Estou lendo, pela terceira ou quarta vez, o diário de Anne Frank, a menina que, a seu tempo, por ocasião da segunda guerra mundial, emocionou o mundo inteiro, com a publicação de seu "Diário".
            Anne Frank morreu, juntamente com sua irmã, Margot, num campo de concentração nazista. (Margot morreu na câmara de gás, e Anne morreu de morte natural, vitimada pelo tifo).
Alguns dias antes de morrer Anne Frank escreveu em seu "Diário" estas palavras que sempre me emocionam quando eu o releio:
            - "Verdadeiramente minha vida mudou, e para muito melhor, porque Deus não me abandonou, e não me abandonará jamais."
             Estas palavras me fazem lembrar daquelas outras proclamadas não pelo Deus de Israel, mas por Seu Filho, tornado homem na Terra, para assumir a condição  e os sofrimentos de homens e de mulheres, bem como a dar a eles e a elas um novo sentido à sua esperança: - "Deixai vir a Mim os pequeninos."
             Apesar de sua saúde frágil, marcada por sofrimentos horríveis nos tempos de cativeiro, a alma de Anne Frank era daquelas  que, desde sempre,  responderam às palavras de Jesus de Nazaré: Deus, de fato, nunca a abandonou.]
             Naquele campo de torturas e de mortes, em Bergen-Belsen,  com seus fatídicos fornos crematórios e com o desencadeamento demoníaco das mais atrozes demonstrações da barbárie nazista, é preciso confessar que este Deus que Anne Frank  mal conseguia definir, mas cuja imagem estava presente em seu coração, nunca haveria mesmo de abandoná-la até seus últimos dias, como nos comprova o "Diário".
            E eu o creio, porque Deus, o "Abbá" de Jesus é Pai, e também porque, no mais profundo de nossas fraquezas humanas diante do sofrimento,  no recesso mais sombrio de nossas angústias e revoltas, Anne Frank representa para nós uma das mais eloquentes certezas da realização plena de nossa esperança teologal..
            Ela, que se considerava um nada, conseguiu romper a muralha de silêncio culposo  das religiões (o Papa Pio XII?) e mostrar ao mundo inteiro  nas páginas de seu "Diário", a chaga sangrenta das deportações em massa e do extermínio dos judeus nos campos de concentração. E pensar que nós, no Brasil,
estivemos bastante próximos dessa nefasta ideologia nazista na sua versão tupiniquim  do  integralismo de Plínio Salgado, cópia mal feita do fascismo de Mussolini, aliado confesso de Hitler.
            O Prêmio Nobel da Paz, o Padre Pire, que  à sua sexta aldeia européia  acolhia os refugiados de todas as regiões da Europa,  deu-lhe o nome de Anne Frank, a pequenina mártir que emocionou a  todos nós, e se tornou a menina querida do mundo inteiro..
            E termino o meu texto recomendando a todos que tenham oportunidade, que leiam o "Diário de Anne Frank", pedindo a Deus que nunca mais aconteça neste nosso mundo a tragédia da guerra e dos fatídicos campos de concentração, onde milhares e milhares de inocentes pagaram com a vida  a bestialidade dos que se julgam os senhores do mundo.

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segunda-feira, 1 de maio de 2017

O BATISMO QUE NOS PURIFICA



            Sou um "curioso" inveterado dos  assim ditos "Padres da Igreja",  da mais remota antiguidade que deixaram para nós, cristãos deste nosso século, obras teológicas de grande valor e de perene riqueza de Fé a fortalecer-nos em nossa caminhada para Deus.
             Tenho hoje diante dos olhos um texto do grande bispo São Basílio, que viveu e pontificou no século IV, escrevendo sobre o Espírito Santo. Como eu gostei muito do texto, peço licença ao eventual e benévolo leitor para transcrevê-lo aqui, valorizando o meu modesto blog:

              "Do Livro sobre o Espírito Santo,  de São Basílio, Bispo da Igreja Católica":

               O Espírito vivifica

               O Senhor, que nos vivifica, e que nos concede a vida, estabeleceu conosco a aliança do Batismo, como símbolo da morte e da vida. A água é imagem da morte e o Espírito nos dá o penhor da vida. Assim torna-se evidente o que antes perguntávamos: por que a água está unida ao Espírito? É dupla, com efeito, a finalidade do Batismo: destruir o corpo do pecado para que nunca mais produza frutos de morte, e vivificá-lo pelo Espírito, para que dê frutos de santidade.
             A água é a imagem da morte porque recebe o corpo como num sepulcro, e o Espírito, por sua vez, comunica a força vivificante que renova nossas almas, libertando-as da morte do pecado e restituindo-lhes a vida. Nisto consiste o novo nascimento da água e do Espírito: na água realiza-se a nossa morte, enquanto e Espírito nos traz a vida.
             O grande mistério do Batismo realiza-se em três imersões e três invocações, para que não somente fique expressa a imagem da morte, mas também a alma dos batizados seja iluminada pelo dom da ciência divina. Por isso, se a água tem o dom da Graça, não é por sua própria natureza, mas pela presença do Espírito. O Batismo, de fato,   não  é uma purificação da imundície corporal, mas o compromisso de uma consciência pura diante de Deus. Eis porque o Senhor, a fim de nos preparar para a vida que brota da ressurreição, propõe-nos todo o programa de uma vida evangélica, prescrevendo que não nos entreguemos à cólera,  sejamos pacientes nas contrariedades e livres da aflição dos prazeres e do amor ao dinheiro. Isto nos manda o Senhor, para nos induzir a praticar, desde agora, aquelas virtudes que na vida futura se possuem como condição natural da nova existência em Deus.
             O Espírito Santo restitui o Paraíso, concede-nos entrar no Reino dos Céus  e voltar à adoção de filhos. Dá-nos a confiança de chamar a Deus nosso Pai, de participar da Graça de Cristo, de sermos chamados filhos da luz, de tomar parte na glória eterna, numa palavra, de receber a plenitude de todas as bênçãos, tanto na vida presente quanto na futura.
             Dá-nos ainda contemplar, como num espelho, a graça daqueles bens que nos foram prometidos e que pela Fé esperamos usufruir como se já estivessem presentes.
             Ora, se é assim o penhor, qual não será a plena realidade? E, se tão grandes são as primícias, como não será a consumação de tudo na presença de Nosso Senhor Jesus Cristo?

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             E eu encerro este blog de hoje, com a seguinte prece, que retiro da  "Liturgia das Horas":  

                                           Quando emerge nossa carne das águas do Batismo,
                                           Deixando   ali sepultos os crimes do pecado,
                                           A pomba do Espírito vem voando para nós,
                                           e vem do Céu, trazendo a paz que Deus nos dá,
                                           e a Igreja é figurada pela Arca da Aliança..
                                           Bendito sacramento da Água Batismal
                                           pela qual nos tornamos capazes
                                           de entrar na Vida Eterna
                                           purificados de todos os pecados da vida passada.
                                           
                                           Amém. Aleluia.

