sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O BOM VINHO DA VELHICE



                                                          Velhos vinhos
                                                          Agora
                                                         Que a velhice começa
                                                         Preciso aprender com o vinho
                                                         A melhorar envelhecendo
                                                         E sobretudo
                                                         A escapar
                                                         Do perigo terrível
                                                         De, envelhecendo,
                                                         Acabar virando vinagre


         78  anos no costado... Ainda assim, diz-me  o meu geriatra, Dr. Katter, que é muito importante saber envelhecer! Será que ele, visivelmente já um tanto quanto maltratado pela idade,  poderá aplicar a si mesmo o que preceitua para seus idosos clientes?

         Em todo caso, sou obrigado a concordar com os meus versos acima: é preciso saber envelhecer... Saber  descobrir o encanto de cada idade. Sem dúvida, há limitações que a velhice traz, e eu confirmo isto com o meu própria caso - setenta e oito anos no costado - Bem ou mal vividos? Entrego este questionamento à misericórdia de Deus.
        Sei por experiência própria que ha limitações, e muitas, que a velhide traz, sem que a gente a solicite... Mas, por via das dúvida, costumo dizer aos velhotes como eu que só é feliz quem envelhece como os frutos que amadurecem sem azedume...
       E digo mais: feliz de quem envelhece por fora, apenas na carcaça, como as frutas que amadurecem sem travo na língua... conservando-se sempre jovem por dentro. Crescendo em compreensão para com tudo e para com todos, caminhando, sempre mais, no amor a Deus e no amor ao próximo...
       Quem conserva acesa a sua chama, quem mantém entusiasmo pelo que faz, quem sente razões para viver, pode ter o rosto cheio de rugas e a cabeça toda branca, mas, garanto, é um jovem!
       Quem não entende a vida, e não descobre razão para viver, e não vibra, não se empolga, pode ter vinte anos, mas já envelheceu!
       Adulto que não entende os jovens, que vive dizendo que no seu tempo não era assim, que reclama contra tudo e contra todos, cava um abismo que o impede de atingir a gente moça, a gente que ainda é jovem, a gente que é a semente do futuro.
       Aqui na minha rua tem uma senhora que já é bisavó, e é ainda conselheira de seus netos e netas.
       Nos meus tempos de estudante de Teologia, em São Paulo, tive a ventura de ser aluno do professor de Direito Canônico, padre Araújo, um nordestino porreta com seus oitenta e três anos, e no entanto foi o jovem mais jovem que encontrei na vida...
        Você, meu benévolo leitor, qualquer que seja a sua idade, guarde este pensamento, que não é meu, mas de uma pessoa bastante idosa,  entretanto espiritualmente mais jovem do que eu,  muito mais sábia do que os setenta e oito  anos que tenho nas costas, o saudoso professor padre Araújo, citado linhas acima:
         - O importante não é viver muito, ou viver muito ou viver pouco, mas realizar na vida o plano para o qual Deus nos criou. As rosas, dizem os jardineiros, a rigor vivem um dia. Mas vivem plenamente porque realizam o destino de graça e de beleza que vêm trazer à Terra...      
          E continua ele:
          - Se Você sentir que os anos passam e a mocidade se vai, faça como eu, peça a Deus, para si e para os que como eu já se tornaram menos jovens, a graça de envelhecer como os vinhos envelhecem  -  tornam-se melhores - e sobretudo, a graça de, envelhecendo, não azedar, não virar vinagre...

                                                                      ****************

Dedico este texto a meu filho Aroldo Júnior que, apreciador dos bons vinhos, me ensinou também que um bom vinho, bebido com moderação, é também um bom adjuvante para que nos conservemos sempre jovens e cheios de ardor para vivermos plenamente a nossa vida.

    
      
        

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

FAZER TUDO BEM - SOMOS CO-CRIADORES COM DEUS



                                                            Dar o máximo
                                                            Trabalhar sempre com alma
                                                            E com toda a alma
                                                            Quer se trate
                                                            De conduzir até às estrelas
                                                            Uma nave espacial
                                                            Ou de fazer  
                                                            Uma simples ponta de lápis


        Fazer tudo bem: eis aqui um dos maiores louvores que o Evangelho faz de Cristo.