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sexta-feira, 21 de abril de 2017

PINGOS E RESPINGOS...



            ***  O Deus de minha Fé não é o Deus que muda as leis da Natureza a Seu bel prazer, ou segundo Suas conveniências. E muito menos o Deus que desatende as súplicas de nós, Seus filhos, ainda que sejam justas, como acabar com a fome de populações inteiras em várias partes deste nosso mundo, mandar a chuva benfazeja para regiões martirizadas pela seca, ou curar nossas doenças.
           ***   Nosso Deus é, antes de tudo, amor. É o grande companheiro que está com os deserdados da sorte, com o enfermo, e não com a enfermidade, contra a qual Ele pouco pode intervir, porque ela permanece na esfera autônoma da Natureza, que Ele respeita.
          ***   O homem de Fé e o ateu não habitam mundos diferentes; simplesmente habitam de maneira diferente um só e o mesmo mundo. Ambos vivem a mesma vida, só que a vivem de modo diferente.
          ***   A bondade de Deus é tão universal, que não exclui ninguém, nem mesmo os maus, os pecadores, ou mesmo os que O negam. Faz nascer o sol igualmente sobre os bons, como também sobre os justos e injustos. Por isso, perdoa sempre, até ao ponto de, como o pai da parábola do filho pródigo, não castigar nem repreender, mas alegrar-se e fazer festa pelo regresso do filho á casa paterna.
         ***  Aquilo por que Deus Se interessa no homem e na mulher é tudo, enquanto realização positiva do homem e da mulher. Literalmente tudo, como corpo e alma, cultura e alimento, trabalho e religião. Aliás, Deus não é nada religioso, porque religião é pensar e servir a Deus, mas o Pai de Jesus de Nazaré não pensa em Si mesmo nem precisa ser servido por homem e mulher. Na verdade, Ele pensa em nós e busca exclusivamente nosso bem, não quer servos nem incensários que proclamem Sua glória. Busca-nos a nós mesmos, deseja nossa existência e nossa felicidade. Para isso criou o mundo e o colocou em nossas mãos.
        *** Isto me acontece dia e noite, e talvez para todo o sempre: diante do sofrimento angustiante de minha falecida filha Raquel, nos quatro anos de sua doença, com um insidioso câncer que tomou todo o seu cérebro, me custou muito tentar convencê-la de que Deus nos criou por amor. Confesso francamente hoje, diante da dolorosa ausência de minha inesquecível Raquel, que em certos momentos sou tentado a crer que eu, que me digo cristão, me sinto totalmente consciente desta cruel dúvida:  - Será mesmo verdade que Deus nos criou por amor? Que Ele, na Sua misericórdia, me perdoe!
      

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O PERTURBADOR SILÊNCIO DE DEUS