        E, à imitação de Cristo, não devo fazer nada mal feito, mal acabado. Sei bem que nenhum trabalho desonra e, muito mais, todo trabalho pode ser um louvor a Deus.
        Um dia, cá na minha rua neste bairro, o Tingui, em Curitiba, bem diante de minha casa, um gari da limpeza pública carregava um saco de lixo que tinha um cheiro insuportável.
        Esperei que ele jogasse o lixo no caminhão e quis apertar-lhe a mão. Ele não queria, de modo algum, que eu lhe pegasse na mão, dizendo-me que ela estava suja.
        E eu lhe disse, com absoluta sinceridade, que trabalho nenhum suja a mão humana. Suja a mão sim roubar, derramar sangue do próximo, pichar paredes, não trabalhar por falta de coragem e por malandragem... Sei bem que não trabalhar sem culpa, depois de procurar trabalho por toda parte, e ver todas as portas se fecharem à sua frente, isto não é desonra nenhuma: é terrível sofrimento!
        Certo dia, caminhando ali pela Rua XV, no centro rico de Curitiba, um molecote com uma caixa de engraxate às costas insistiu em engraxar meus sapatos, e eu, querendo ajudá-lo, deixei.
        Comoveu-me bastante contemplar o pequeno herói no seu trabalho. Ainda tão criança, na idade em que as crianças brincam e vão à escola, ali estava ele, no trabalho, ganhando, honestamente, o dinheirinho para a mãe enferma  -  me disse  -  de quem é arrimo. E como deixou brilhantes e quase novos os meus velhos sapatos!
        Por tudo isso, permita-me, benévolo leitor, que eu lhe diga: se depender de Você, não faça nada mal feito. Vai fazer uma ponta no seu lápis? Que ela não saia rombuda e feia...
        Seu trabalho é na cozinha? Por mais pobre que seja a família, cuide das panelas como certamente Maria, mãe de Jesus, fazia na casa de sua prima Isabel, grávida, quando ela a visitou.
        Não é só trabalho importante que deve ser feito com alma.
        No hospital, não basta que o médico seja fabuloso: toda a equipe tem quer eficiente - a telefonista tem estar alerta em seu posto; o pessoal da portaria tem que ser acolhedor e amigo; as enfermeiras e ajudantes de enfermagem, os serventes, a turma da limpeza, da cozinha, do almoxarifado. Todos e todas...
        Mais feliz seria esta minha Curitiba se cada um de nós desse conta de seu dever, sem jogar o trabalho em cima dos outros, sem desleixar, sem fazer cera, sem enrolar... Sem deixar-se corromper...
         Nosso Paraná tomaria jeito diferente, se cada um, em trabalho importante ou simples, compreendido ou incompreendido, bem remunerado ou mal-remunerado, cumprisse o dever com toda a alma.
         Erros, injustiças, a gente precisa reclamar na hora. Mas só tem força moral para reclamar, quem cumpre o dever para ninguém botar defeito.
         Só é invencível, sob todos os aspectos, quem se sabe e se sente dentro do plano de Deus, participando do trabalho sagrado de dominar a natureza e completar a Criação.
         É preciso lembrar sempre que Você e eu, todos nós, somos co-criadores com Deus.

                                                                     *************

O autor do texto é professor aposentado de Português e Francês, dentro do Quadro Próprio do Magistério do Paraná.
Licenciado em Letras e Bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da PUC.
Tem dois livros publicados: "Capitu" e "Página Esparsas"

                                                                    **************
      













                                                            

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

UMA ANEDOTA PIEDOSA...



          Coloco no meu blog, hoje, uma estória que parece  anedota piedosa que merece consideração. Talvez não seja mera anedota, mas fato real, segundo me disseram. Consta  ter acontecido em um bairro da periferia da Capital paulista. Como quer que seja, passo-a para a frente pelo preço que me custou...

          Sacerdote já idoso, pároco de uma cidade banhada por um caudaloso rio, certo dia, depois de violento temporal, viu sua paróquia ser acometida por uma inundação que se previa catastrófica.
           O pároco se nega a fazer parte da comissão constituída rapidamente para tomar as medidas cabíveis diante do sério problema, sob a desculpa de que "Deus tem que salvar cidade e população."
           Crescendo a enchente, os paroquianos tentam resgatá-lo de cima dos bancos da igreja, em que se aboletara para livrar-se da violência das águas.
           A enchente se avoluma perigosamente, e o pároco sobe na torre do templo. Numa tentativa de salvá-lo, os bombeiros utilizam um helicóptero, mas o padre recusa o socorro, confiando só na ajuda de Deus.
          Morre afogado e, ao chegar ao Céu, queixa-se ao Senhor,  de quem se julgara abandonado. Mas responde-lhe o Senhor, muito surpreso:
          - "Como podes dizer que eu te abandonei? Se fiz tudo o que podia!... Mandei-te uma comissão de vizinhos, suei para conseguir um barco... e cheguei até a alugar um helicóptero!...

                                                       **********************
        
          

domingo, 23 de fevereiro de 2014

VIGIA, O QUE DIZ A NOITE?