            Num certo sentido, homens e mulheres deste nosso mundo estão cercados por todos os lados pelo doloroso e angustiante silêncio de Deus, abandonados totalmente à própria sorte de seres contingentes, finitos, entregues à morte.
           "Homens e mulheres sentem que suas vidas se intercalam entre duas gigantescas noites: a noite da não existência. Ontem não eram. Esse ontem recua bilhões de anos até o famoso big-bang inicial. E antes dele paira o silêncio do nada. Após a morte, abre-se nova noite escura sem término. Entre essas duas ameaças do caos inicial e final, homem e mulher caminham solitários, sem luz.
            É o que leio em "Introdução à Teologia", de Libânio/Murad.
            Ou nas perturbadoras palavras do cientista J. Monod:
            - "Homem e mulher sabem que estão sós na cega imensidão do universo, de que saíram por puro acaso).
            Ou como diria Albert Einsten:
            - "Estranha é nossa situação aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta passagem, sem saber por quê, ainda que algumas vezes tentando adivinhar um propósito".  (Dawkins, "Deus, Um Delírio").
            Continuando, poder-se-ia invocar Pascal, nos seus "Pensamentos":
            - "Aspiramos à verdade, e só encontramos incertezas. Buscamos a felicidade e só achamos miséria e morte. O silêncio eterno desses espaços infinitos nos apavora..."
            O saudoso Papa Bento XVI em seu livro "Jesus de Nazaré", comentando o salmo 73, em que o justo sofredor protesta diante de Deus contra os males que nos acometem, pergunta:
            - "Deus não vê nada, realmente? Não ouve? Não se preocupa com o destino do homem?" E cita um dos lamentos do salmista:
            - "Foi então para nada que conservei um coração puro? Sou provado a cada hora e molestado continuamente..."
            É de fato um grande enigma, e diante dele os crentes sentem duramente o peso do silêncio divino, não como negação da existência de Deus, mas sim como sensação de abandono e indiferença por parte de Deus. Este silêncio enigmático e sufocante desconcerta a muitos cristãos menos prevenidos, sempre desejosos de qualquer manifestação sensacional de Deus. Uma espécie de teofania do Antigo Testamento, com raios e trovões, que purificasse para sempre o mundo corrompido, curasse todas as mazelas e sofrimentos da humanidade, e reconduzisse à Fé teocêntrica os povos e as nações.
            Acossados por este silêncio de Deus para eles incompreensível, homem e mulher de todas as etnias fazem ouvir o seu gemido angustioso, um gemido que vem de longe, expresso por boca humana, e que parece refletir uma dor primeira que remonta às origens do mundo. Não um gemido genérico do animal ferido que sente a terra entreabrir-se para devorá-lo, mas o gemido existencial do homem e da mulher, isto é, o gemido da alma erguida que se levanta e interroga a Deus, pedindo-Lhe explicações para a onda de mal e de sofrimento que envolve por todos os lados o mundo por Ele criado.
          Começando pelo bíblico Jó ("Pereça o dia em que nasci, que sobre ele não brilhe a luz); continuando pelos salmistas; assumido dramaticamente por Jeremias nas suas elegias, até culminar no angustiado grito de Jesus de Nazaré na cruz, este gemido secular perpassa por toda a Bíblia, num clamor contínuo e sem respostas:
            - "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Clamo de dia, e não respondes; grito de noite, e não encontro repouso..."  - (Salmo 22).
            Nos quatro evangelhos a tradição existencial do silêncio de Deus aparece de forma muito explícita em dois momentos muito importantes da vida de Jesus de Nazaré: no Horto das Oliveiras (Mt 27, 36-46, Mc 14, 32; Lc 22, 39-46 e, em seguida, na cruz (Mt 27, 46; Mc 15,  Lc 23,46, Jo 19-28).
            Já em nossos dias, visitando o campo de concentração de Auschiwtz, onde um milhão e meio de judeus foram mortos pelos nazistas, o Papa Bento XVI deixou-se levar pela emoção e lançou também este brado, que surpreendeu e comoveu o mundo inteiro:
            - "Por que, ó Deus, o Senhor permaneceu em silêncio? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava Deus naqueles dias? Por que ficou Ele em silêncio? Como pôde permitir esse massacre sem fim, esse triunfo do mal?
            E eu, parodiando a pungente pergunta do judeu alemão Hans Jonas na Europa do pós-guerra, tomo a liberdade de acrescentar:
- "Onde está Deus, que não vem libertar-nos da violência das guerras e do terrorismo desenfreado que acomete regiões inteiras deste nosso mundo?
            E poderia ainda acrescentar com Andrés Torres Queiruga, no seu livro "Recuperar a Salvação":                                                         
- "Onde está Deus quando nos acontece uma desgraça, ou nos sentimos infelizes? Onde se situa Deus em nossa vida e em nossa História?"
            A tentação exercida entre nosso povo simples e marginalizado, principalmente os das periferias, pelo baixo espiritismo e pelas incontáveis seitas pentecostais e milagreiras, é prova de uma fome quase doentia de milagres, fome de apalpar, de apreender, de agarrar essa presença ou ausência misteriosa que governa o mundo:
            -"Ah! Se rompesses os céus e descesses! As montanhas se desmanchariam diante de Ti!" (Isaias, 63,19).
            Para a mentalidade contemporânea, homem e mulher experimentam uma dificuldade quase insuperável no seu ansiado contato com Deus. Isto porque "Deus, enquanto mistério indizível, não pode ser encontrado em nosso mundo, parece não poder entrar nesse mundo com que nós temos de nos haver, pois que assim Ele Se tornaria o que não é, a saber: uma realidade singular lado a lado com outra realidade que não Ele." (Karl Rahner, "Curso Fundamental da Fé").
            Na verdade, para nós cristãos-católicos,  Deus nos fala sem cessar. E é justamente a Liturgia  que nos  vem continuamente lembrar esta realidade empolgante: Deus está no mundo. Deus desceu sobre a Terra e se fez como um de nós. Não é apenas uma presença figurada como na Arca da Aliança. É uma presença tão difundida e tangível, que nos envolve como uma atmosfera por todos os lados, como envolve o mundo. Já o disse Teilhard de Chardin, sacerdote e cientista, no seu livro "El Medio Divino":
            - "Que nos falta então para que O possamos abraçar? Somente uma coisa: vê-Lo."
            Presença que se tornou concreta e palpável na Encarnação. Deus Se fez carne, na pessoa de Seu Filho, levantou Sua tenda entre nós, entrando na história humana para dela não mais sair. Portanto, para nós,  "a vida histórica de Jesus é a revelação mais plena do Deus cristão." (Leonardo Boff, "Jesus Cristo Libertador").
            Deus Se nos manifesta, sim, e nós O conhecemos pela mediação de Jesus de Nazaré. Em Jesus, Deus Se manifestou a nós como Aquele que Se interessou de tal modo por nós, que quis participar intimamente do nosso destino, e assim tornar-Se o Deus próximo e familiar, o "Deus conosco", o "Emanuel" que conhecemos pelos Evangelhos.
            Como cantou o padre Zezinho, evangelizando através da música: "Em Jesus, Deus Se tornou refeição e Se fez o caminho."
            Lembremo-nos, também, do que está escrito no Apocalipse:
            - "Eis que estou à porta, e bato", significando que Deus está na soleira e bate à porta, mas, se não a abrirmos livremente, Ele não entrará. Por absoluto respeito à nossa liberdade, recusa-Se a forçar a entrada do nosso coração e da nossa vontade livre. Permanece, entretanto, presente sempre, perdoando e salvando, não Se vai embora, e continua a bater.
           Por isso, é muito salutar que tomemos consciência desta verdade terrível:  - É próprio da liberdade humana poder, com sua minúscula recusa, perdida nas imensidades do tempo e do espaço, deter o oceano da Graça divina."  (Charles Moeller, "A Fé em Jesus Cristo").
          Jesus de Nazaré, pela Sua vida e pela Sua prática,  como o "Abbá"- Seu  Pai - é bom e misericordioso. Não quis ofuscar-nos com a luz de Sua glória e poder; por isso penetrou sorrateiramente entre homens e mulheres, fez-Se um entre muitos, e é preciso descobrir a Sua presença escondida, encarnada sob as vestes do quotidiano. Ele está aí e nos chama; nós, porém, nem sempre ouvimos Sua voz, nem sempre queremos abrir nosso coração à Sua Palavra que Se fez carne, que Se fez Eucaristia.
          Assim, este perturbador "silêncio de Deus"  é um silêncio causado por nós próprios, que sufocamos os apelos divinos com os nossos barulhos inúteis. Não há "silêncio de Deus", e sim incapacidade humana para captar imediata e claramente Sua voz. Voz que insiste, apesar de tudo, e que é experimentada, quando A percebemos como dom pessoal e gratuito, porque Deus não Se mostra de modo arbitrário, mesquinho ou favoritista. Revela-Se a todos e desde sempre na generosidade irrestrita do Seu amor por todos nós.
         E é o que acabamos de celebrar na quaresma, e estamos ainda a celebrar neste tempo pós-pascal,  em nossas igrejas e no recesso de nossos lares.


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quinta-feira, 13 de abril de 2017

CRISTO, O CORDEIRO PASCAL



            "O Cordeiro Pascal Jesus Cristo, imolado na cruz, libertou-nos da morte para a vida!"

             "Muitíssimas coisas foram preditas pelos profetas sobre o mistério da Páscoa, que é Cristo, "a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém". Palavras do Apóstolo Paulo, que leio em Gálatas, 1,5."
              O Senhor Jesus Cristo desceu  dos céus à Terra para curar a enfermidade de homem e mulher, maculados pelo pecado e condenados à perdição eterna, não fosse a misericórdia gratuita de Deus. Revestido da nossa natureza no seio da Virgem Maria,  Jesus Se fez homem, tomou sobre Si os sofrimentos do homem num corpo humano sujeito ao sofrimento e à morte. Seu espírito, que não pode morrer, fez morrer a morte homicida.
            Foi levado à cruz como cordeiro pascal e morto como ovelha, libertou homem e mulher das seduções do mundo e do pecado, como outrora tirou os israelitas da escravidão no Egito, como salvou-nos da escravidão do demônio, como outrora salvara o povo eleito das mãos do faraó, marcando nossas almas com o sinal de Seu espírito e nossos corpos com o Seu sangue redentor.
            Jesus venceu a morte e confundiu o demônio, como outrora Moisés ao faraó. Foi Ele que destruiu a iniquidade e condenou a injustiça à esterilidade, como Moisés no Egito.
            Foi Jesus que nos fez passar da escravidão do pecado para a liberdade, das trevas para a luz, da morte para a vida,  da tirania para o reino sem fim, e fez de nós um sacerdócio novo, um povo eleito para sempre. Foi Jesus a Páscoa da nossa salvação eterna.
            Foi Ele que tomou sobre Si os sofrimentos de muitos: foi morto em Abel, vendido em José, amarrado de pés e mãos em Isaac, exilado de Sua terra em Jacó, exposto em Moisés infante, sacrificado no cordeiro pascal, perseguido em Davi e ultrajado nos profetas.
            Foi Ele que Se encarnou no seio da Virgem Maria, foi traído por um amigo,  suspenso na cruz, sepultado na terra fria, mas, sustentado por Deus, ressuscitado dos mortos pelo Pai, e subiu ao mais alto dos céus.
            Foi Ele o cordeiro que não abriu a boca, o cordeiro imolado, nascido de Maria, foi Ele a ovelha retirada do rebanho, levada ao matadouro, imolada à tarde e sepultada perto da noite. Ao ser crucificado, não lhe quebraram osso algum, e ao ser sepultado, não experimentou a corrupção do corpo; mas ressuscitado dos mortos, ressuscitou também a humanidade das profundezas do sepulcro.

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Da Liturgia das Horas, da quinta-feira santa:

                                                 Todos os homens e mulheres pecaram
                                                 e carecem da glória de Deus
                                                 sendo justificados, de graça,
                                                 mediante a libertação
                                                 realizada por meio de Cristo,
                                                 Deus destinou que Cristo fosse, por Seu sangue,
                                                 a vítima da propiação
                                                 pela Fé
                                                 que recebemos nEle mesmo.
                                                 Eis aqui o Cordeiro de Deus,
                                                 o que tira o pecado do mundo

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domingo, 9 de abril de 2017

LIGEIRA MEDITAÇÃO SOBRE O DOMINGO DE RAMOS


           "Bendito o que vem em nome do Senhor!"
 
           Vinde comigo, benévolos leitores, subamos juntos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo, que volta da aldeia de Betânia onde estava com o amigo Lázaro e suas irmãs,  e Se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação.
            Caminha o Senhor Jesus livremente para Jerusalém, Ele que desceu do Céu por nossa causa - prostrados que estávamos por terra - para elevar-nos consigo "bem acima de toda autoridade, poder, potência e soberania, ou qualquer título que se possa mencionar (Ef 1,21), como lemos na Bíblia Sagrada.
            O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, diz-nos a Escritura, e ninguém ouvirá Sua voz (Mt 12,19). Pelo contrário, vem manso e humilde, e Se apresentará com vestes pobres e aparência modesta.
            Acompanhemos o Senhor, que corre apressadamente para a Sua Paixão, e imitemos os que foram ao Seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas para nós mesmos nos prostrarmos a Seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que Se aproxima, e acolhermos Aquele Deus que lugar algum pode conter.
            Alegra-Se Jesus, porque deste modo nos mostra a Sua mansidão e humildade, e Se eleva, por assim dizer, sobre o ocaso de nossa infinita pequenez. Ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-Se um de nós, para nos elevar e nos reconduzir a Si.
            Portanto, em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram nosso olhar por pouco tempo, mas perdem depressa o seu verdor, prostremo-nos aos pés de Cristo. Revestidos de Sua Graça, ou melhor, revestidos dEle próprio, - vós todos que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo  (Gl 3,27) - prostremo-nos a Seus pés como se fôssemos mantos e palmas estendidos diante dEle.
           Antes, éramos como escarlate por causa de nossos pecados, mas hoje purificados pelo Batismo da salvação, nos tornamos brancos como a neve. Por conseguinte, não ofereçamos mais ao vencedor do pecado e da morte, ramos e palmas, porém o prêmio de Sua vitória, que é nossa alma redimida.
            Agitando à Sua passagem ramos espirituais de nossa conversão, O aclamemos todos os dias, dizendo estas mesmas palavras com que Ele foi saudado pelos Seus seguidores:
 
            - "Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel."
 
                                               ******************************

segunda-feira, 3 de abril de 2017

CAPITU, A MENINA DOS OLHOS DE RESSACA



            Estou relendo pela quinta ou sexta vez o "Dom Casmurro", obra prima de Machado de Assis. Releio, não tanto por causa do autor, mas o releio porque, cada vez que o faço, mais me apaixono pela Capitu, a menina dos olhos de ressaca.
            E, terminada a releitura, sempre me vem à cabeça, queira eu ou não queira, a interrogação que nunca deixa de martelar-me o cérebro: por que será que o ranzinza Machado de Assis foi tão ruim com a Capitu?
            Sempre ouvi dizer que, apesar de ser considerado o maior escritor brasileiro, era ele um sujeito cínico, perverso mesmo, mas nunca imaginei que fosse Capitu quem deveria sofrer as malvadezas dele.
            Saudosa e pobre Capitu!
            Não me chamo Bentinho, não morei nunca no casarão da Matacavalos, mas não consigo  perdoar o que o Machado fez com Você, nem a esquecerei jamais!
            Quantas vezes ainda hoje, apesar dos oitenta e um anos no costado, nas balbúrdias da vida, no silêncio do  estudo, na concentração da prece, ou nos gestos do amor, eu me vejo de repente ensimesmado, distraído, pensando em Você, conversando com você, namorando-a à distância, nós dois sentados à beira do poço, na chácara do velho Pádua!
            Parece-me vê-la novamente, aquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita meio desbotado, os olhos de cigana oblíqua e dissimulada, o riso claro, espontâneo e alegre. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças negras, com as pontas atadas uma à outra, a descer-lhe pelas costas, à moda do tempo...
            Ainda me lembro daquele dia em que, ao entrar na sala de visitas, ouvi proferir meu nome e escondi-me atrás da porta. E ali, trêmulo, com medo de um espirro, ouvi o José Dias contar à minha mãe muita coisa de nós dois, que andávamos pelos cantos, aos segredinhos, e que, se pegássemos de namoro, então é que seria a dificuldade para me botarem no seminário, fazerem-me padre, promessa de minha mãe!...
            Fugi da varanda. Ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coração parecendo querer sair-me boca a fora. Vozes confusas me repetiam o discurso do José Dias:
            - "Sempre juntos... " - "Aos segredinhos..." - "Se eles pegam de namoro..."
            Ah! Capitu! Naquele tempo tudo isso eram apenas travessuras de crianças, ainda não sabíamos analisar o que nos ia pelo coração. Você se lembra do dia em que eu a surpreendi escrevendo no muro com a ponta de um prego? Eu quis ver de perto e dei um passo. Você agarrou-me, mas , ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e tapou o escrito com o corpo. Foi o mesmo que atiçar em mim o desejo de ler o que era. Dei um pulo, e antes que Você raspasse o muro, li dois nomes abertos ao prego, e esses nomes eram os nossos!
            Voltei-me para Você. Você tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro...
            Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, diria o velho Machado. Na verdade, eu e Você não falamos nada, o muro falou por nós. Daí então, Capitu, poderíamos ter sido muito felizes. Mas mamãe tinha feito promessa de botar-me para padre. E não havia jeito de tirar-lhe isso da cabeça, pois até o vigário da paróquia estava a seu favor.
             Você preferia tudo ao seminário. Até fugir Você me propôs, ou então ligar uma canoa a muitíssimas outras, fazer até Roma uma ponte de canoas, e lá pedir ao Papa dispensa da promessa de minha mãe. Nada lhe parecia difícil, pois Você era Capitu, isto é, uma criatura muito particular, muito mais mulher do que eu era homem.
            E o tempo correu. Alguns dias antes de partir para o seminário, fui visitá-la em sua casa. Encontrei-a na varanda, penteando os cabelos. Tomei o pente de suas mãos, desmanchei-lhe os cabelos, e eu mesmo quis penteá-los. E o fiz muito devagar, demoradamente, com carinho,
desmanchando e penteando de novo, indefinidamente, como se quisesse segurar o tempo!
            Você refletia. A reflexão não era coisa rara em Você, mas nesse dia era uma reflexão toda especial. Você pensava em algum último e desesperado recurso para me livrar do malfadado seminário. Fiquei tão comovido com a sua dedicação que corri à janela e comprei duas cocadas de um moleque que passava. Tive de comê-las sozinho. Em meio à crise, eu ainda achei tempo para cocadas, ao passo que Você não quis saber delas, e quanto Você gostava de doces! E o moleque foi cantando rua a fora o pregão das velhas tardes, tão sabido do bairro e da nossa infância: -"Chora, menina, chora; chora porque não tem vintém."
            Creio que a letra, destinada a ferir a vaidade das crianças, foi que aborreceu minha amiga, pois logo me disse: - "Se eu fosse rica, Você fugia, metia-se num navio e ia para a Europa..."
            Como se vê, Capitu, Você aos quatorze anos já tinha ideias atrevidas. Mas apesar delas, apesar do juramento que fizemos certa tarde à beira do poço, de que um dia nos casaríamos, apesar dos mil "pai-nossos", e das mil "ave-marias" que prometi aos céus, minha mãe me botou no seminário!
           E a nossa despedida, Capitu? Você se lembra? Foi de tardezinha, debaixo do caramanchão; e ali ficamos, não sei quanto tempo, somando as nossas ilusões, os nossos temores, começando já a somar as nossas saudades.
           Vieram depois as lutas. Eu não queria saber do seminário. Os padres lustrosos e enfatuados me enfaravam. Enjoava-me o cheiro do incenso. Enfastiavam-me as longas rezas. A carolice dos companheiros dava-me nos nervos. E inventava planos para sair. E monsenhor Cabral, o reitor, não deixava. O José Dias, cúmplice, não descobria logo a maneira mais honrosa de safar-me da batina. Mamãe continuava esperançosa de ainda me ver um dia dizendo missa. E Você lá na sua janela, pensando... sofrendo... E como eu sofria também nesse tempo, Capitu!
            Depois... depois... Ah! Machado de Assis!... O que é que Você foi fazer da minha Capitu de olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada?
 