          A Salvação é vida, justiça e amor, o laço que une homens e mulheres entre si, na unidade. É obra comum. Quem assistiu tempos atrás ao soberbo filme "Hiroshima mon amour" se recorda que o casal de amantes, no quarto do hotel, ouve todas as manhãs um homem que passa tossindo debaixo da janela.
           A felicidade pessoal, que não se tivesse aberto para essa "janela de Hiroshima", se tornaria uma felicidade estéril. Nós, seres humanos, estamos juntos para o melhor e para o pior. Estamos ligados a esta Terra, situados, encarnados, e a Salvação só pode ser a Justiça e o Amor em nosso mundo.
           Nosso mundo? Os crentes sabem disto: para que ele seja o lugar da chegada do Reino, ele deve ser "transfigurado",  deve tornar-se "novo Céu e nova Terra".
           Os descrentes suspeitam que haja nessa "transfiguração" um escamotear, uma mistificação, que faz esquecer a Terra de homens e de mulheres. Mas Jesus é a Salvação, pois Ele é o Salvador. Em última análise, a Salvação não é uma noção abstrata, mas uma Pessoa, a  do Verbo feito carne, Jesus, que quer dizer "Salvador".
           As afirmações abstratas jamais converteram alguém. O anúncio da "Boa-Nova", que é Jesus Cristo, pode tocar e transformar os corações.
           Mas quem conhece de verdade a Jesus Cristo? Escrevem-se livros e mais livros para se falar do Cristianismo. Ao final, porém, se verifica que quase nada se disse realmente de Jesus. Ele é o "Chefe que deve conduzir à Vida":  não há Salvação em nenhum outro, senão em Jesus Cristo. Ele é nossa esperança, nossa paciente expectativa, que nos concede ao mesmo tempo a força para esperar. É Aquele que nos faz ouvir num estremecimento de alegria as palavras do Apóstolo Paulo: - "Pois a nossa Salvação está agora mais próxima do que quando abraçamos a Fé. A noite vai muito avançada, e já se aproxima o dia" (Rom 13,11-12).
           - "Custos, quid de nocte?" - " Sentinela, o que diz a noite?"  - canta o profeta Isaías, "o evangelista do Antigo Testamento".
           -  "E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois precederás o Senhor para Lhe preparar os caminhos, para dar ao povo a ciência da Salvação pela remissão dos pecados" : - essas palavras de Zacarias, em Lucas, "o Escriba da mansidão de Cristo", eu tomo a liberdade de fazê-las minhas.
            Na verdade, eu desejo apenas uma coisa:  que o eventual leitor deste blog, ainda que seja único, ouça a voz de um João Batista a "dar ao povo a ciência da Salvação".


















sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Saudade da Raquel



      Hoje, 17 de março de 2014, minha filha Raquel estaria completando 47 anos de idade. Mas ela decidiu deixar este mundo de dores, e partiu para a casa do Pai de todos os pais.
      Era noite, e o meu filho Carlos, que estava com ela no Hospital Erasto Gaertner, de Curitiba, me telefonou dizendo que, se quiséssemos ver a Raquel ainda viva, que fôssemos imediatamente para o hospital.
       Achei que a Isabela, sua filha e minha neta querida, por ser ainda criança, o hospital não permitiria sua entrada para ver a mãe.
       Diante disso, pedi à minha mulher, Cida, que fosse ao hospital e eu fiquei sentado à beira da cama, abraçado à Isabela, ambos chorando pela morte iminente da Raquel, que partiu para a Casa do Pai de todos os pais, de madrugada.
        Que Deus a tenha na Sua Paz!
         Saudades de sua filha Isabela, de sua mãe Cida, de seus  irmãos Carlos, Júlio (já falecido), Aroldo Jr. e de seu choroso  pai, que redige esta nota com lágrimas de dor  molhando o teclado de seu micro...

                                                          ******************

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

NÃO HAVIA LUGAR PARA ELE...



         Começo meu texto de hoje com um poema (?) que, espero, Você não o considere um tanto quanto cafona e fora dos trilhos:

                                         Quando Você passar
                                         abrigado contra o frio,
                                         protegido contra a chuva
                                         e perceber
                                         na Pessoa de um pobre
                                         Jesus Cristo ensopado
                                         de roupa colada ao corpo
                                         de osso e carne gelados
                                         de alma tremendo de frio 
                                         mesmo que Você não possa parar
                                         mesmo que não haja lugar em seu carro
                                         ou não lhe seja possível
                                         levar para casa
                                         o seu Senhor -
                                         faça uma prece
                                         para que um dia
                                         sem grande demora
                                         haja lugar para Ele
                                         em todos os carros
                                         em todos os lares
                                         em todas as almas...


           Deus me livre de querer afligir, inutilmente, irmãos e irmãs que encontram pobres caídos no chão, não raro em dias de chuva, sem agasalho, e que, no entanto, não têm nem possibilidade, e muito menos de parar, de acolher...