 
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           Fecho o livro no ponto em que um dia o deixei, para chorar a traição da Capitu. E, chorando sua traição, sinto vontade de chorar a morte da minha juventude e dos  mal- ajambrados sete anos que passei num seminário da Capital paulista, também promessa de minha inesquecível mãe, que Deus a tenha na Sua paz!

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quinta-feira, 30 de março de 2017

SUBLIME MISSÃO CRISTÃ: HUMANIZAR E IRMANAR


            Tenho plena convicção de que todos nós, humanos que somos, recebemos de Deus uma solene missão: humanizar e irmanar homem e mulher nos caminhos de peregrinos neste mundo. E esta é uma tarefa sobretudo do cristão, que confessa e professa que Deus Pai criou os homens e mulheres em Cristo e os tornou filhos seus em Seu Filho, Jesus, estabelecendo um novo modo de relacionamento na humanidade. Neste sentido, esta tarefa se estende desde o Papa, os bispos, sacerdotes, os fiéis cristãos,  até chegar à lavadeira Dona Joaquina, cá do meu bairro, o Tingui, em Curitiba.
            É claro que, para humanizar, é preciso, antes de tudo, sermos humanos, e para construir uma efetiva fraternidade é preciso que todos nós sejamos irmãos.
            Disto, os pobres nos dão uma grande lição de vida. Entre os pobres não falta o espírito de solidariedade, de partilha, de fraternidade, de simplicidade, de serena misericórdia. Na minha já longínqua infância na cidade de Caldas, sul de Minas Gerais, a extrema pobreza de meus pais não os impediu de viver a solidariedade com seus vizinhos tão pobres como eles, e partilhar, juntos, a fraternidade e a misericórdia, que são  os "sinais" que Jesus ensinou e que eles aprenderam na meditação diária da Bíblia Sagrada...
            Vivendo sempre com a Bíblia à mão, meus saudosos pais me deixaram a lição de que é questão de vida ou morte viver a proposta de Jesus, para uma vida dedicada à fidelidade ao Evangelho.
            Aprendi com eles que essa fidelidade depende em primeiro lugar da força do Espírito Santo, que nos fortalece e nos orienta como seguir, com segurança,  em meio a tantos caminhos tortuosos
que nos surgem à frente.
            E hoje, com os oitenta e um anos que me pesam no dia-a-dia da velhice, tenho a plena certeza de que o ensinar de Jesus - "misereor super turbas" - (tenho compaixão deste povo) - revelando-me assim o rosto misericordioso do Pai de todos os pais, principalmente ali onde acontece o exercício da misericórdia, que tem um lugar bem preciso: encontrar o ferido no caminho, aproximar-se do indefeso, defendê-lo contra os salteadores, descentrar-se para anunciar o Reino de Cristo,  enfrentar e assumir os riscos e perseguições do mundo da antimisericórdia, viver o gozo antecipado da Ressurreição e levar a Esperança da libertação a quem perdeu toda esperança.
            E fico pensando que,  se minha vida de cristão  passar a  reger-se pelo "princípio da misericórdia",  terá como centro de minha Fé "o Deus dos feridos no caminho",  porque aprendi com Monsenhor Roxo, meu professor nos tempos de estudante de Teologia, na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, na Capital paulista, que viver o seguimento de Jesus é tarefa não só para o cristão individualmente, mas para toda a comunidade cristã.
           Oxalá esta tarefa se concretize em toda a ecumene cristã, em prol da libertação também não só de indivíduos, mas de povos inteiros escravizados e vitimados pela injustiça.
            