           É tão raro, é tão difícil a criatura humana ser livre de fazer tudo o que o coração lhe pede!...
           A verdade é que não sou só. Dependo de muita gente. E mesmo que não dependesse de ninguém, que gesto sério o de pensar levar comigo o irmão caído na chuva! Sem dúvida, eu não agi como o Samaritano dos Evangelhos...
           Mas sem ser um Louco Sagrado como foi São Vicente de Paulo ou São Francisco de Assis, logo um formigueiro de raciocínios começou a formigar em minha cabeça:
           Se eu levar um pobre molambento para casa, o que minha mulher haveria de dizer? Nem é bom pensar!... Além do mais, se outros souberem, amanhã chegarão a dez, e o número só tenderia a crescer...
            Confesso que é horrível fazer de conta que nada vi.  Sei perfeitamente que é anti-evangélico nunca  parar um instante para pensar no que fazer, talvez com vizinhos, ou em nossa Paróquia, com  companheiros de alguma entidade religiosa ou social, que eu sei haver muitas...
            O certo é que passei ao largo como o fariseu do Evangelho, e isto até hoje me dói no coração.
            Um abrigo, um cobertor, uma sopa quente seriam coisas preciosas neste caso e, mais importante ainda, seria completar a ajuda mais urgente com um emprego que permitisse ao nosso próximo caminhar com os próprios pés.
            Se eu tivesse a coragem de ir mais longe, poderia perguntar como ajudar a construir uma Curitiba menos egoísta e mais humana. Concretamente, por que não poderia eu conseguir um grupo de pessoas que exigisse dos poderes públicos que todo e qualquer plano urbanístico resolva primeiro e de verdade o problema de habitação de quem tiver de ser deslocado pela construção de estradas, ou alongamentos de ruas, ou construção de viadutos. Quando não, pelo esbanjamento de dinheiro do povo, na construção ou reformas de estádios de futebol para a realização de uma Copa que só prestigiará e beneficiará os Cartolas da sociedade?
             Por que não exigir que a modernização de estádios não pode ser considerada  prioridade nacional, e se ponha de fato, primeiramente, soluções humanas para uma população que nunca terá condições de participar de Copas ou semelhantes?
             Afinal, é verdade ou não que todos nós, ricos e pobres, temos um mesmo Pai e, portanto, somos irmãos, que devem ter prioridade em todos os empreendimentos governamentais?
          
    
                                         
                                   

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

SALVAÇÃO ETERNA - COMO ENTENDÊ-LA?



          O termo "Salvação", comum a todas as religiões, exprime a esperança maior de homens e de mulheres de todo o mundo. A raiz em hebraico significa "soltar os laços". Fundamentalmente, é a sensação de um "perigo", em que homem e mulher estariam ameaçados de sucumbir.
          Só Deus é o "rochedo da salvação" para Israel (Dt 23,15). Só Ele dará a "felicidade" dentro do Reino Messiânico, onde reinarão a "Justiça" e a "Equïdade".
          Todo o povo é chamado a sair em permanente êxodo do reino de trevas e morte para a Terra Prometida de luz e Vida Eterna (Is 45,15), na "nova Criação" (Is 41,20).
          Resposta a esse apelo existe apenas uma: a Fé, a ardente Esperança, esperança da Salvação. Os "humildes", os de coração contrito, só eles podem chamar a Javé de seu Salvador (Sl 18,28).
          Jesus traz a Salvação, livrando do pecado, que é morte total (Lc 1,77). Salvação é vida; ser salvo é "ser transferido do reino da morte ao reino da vida", pois a Salvação é "Jesus Ressuscitado".  Sua vida ressuscitada me redime. "Só na Esperança é que sou salvo" (Rom 8,24;Heb 1,14, etc.), e a Esperança não me ilude, "porque o Amor de Deus foi derramado em meu coração pelo Espírito Santo que me foi dado" (Rom 5,5).
           Soltar os laços de um povo que acredita na Vida Eterna dada por Jesus aos que se arrependem do pecado; soltar os laços naquele Reino onde hão de imperar a Justiça e a Eqüidade; soltar os laços numa Criação Nova em que reinarei com Cristo (2 Tim 2,12): eis o que me há de colocar numa situação avantajada ao sentido deste cântico: - "Tenho apenas uma alma e é preciso salvá-la".
            QuandoNesta caminhada com aqueles meus irmãos que tomam o trem nos subúrbios de Curitiba, de manhãzinha, e viajam socados como sardinha em lata, indo para o trabalho diário.
           O reflexo da Salvação nessas águas um pouco turvas certamente não terá a nitidez das linhas de um arrojado projeto arquitetônico; mas é infalível que há de mexer com Você e comigo, com cada um de nós...  porque movimento é vida!
           E eu me ponho a meditar:
           Depois de dois mil anos, talvez Você e eu sejamos mais capazes agora de entender as palavras:
           - "Amai-vos uns aos outros!"
           E, com certeza, de vivê-las perpassadas da imensa alegria da Criação, na plenitude universal de Salvação que elas encerram!"
    