segunda-feira, 27 de março de 2017

A POLÍTICA, A POLITICALHA E O CRISTÃO



             Os profissionais da "coisa" já começaram (ou estão SEMPRE começando) a mover os pauzinhos para as próximas eleições que estão para vir. Num texto que publiquei tempos atrás, escrevi que as igrejas, tanto a Católica como as Evangélicas, não deveriam identificar-se com qualquer sistema político, econômico ou similar, pois isto não é competência das igrejas.
           No âmbito da Igreja Católica, que é aquela à qual pertenço, lembro que o Concílio Vaticano II, a seu tempo, proclamou solenemente a autonomia das realidades temporais terrestres, cuja incumbência pertence por direito ao Estado. Nestes termos, também o Estado não pode imiscuir-se no plano espiritual-religioso, que é campo exclusivo das Igrejas. O Estado não pode impor a religião aos seus súditos, mas isto sim, garantir a inteira liberdade de crença e a paz entre os praticantes das diversas religiões.
            O objetivo e a medida intrínseca da Política é a promoção de uma ordem justa na sociedade, em todos os seus setores. A Política é mais do que uma simples técnica para a definição dos ordenamentos políticos, como quer que se queira  defini-los. O pensamento social não pretende conferir à Igreja poder sobre o Estado.  Ela deseja e deve simplesmente contribuir para a purificação do estamento político e prestar a própria ajuda para fazer que tudo quanto for justo possa, aqui e agora, ser reconhecido e realizado para o Bem Comum da sociedade.
            As Igrejas não podem nem devem tomar nas próprias mãos a batalha política para realizar uma sociedade mais justa e consentânea com o Bem Comum. Esta é uma tarefa do Estado. Mas também não podem ficar "em cima do muro", não podem nem devem ficar à margem quando se trata da luta pela justiça. Uma sociedade justa não pode ser obra das Igrejas; deve ser realizada pelo Estado, através de uma prática política autêntica, voltada para os legítimos interesses da sociedade.
            Na esfera política, o dever imediato de trabalhar por uma ordem justa na sociedade é próprio dos fiéis leigos, e não das Igrejas, como instituição. Os fiéis de qualquer Igreja, como cidadãos do Estado, são chamados a participar pessoalmente da vida pública.  Eles não podem abdicar da múltipla e variada ação econômica, social, legislativa, executiva e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o Bem Comum.
            A missão do fiel de qualquer Igreja, dentro das realidades terrestres, é configurar retamente a vida social,  respeitando a sua justa autonomia e cooperando, segundo sua competência e responsabilidade com os demais cidadãos. E sempre,  como pessoa religiosa, deve sentir-se animado pela Caridade Cristã, e sua vida pública deve ser vista como Caridade Social porque, homem e mulher, além da  Justiça,  têm e terão sempre necessidade do Amor.

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quinta-feira, 23 de março de 2017

SAUDADES DE MINHA FILHA RAQUEL




            Neste mês de março de 2017,  em que comemoramos, chorando, mais um ano após a morte de minha inesquecível filha Raquel, pus-me a meditar sobre o significado da morte de um ente querido, e, dentro da fé católica que professo, é possível uma visão positiva do fenômeno angustioso da morte? E a fé que me anima responde-me que sim, porque dentro da vida humana há uma chance única na qual homem e mulher, pela primeira vez, renascem totalmente ou acabam de nascer na morte. Com efeito, de acordo com meu mestre de Teologia na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, não há um problemático tempo intermediário entre a morte e a ressurreição, porque essa ressurreição acontece justamente no momento da morte.
            Esta opinião de meu mestre, Padre Leonardo Boff, pode ser profundamente frustradora, pois a morte sempre foi entendida como um final de festa, ou como o derradeiro aceno de uma despedida.
            A morte é, sim, o fim da vida terrena. Ela marca a ruptura de um processo vital. Como que criando um corte entre o tempo presente e a eternidade . Mas a morte, como eu a entendo, cobre  apenas um aspecto do ser humano, o biológico e o temporal.  Homem e mulher constituem algo muito superior ao biológico, porque são mais do que um animal. São também superiores ao tempo, porque suspiram pela eternidade do amor e da vida, numa esfera superior.
            Homem e mulher são pessoas e, mais que isso, interioridade. Para eles, a morte não é simplesmente um fim, mas um fim-plenitude, um fim-meta-alcançada, o lugar do verdadeiro e definitivo nascimento. Lembra-me a mulher grávida que, entre dor e angústia, mas iluminada por uma doce esperança, logo pode segurar o filhinho recém-nascido em seus braços, e murmura, agradecida: atingi meu fim, alcancei minha meta como mulher: sou mãe!
            Este fim-plenitude, que é alcançado pela morte, só pode ser encontrado em um espírito de fé.  É nesta fé que encontramos a base para a esperança de que nossa vida não se perde no vazio do nada. Esta nossa convicção  está profundamente fundada em Deus. Neste Deus que Se revelou na ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que ressuscitará também a nós pelo Seu poder infinito.
            E foi nesta fé que minha inesquecível filha Raquel alcançou, na morte, o seu nascimento definitivo! Junto ao Pai de todos os pais, junto ao qual não existe mais a morte, mas a Vida Eterna!
            
           

terça-feira, 21 de março de 2017

SAUDADES DA RAQUEL



                 Saudades da Raquel - no seu aniversário

                            Minha filha Raquel, que te partiste
                                          tão cedo, desta vida, descontente:
                                          repousa lá no Céu, eternamente,
                                          e viva eu cá na Terra sempre triste.

                                          Se lá no assento etéreo aonde subiste
                                          lembrança desta vida se consente,
                                          não te esqueças daquele amor ardente
                                          que em meus olhos de pai tu sempre viste

                                          E se vires que pode merecer-te
                                          alguma coisa, a dor, que me ficou
                                          da mágoa sem remédio, de perder-te,

                                           Roga a Deus, que teus anos encurtou,
                                           que tão logo daqui me leve a ver-te,                 
                                           quão cedo de meus olhos te levou!