domingo, 16 de fevereiro de 2014

VENCER E CONVENCER



            Nesta manhã enfarruscada de domingo  -  essa chuvinha maneira cantando sobre nossos telhados,   tentando nos convencer de que o tempo mudou e que estamos livres daquela soalheira terrível das últimas semanas  -   veio-me a idéia, para o meu blog, de que mais difícil, mais humano e mais belo do que vencer, é justamente convencer.
            Vencer está ao alcance dos animais; convencer, não... O cupim, por exemplo, consegue vencer a viga poderosa que sustenta o telhado. Parece-me incrível como um bichinho tão pequeno consegue devorar por dentro madeiras tão grossas.
            Numa briga de galos  - apreciadíssima nas periferias de nossas cidades ( aqui me lembro de meu falecido pai, amante inveterado desse "esporte")   -   o vitorioso deixa o colega e irmão galo vencido, a bonita crista rasgada, o pescoço ensanguentado, não raro estrebuchando pelo chão da rinha, e morrendo.
            Gato vence rato. As piranhas sangram e matam animais até de grande porte, como o boi, e são ainda capazes de liquidar tranquilamente uma desavisada criatura humana...
            Claro que homem e mulher também sabem e conseguem vencer. Já venci muitas partidas de xadrez contra adversários gabaritados, Também no jogo de damas a vitória me sorriu centenas de vezes. Vence-se um jogo de futebol, de basquete, de vôlei, de tênis.
            Quem é forte, musculoso e tarimbado, derruba e nocauteia um adversário - pode até matá-lo e esfolá-lo...
            Quando se diz que uma nação perdeu a guerra e outra venceu, isto quer dizer, nas entrelinhas, que a nação vencedora tinha razão e venceu porque teve a ajuda de Deus para vencer? De maneira nenhuma.
            E hoje, não raro, é possível vencer uma guerra, e arrasados podem sair não só quem foi vencido, mas o próprio vencedor da guerra.
            Se os Pais em casa, sem ouvir possíveis e justas razões dos filhos, cortam sem mais  qualquer discussão, e resolvem e decidem sem oportuno diálogo, por vezes esmagando a garotada, parecem vencedores; o certo, porém, é que venceram, mas nem sempre convenceram.
            Em uma discussão, quando há quem tenha um vozeirão mais forte, talvez maior poder dialético, não raro amigos que aplaudem  -  aí pode haver vencedores, sem que os vencidos saiam convictos da derrota...
            E eu tomo a liberdade de propor ao leitor eventual deste meu blog: tenha como desafio permanente convencer, e não apenas vencer.
            É evidente que em lugar de convencer, eu possa ser convencido. E não me parece vergonha nenhuma mudar de idéia, de posição, de ponto de vista, de conduta, se me convencerem de que eu estou enganado, e que havia caminho melhor seguir...
            Para vencer numa discussão, vale o grito, vale a ameaça, vale até o suborno... Para convencer, o ideal é que não se trate de sofismas: o ideal é que nem o oponente, nem ninguém queira me convencer, me enganando, me enrolando, me passando para trás.
           Para convencer, o ideal é que a pessoa esteja ela própria convicta, tenha calma, saiba apresentar os argumentos, saiba ouvir, reconhecendo toda a parte de razão que haja no adversário.
           Quem convence não deve cantar vitória. No rigor do termo, quem vence é a Verdade, é a Justiça. Quando muito, eu devo me alegrar por ter ajudado meu irmão a ver mais claro, a ver o que eu estava vendo e ele não.
           Um singelo conselho para quem por ventura entre num embate: experimente a alegria de trocar sempre mais o Vencer pelo Convencer.
           O importante é que Você e eu estejamos, sempre mais, a serviço da Verdade, da Justiça e do Amor. Vamos, Você e eu, aceitar sermos convencidos. E quando alguém nos convencer, fiquemos humildes, não apenas por fora, na aparência...
           A humildade que só existe por fora é farisaica e triste. Quando, por minha vez, me couber o "convencer", é bom que eu tenha humildade por fora e por dentro... E que eu me alegre por ter servido à Verdade, que é o mesmo que servir a Deus!...

                                                          *******************

Aroldo Teixeira de Almeida é professor aposentado do Quadro Próprio do Magistério do Paraná em Português e Francês, e bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Capital Paulista. Tem dois livros publicados: " Capitu", e "Páginas Esparsas". Para breve pretende lançar um terceiro: "Reflexões ao Pé do Fogo".