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         I - Continuando viva entre nós, por essa humilde, invisível e misteriosa presença de cada dia, de cada hora, de cada momento, com que impregnamos de esperança a nossa saudade, como também a grande alegria da certeza de que ela, na Casa do Pai de todos os pais, passou a velar por nós, agora na plenitude de sua vida com Deus e com os santos do Céu. Foi  da Raquel bíblica que escolhi o nome para minha filha, ao batizá-la.
            Raquel, do hebraico "hael" (ovelha), era filha de Labão, irmão de Rebeca, e pertencia à linhagem do patriarca Abraão. Conheceu Jacó à beira do poço da aldeia e os dois logo se apaixonaram à primeira vista. Labão contratou Jacó para trabalhar durante sete anos para ele, em troca da mão de sua filha Raquel. Começou assim a história das doze tribos de Israel, o Povo de Deus.
            O texto bíblico mostra-nos Raquel como a mãe de José, o patriarca de uma grande tribo do Povo de Deus. - "Então Deus se lembrou de Raquel. Deus atendeu às preces dela, tornando-a fecunda. Ela concebeu e deu à luz a um filho, e disse: - "Deus retirou a minha desonra". Deu ao filho o nome de José, e rogou que Deus lhe desse mais um filho.
            A história da Raquel bíblica revela que os filhos dela com Jacó nasceram sempre com a ajuda direta de Deus, que interveio na vida dela e curou-lhe a esterilidade. Como nos conta a Bíblia, Deus se lembrou de Raquel, e ela deu à luz José, o patriarca da grande tribo que recebeu as bênçãos de Deus e que se destacou entre seus outros irmãos.
            A história das duas mulheres de Jacó, Lia e Raquel, personagens de um dois mais belos sonetos da língua portuguesa, pela pena mágica de Camões, e mães dos doze filhos que formaram as doze tribos de Israel, vem contada nos capítulos 29 a 31 do "Gênesis". Jacó trabalhava havia sete anos para seu tio Labão. Seu "salário" seria o casamento com a prima mais jovem, Raquel. Labão, porém, seguiu os costumes da região e, na noite de núpcias, introduziu furtivamente na tenda nupcial a filha mais velha, Lia.
            O autor bíblico diz que Lia era odiada, mas não revela quem a odiava. O pai a entregou a um homem que não a amava. A mulher que Jacó amava era realmente sua prima Raquel. Nas sociedades patriarcais a posição das mulheres era determinada pelo número de seus filhos. Lia tornou-se mãe de quatro. Com o nascimento de cada filho ela esperava ganhar o amor de Jacó, mas em vão. Foi uma mãe feliz pelos filhos que teve, mas mal amada pelo marido.
            A Bíblia narra com detalhes os nascimentos dos descendentes de Lia e de Raquel. Elas são as grandes matriarcas de Israel. Infelizmente, não havia meios para Lia, a irmã mais velha e menos atraente, de segurar o amor de seu marido. Até o fim da vida, Raquel foi a predileta de Jacó.
            Retornando ao nosso tempo atual: assim como para o tão grande amor de sua filha Isabela, de seus irmãos Carlos e Júnior, assim também foi tão curta a vida de Raquel, minha filha inesquecível. Mas, como a Raquel bíblica, que deixou dois filhos que foram os fundamentos do Povo de Israel, assim também minha falecida filha Raquel deixou uma filha, Isabela, que na sua radiosa personalidade, é a esperança e a alegria de seus velhos e sofridos avós.

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                                 II - Que Deus a tenha na Sua Paz

            17 de março de 2017 - Se minha filha Raquel fosse ainda viva até essa data , iria completar 50 anos de idade. Não podemos festejar seu aniversário natalício, apenas chorar, desconsolados, a sua ausência física dentre nós. A morte inexorável a levou para a Casa do Pai/Mãe de todos os pais e mães que ainda peregrinam pelas estradas deste mundo.
            Ela separou-se fisicamente de nós, mas passou a viver mais intensamente com sua filhas Isabela, com seus irmãos Carlos e Aroldo Júnior, e com seus chorosos pais, após o seu falecimento em 21 de agosto de 2010, em hospital de São José dos Pinhais, vitimada por insidioso câncer.
            Numa união misteriosa e singular no Espírito Santo, comunicada às coisas que deixou e aos acontecimentos do dia-a-dia em que viveu conosco por esse tão curto tempo, a verdade é que ela partiu para a eternidade, mas continua a viver conosco pela dor sem remédio da saudade.
           Sua morte fez com que a revivamos nos objetos em que tocou, nas vestes que deixou e que nós conservamos com carinho, na lembrança das palavras que com ela trocávamos, nos fatos alegres ou tristes que juntos vivemos, e agora até nos fatos que se seguiram à sua morte, e que nós lhe comunicamos diariamente na prece, e com ela conversamos como se estivesse ainda viva em nosso hoje solitário lar.
            A morte, destino de todos os viventes, a levou, mas a devolveu de novo a nós, banhada pela luz da Eternidade com Deus e pela gloriosa certeza de sua ressurreição NA morte, que é a Fé que anima e conforta seus pais, e que os mantém ainda vivos para cultuarem sua memóriabém a grande alegria da certeza de ela, na Casa do Pai de todos os pais, passou a velar por nós, agora na plenitude de sua vida com Deus e os santos do Céu.
            Nesta certeza, nós a temos sempre a nosso lado, em nossa vida de cada dia, velando por sua filha Isabela, por seus irmãos, por seus já idosos pais.
            Presença permanente nos labores do dia-a-dia, no silêncio e na solidão das noites indormidas, enxugando-nos as lágrimas da saudade que não passa.

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                          III - Vida para além da morte

            A morte de minha filha Raquel fez-me refletir sobre o seu sentido espiritual e, com isso, perguntar a mim mesmo: dentro da Fé cristão-católica que professo é possível uma visão positiva do fenômeno doloroso da Morte? E a Fé que me anima responde-me que sim, porque dentro da vida humana há uma chance única na qual homem e mulher, pela primeira vez, nascem totalmente ou acabam de nascer: na Ressurreição, que acontece justamente no instante da morte, como defendem os maiores teólogos da atualidade, contestando a doutrina tradicional, segundo a qual a Ressurreição só acontecerá no final dos tempos.
            Com isso, afirmo que a morte significa já o final dos tempos, o fim do mundo para a pessoa que morre. Na morte, homem e mulher entram num modo de ser que anula as coordenadas do tempo e passam para a atmosfera de Deus, que é a Eternidade. Já a partir deste ponto de vista se deve dizer que não é mais compreensível afirmar qualquer tipo de "espera", de "tempo intermediário" entre a morte e uma suposta Ressurreição no final dos tempos. Por isso, a "espera" pela Ressurreição no final dos tempos é uma representação mental inadequada ao modo de existir da Eternidade.
            Para acabar com esta concepção errada e muito comum, é preciso repetir sempre: na Eternidade não há tempo. A Eternidade é um eterno hoje, um eterno presente. Se na Eternidade não há tempo, como é que os mortos vão esperar o tempo final? O final dos tempos para a pessoa que morre é justamente o seu falecimento.
            Na morte, a pessoa, pela Ressurreição que acontece na morte, nem antes nem depois, entra no final dos tempos, e aí recebe a sua destinação final. Nesta concepção concordam os mais influentes teólogos dos tempos modernos.
            A morte sempre foi entendida como o fim da vida corporal. Ela é dolorosa e triste como um fim de festa ou como o derradeiro aceno de uma despedida.
            A morte é sim o fim da vida. Ela marca a ruptura de um processo. Como que criando uma cisão entre o tempo presente e a Eternidade. Mas ela cobre apenas um aspecto do ser humano: o biológico e o temporal. Homem e mulher constituem algo muito superior ao biológico, porque são mais do que um animal. São também superiores ao tempo, porque suspiram pela perenidade do amor e da vida.
            Homem e mulher são pessoa e, mais que isso, interioridade. Para eles a morte não é simplesmente um fim, mas um fim-plenitude, um fim-meta alcançada, o lugar do verdadeiro e definitivo nascimento, alcançado na Ressurreição. E eu tenho a firme convicção que a Ressurreição acontece no próprio instante da morte, como me ensinou o mestre em teologia, Frei Leonardo Boff.
Lembra-me a mulher grávida que, entre angústia, dor e esperança, segura o filhinho recém-nascido e murmura, agradecida: atingi meu fim: sou mãe!
            É nesta Fé que minha filha Raquel, alcançando na morte a sua Ressurreição, alcançou também o seu nascimento definitivo.
            Se a sua ausência física entre nós enche-nos de uma angustiosa e pungente tristeza, paradoxalmente, pela sua vida plenamente vivida, pela sua Caridade ardente por todos que a rodeavam, a certeza inabalável de que a Raquel descansa hoje no Reino de Deus, enche-nos também de uma radiosa  e prazerosa alegria...