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

DAS ARTES, A MAIS BELA



          Nos meus tempos de estudante de Teologia, em São Paulo, Capital, aos domingos nós, seminaristas,  comparecíamos à Catedral da Sé, para a Santa Missa, às 10 horas, dedicada aos jovens, e com muita alegria, porque nós também éramos jovens... A Catedral tornava-se pequena para a grande multidão de jovens, entusiasmados, com a Missa que sabiam ser sua e da qual participavam ativamente.
          Eu gostava mesmo era do momento do Ofertório em que nós, comandados pelo Padre Alarico, regente da "Schola Cantorum" do Seminário Central do Ipiranga, cantávamos a plenos pulmões, dando a impressão de querermos arrebentar o teto da imensa Catedral:

                                      Fica sempre um pouco de perfume
                                      nas mãos que oferecem rosas,
                                      nas mãos que sabem ser generosas.
                                      Dar um pouco do que se tem
                                      a quem tem menos ainda
                                      enriquece o doador,
                                      faz sua alma ainda mais bela.
                                      Dar ao próximo alegria
                                      parece coisa tão singela.
                                      Aos olhos de Deus, porém,
                                      é das Artes a mais bela...


           Apreciou bem o cântico, benévolo leitor? Quando ele começa a ser entoado pelas centenas de vozes juvenis, torna-se bem patente para todos os circunstantes essa magnífica descoberta de que sempre fica um pouco de perfume nas mãos de quem tem rosas para oferecer. Nas mãos de quem sabe e pode ter generosidade...
          E por que não pensar naqueles que têm pouco, mas desse pouco de que dispõem ajudam a quem tem menos ainda?
        Sempre desconfiei, pela minha própria maneira de proceder, que a pobreza, em geral, torna egoístas aqueles que são pobres. Talvez a causa seja a luta pela vida. Podendo afastar, afastam. Podendo empurrar, empurram, na esperança de que, com menos concorrentes, possam ter um pouquinho mais...
           É triste ver, como em geral, os pobres costumam se devorar entre si.
           Mas esta não é toda a verdade. A verdade, verdadeira, é que há Pobres capazes de acudir, felizes, quem precisa ainda mais do que eles próprios...
           A canção dos jovens na Catedral da Sé diz  -  e é plena verdade  -  que "dar um pouco do pouco que se tem a alguém que tem menos ainda, enriquece o doador e faz sua alma ainda mais bela..."
           E a canção, para mim, termina de modo surpreendente. Passa a falar em uma ajuda especial: a de dar ao próximo alegria.
           Parece coisa tão simples, tão sem valor, tão sem importância dar ao próximo um pouco de alegria... No entanto, os jovens continuam cantando, sem medo, e com entusiasmo, que dar alegria aos outros é a mais bela das Artes...
          Será exagero deles? É tão importante assim dar aos outros um pouco de alegria?
       E chega a ser Arte? E é belo alegrar o próximo? Fazer com que surja uma réstia de azul no céu cinzento, cor de chumbo, que acabrunhava um nosso irmão: será mesmo "das Artes a mais bela"?
        Que pensarão os mais velhos, rabugentos e insensíveis, daquela centena de jovens que com suas guitarras elétricas e suas vozes quentes e vibrantes, enchem a Casa de Deus, cantando a todo pulmão:

                                                   "Dar ao próximo alegria
                                                     Parece coisa tão singela !
                                                    Aos olhos de Deus, porém,
                                                    É das artes, a mais bela!...
                                           


                                            ****************************






quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

UMA AUDIÊNCIA COMIGO MESMO



          Um vizinho aqui do bairro, muito amigo meu, andava atarefadíssimo, e sempre desabafava comigo me dizendo que quase não tinha tempo para o almoço e o jantar. Fisioterapeuta e massagista, atendia umas trinta pessoas por dia e acabava, é claro, não atendendo satisfatoriamente a ninguém. Tinha na sua mesa de trabalho, não sei por que cargas d`água, três telefones sendo que, não raro, os três tilintavam ao mesmo tempo... Nas raras vezes em que conversávamos, numa eventual folga sua, ele reclamava do excesso de trabalho, mas não atinava com a melhor maneira de safar-se da canseira diária.
          Telefonei a ele certa manhã pedindo sua ajuda para a solução de um problema doméstico. Ele se prontificou a ajudar imediatamente. Expliquei que não era para mim. Perguntou-me para quem era e levou um enorme susto quando eu disse:
          - "A ajuda é para Você mesmo; ajudá-lo para um encontro de Você com Você!"
          Pensou, a princípio, que eu estivesse brincando. Assustou-se de novo ao ouvir:
          - "Você não sente. Mas esta correria sua talvez esconda, sem Você notar, certo receio de encontrar-se consigo mesmo..."
          Leitor benévolo que me dá a honra de ler-me: Sabe que isto de medo de encontrar-se consigo mesmo é mais comum do que a gente imagina? Mesmo que Você vá à igreja e se empolgue com as palavras do pregador, mas, voltando para casa e enfronhando-se de novo em mil atividades, cadê coragem para vasculhar a própria vida; ver, por dentro, o coração; sentir de perto os pensamentos, os anseios, os sonhos, tomar a resolução de buscar um novo rumo para a caminhada diária?...
          Trabalhei durante trinta anos em escolas públicas, e tive contato com inúmeras pessoas que me pareciam dinâmicas, decididas, fortes, sabendo pensar, sabendo querer, mas na hora de voltar-se para si mesmas, de olhar até o íntimo do íntimo, mil pretextos surgiam, mal escondendo o meio pavor ou o pavor e meio de olhar de cheio o próprio eu...
          É claro que não alimento, de modo algum, o desejo de se gastar um tempo excessivo em virar e revirar o próprio eu.
          Mas entre o exagero de gastar horas, dias, meses, anos, em total virada interior e o exagero de fugir de um encontro consigo mesmo, nem vacilo em desejar que, ao menos, umas tantas vezes na vida, é bom reservar um tempinho para uma audiência com o próprio eu...
         Permita-me que eu lhe diga: quando Você notar que anda atravancando a vida, quando perceber que seu dia é puro atropelo, correria, sem tempo para nada e para ninguém; quando as vinte e quatro horas não bastarem e andar precisando de mais horas suplementares; quando se surpreender irritadiço, meio-elétrico, dando choque, soltando faísca - trate com urgência de marcar um bom encontro consigo mesmo!
         Lembre-se então: é mais do que tempo! É mais do que hora! E a hora é agora!
        

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

MESMICE... O QUE É ISTO?



          Quem de nós tem direito de estranhar que os trens e os bondes se irritem, se rebelem, descarrilem?... (Dom Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife,  + 28/08/99).

                                                               ****************

          O problema é que o automóvel, o ônibus, o caminhão, a motocicleta, não se prendem a trilhos e a fios...
          Você, meu benévolo leitor, já pensou como deve ser monótono ir e vir sempre pelo mesmo caminho, sempre pelos mesmos trilhos, sem poder afastar um passo, nem prá  cá, nem prá lá?...
          O pretenso cansaço dos bondes e dos trilhos é o cansaço dos que devem enfrentar todos os dias, os mesmos caminhos, os mesmos ambientes, as mesmas caras, as mesmas vozes.
          O pretenso cansaço dos bondes e dos trens é o cansaço dos que têm o trabalho monótono, sempre igual, sempre o mesmo, o mesmíssimo...
          Charles Chaplin, o querido Carlitos dos velhos cinemas (será que alguém se lembra dele, de seu chapéu, de sua bengala?), pois é, ele se imortalizou criticando a sociedade que obriga, tantas vezes, o homem a um só gesto, como apertar um parafuso de uma peça em construção, o dia inteiro, sempre do mesmo modo.
          A parte dele na fábrica é só aquele parafuso, na qual ele deve dar aquele aperto, da entrada ao sair do trabalho. Acaba ficando com o trejeito de apertar o parafuso, mesmo quando já saiu da fábrica, e caminha pelas ruas, para casa... sempre no mesmo gesto automatizado de apertar o parafuso...
          Como deve ser monótono o dia todo mergulhar as xícaras de café em água quente, no bar da esquina, escaldá-las, colocá-las no balcão para que outro colega de serviço nelas derrame o café para os fregueses!...
          Em geral os fregueses tomam o seu cafezinho e nem pensam no cansaço de quem os serve, nem pensam na monotonia de quem o dia todo escalda xícaras ou enche as xícaras de café...
          Graça maravilhosa que Deus pode nos dar é a de vencer a rotina e fazer tudo como se fosse a primeira vez.
           Ver todos os dias o mesmo rosto, ouvir as mesmas vozes, circular nas mesmas salas, contemplar as mesmas paisagens é correr o risco de adoecer de "mesmice" (o mesmo, sempre o mesmo, a mesma, sempre a mesma)... Você, católico, meu irmão, já pensou no martírio do padre no confessionário, ouvindo todo dia, toda semana, todo mês, todo ano, sempre os mesmos pecados, pecadinhos e pecadões de seus fièis?  A eterna monotonia do pecado?
          Peçamos a Deus olhos de criança! Procuremos ver todos e ver tudo pela primeira vez. Pensando bem, tudo é novo cada manhã. Nós próprios somos o que éramos ontem mais a experiência que ontem adquirimos e afeitos às surpresas que o dia de hoje vai apresentar...
          O mesmo acontece com todos e com tudo em volta de nós... A luz que desce do alto, hoje, não é a que ontem nos banhou com seus raios. O vento que passa por nós, trazendo-nos frescor, assanhando-nos os cabelos, é o irmão do mesmo vento  de ontem, mas não é o mesmo de ontem.
          Digo a minha neta Isabela que é bom divertir-se em descobrir os aspectos sempre novos de tudo o que parece sem mudanças....
          - "Sempre novo??"  -  me contesta ela. E completa: -"Quem dera que a cara do meu professor de Matemática se mudasse para melhor a cada nova aula!..."
          Seja lá como for, eu me alegro descobrindo como a Criação de Deus, com a colaboração consciente de homem e de mulher, recomeça cada dia, é nova cada manhã, renasce cada madrugada!









        
          
        
        


















        








domingo, 9 de fevereiro de 2014

PALAVRAS... NADA MAIS QUE PALAVRAS!...