                                        
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           IV - Descanse na paz do Senhor
           Neste 21 de agosto de 2013 , na Igreja Paroquial, durante a Santa Missa celebrada pelo Padre Alceu, em sufrágio da alma da Raquel, mais uma vez familiares, ex-companheiros de trabalho na Caixa Econômica Federal, e inumeráveis membros da comunidade paroquial, nos irmanamos na imorredoura saudade e no dolorido pranto por ocasião de mais um aniversário do falecimento de nossa inesquecível filha.
           A tristeza infindável que nos martiriza pela ausência física da pessoa amada é, paradoxalmente, aliviada pela alegria da certeza absoluta de que ela, pela sua vida cristãmente vivida, pela Caridade ardente que animava todo o seu relacionamento com as pessoas com quem convivia, descansa hoje na Bem-aventurança eterna, junto ao Pai de todas as vida.
           Com seu organismo debilitado pelo câncer que lhe corroía coluna vertebral, pulmões e cérebro, ela esperava a morte, com plena consciência, mas transfigurada pela resignação, pela acendrada confiança em Deus e pelo amor de toda a sua pequena família, que também sofria em comunhão com ela.
            Permanece a dor da saudade no coração de sua filha Isabela, de seus pais Aroldo e Cleusa, de seus irmãos Carlos  e Aroldo Júnior, que dedicam à saudosa Raquel este singelo poema nascido da dor, abrandada, porém, pela certeza de que ela repousa em paz junto ao "Abbá" de Jesus de Nazaré, junto ao Pai de todas as vidas:
                                                 Eu esperei a morte como se espera o Bem Amado
                                                 ignorava como ela viria
                                                 nem como viria
                                                 mas eu a esperava
                                                 e não havia medo nessa expectativa
                                                 havia somente ânsia e curiosidade
                                                 porque a morte do cristão é bela
                                                 porque a morte do cristão é uma porta
                                                 que se abre para mundos desconhecidos
                                                 mas imaginados
                                                 como o amor
                                                 que nos leva para um outro mundo
                                                 como o Amor
                                                 que nos promete uma outra vida
                                                 diferente da nossa
                                                 Eu esperei a morte como se espera o Bem Amado
                                                 porque eu sei que em breve ela viria
                                                 e me receberia
                                                 em seus braços amigos
                                                 Seus lábios frios tocarão a minha face
                                                 e sob a sua carícia
                                                 eu adormeceria o sono da Eternidade
                                                 como nos braços do Bem Amado
                                                 Sei que este sono
                                                 será um ressurgimento
                                                 porque sei que a morte é Ressurreição
                                                 é Libertação
                                                 é Comunhão Total
                                                 com o Amor Total e Infinito
                                                 do Pai de todas as vidas


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            V - O último andar
            Hoje, de manhãzinha, este velhote já meio careca, ralos cabelos brancos na cabeça,   bastante carcomido pelo peso de seus 81 anos, confessa francamente, de público, que chorou .Estava dando uma arrumadela em seus livros, na estante, e encontrou ali, meio escondido entre pesados livros de Teologia, um pequeno volume intitulado "Um olhar sobre a cidade", do saudoso Dom Hélder Câmara, falecido em 28 de agosto de 1999.
            O velhote chorou, confesso mais uma vez, porque encontrou na primeira página do livro esta dedicatória: -"Para o pão-duro, munheca e boco-moco do meu irmão, que esta oferta grátis faça que o próximo ano marque para Você uma maior abertura de si mesmo. Darcy".
            Darcy. Minha irmã. Quem tem a pachorra ou a curiosidade de entrar no meu "blog do mestre"
encontra lá uma espécie de poema intitulado "Meus dois amores", e nele se fala da Darcy que, procurando mais vida numa mesa de cirurgia, na vida encontrou a morte, ao lado de Raquel, aquela que lutando contra a morte num leito de hospital, na morte encontrou a Vida Eterna
            Pois é, ambas, meus dois amores: Darcy, minha irmã;  Raquel, minha filha
            Folheando o belo livro de Dom Hélder, encontrei lá nas últimas páginas um poema de Cecília Meireles, com o sugestivo título de "O último andar".
            Peço licença  à Cecília Meireles para transcrever aqui os versos maravilhosos que também me fizeram chorar:
                                         No último andar é mais bonito
                                         do último andar se vê o mar
                                         é lá que eu quero morar
                                         O último andar é muito longe
                                         - custa-me muito lá chegar -
                                         mas é lá que eu quero morar
                                         todo o céu fica a noite inteira
                                         sobre o último andar
                                         é lá que eu quero morar
                                         Quando faz lua
                                         no terraço fica todo o luar
                                         é lá que eu quero morar
                                         Os passarinhos lá se escondem
                                         prá ninguém os maltratar
                                         No último andar
                                         de lá se avista o mundo inteiro
                                         tudo parece perto, no ar
                                         É lá que eu quero morar



            Chorei de manhãzinha porque, relendo o poema de Cecília Meireles, lembrei-me da Raquel,
minha filha querida que flechou verticalmente o Céu em busca do infinito. E este infinito, novo nome para "O último andar", é ali que se tornou definitivamente a morada eterna da Darcy e da Raquel, ambas os meus dois amores.
           Ambas no último andar. Será vaidade querer morar no último andar, onde ambas agora estão morando? Se de lá se vê o mar, se a noite inteira todo o Céu fica sobre o último andar; se de lá se avista o mundo inteiro, como não querer ir para o último andar? Sobretudo se é lá, no último andar, que os passarinhos se escondem para ninguém os maltratar, como pode ainda haver dúvida, quanto a meus dois amores terem querido ir morar no último andar?
            Para os meus dois amores, a Darcy e a Raquel, como foi também para os santos do Céu, a morte não lhes apareceu como um horrendo esqueleto com uma foice nas mãos. Elas, como os santos, não tiveram medo de morrer. Se morrer, para elas, é ressuscitar,  sei que elas nunca falaram em morrer. Quando fosse o caso, elas falavam em ressurreição na morte, ou então preferiam falar em partir...
            E como fez São Francisco de Assis, uma que procurava mais vida, e procurando mais vida se
deparou com a morte, a outra, que lutava contra a morte num leito de hospital,  e lutando contra a morte, na morte encontrou a Vida Eterna, saíram ambas vitoriosas, porque saudaram a Morte como uma irmã querida, que veio para leva-las para a Casa da Vida Eterna.

Para o ´Ultimo Andar".



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