          Estou lendo atualmente, nestas minhas férias perpétuas de aposentado, o livro do monge cisterciense norte-americano, Thomaz Merton, intitulado "Reflexões de um Espectador Culpado".
          É um livro com uma análise crítica profunda e contundente deste nosso mundo moderno e, criticando-o, Merton não deixa pedra-sobre-pedra sem o humor cáustico de sua profunda aversão à mentira e à falsidade deste mundo, do qual ele se afastou totalmente e se enclausurou num mosteiro, como que numa fuga e no intento muito construtivo de  procurar com mais liberdade e verdade o Reino de Deus.
           De minha parte, verifico que os padres católicos e os pastores protestantes subitamente começaram a achar urgente assegurar a seus "fiéis" que o "mundo" não está nos dizendo a verdade  -  mas nem sempre mostram com clareza de que mundo estão falando.
          Aliás, com frequência esses mesmos que tentam botar em nossas cabeças que "o mundo" nos está enganando, creio que eles desejam significar apenas aquele  mundo que se recusa a ouvir suas mensagens, pois elas estão a quilômetros de distância dos homens e mulheres deste nosso século.
          Não falam do mundo deles, de seu rígido sistema de fragmentos do passado, mantido com dinheiro espúrio e com exércitos treinados para destruir e matar.
           Acho que é preciso tomar a sério as reflexões de Merton, e é bem por isso que de uns tempos para cá botei de lado jornais e demais penduricalhos de forjar mentalidades.  Passei a dar crédito apenas aos Poetas que, no dizer de Merton, são os únicos que ainda continuam a criar mundos novos e a tentar modificar este mundo atual, que parece estar caindo de podre.
           Nas pegadas do monge norte-americano, creio mesmo que só os Poetas estão ainda seguros, em seu senso profético, de que o mundo nos mente dia e noite. E o meu  Poeta predileto, que criou o dístico seguinte, o disse muito bem:

                                                 "Eles aguardam
                                                  a guerra,
                                                  e a novidade deles
                                                  é guerra
                                                  em todo o sempre
                                                  e o dizem
                                                  para que
                                                  os sucos de suas mentes 
                                                  possam fluir
                                                  e os seus sucos também mentem".


           Este diálogo psíquico, químico e esquizofrênico de notícias, glãndulas, sucos, opiniões, auto-afirmação, desespero: isto é "o mundo", e nenhum Poeta precisa doutrinar a respeito. Ele está aí para qualquer um ver, e o vêem. Vêem como as pessoas agem nesse "mundo":

                                         
                                                  Desenvolvem
                                                  argumentos a fim de falar, 
                                                  falando
                                                  tornam-se irreais,
                                                  a vida real perde a solidez,
                                                  perde em extensão, 
                                                  ficam apenas com o seu futebol

                                                  porque o futebol não é um jogo,
                                                  mas um argumento de discussão
                                                  e uma diferença de opinião
                                                  são fantasmas que põem em perigo 
                                                  Nossa Alma


           Notícias, argumentos, e os sucos, como afirma o Poeta, continuam a fluir. Só que não queremos as notícias e os argumentos, mas só o fluir dos sucos. O estímulo deles é que é a mentira, e não podemos dispensá-la, porque a mentira é também a nossa vida.

           E o Poeta continua sua peregrinação inútil:

                                                 Lobos podem caçar com lobos
                                                 mas nós humanos perderemos nossa humanidade
                                                 nas cidades, nas lojas e supermercados
                                                 da avidez e do consumismo.
                                                
         O Poeta, felizmente, ainda conhece um outro mundo mais real, não o mundo das mentiras e do ar  viciado de ônibus e de trens, mas o mundo da vida. E este mundo da vida é manifestado através de palavras; não é, porém, um mundo de palavras.
           O que me ensinou o Poeta é que o importante não são as palavras, mas a vida.
            Se eu escutar de modo particular a linguagem do mundo, falando de si próprio, só me dirá mentiras, e serei enganado pelas suas palavras. Isto, entretanto, não acontecerá, se eu conseguir escutar a vida em sua humildade, fragilidade, silêncio e tenacidade, como o Poeta fez escutar a uma pequena judia, nos guetos deste mundo:

                                                Isabela, pequena semente,
                                                semente pequena, humilde, diligente.
                                                Vem comigo, vamos olhar o mundo.
                                                E essa semente haverá de falar. 
                                                Palavras!
                                                Não haverá outras palavras mais verdadeiras no mundo,
                                                Senão as que nossas crianças falam.


            E eu não posso deixar de perguntar ao Poeta:

            - "Serão as palavras das crianças mentiras também, como a de nós adultos - ou mentiras piores ainda?"  E antes que o Poeta possa responder, eu acrescento: quando se tem uma visão mais profunda da realidade, não há necessidade de perguntar. Porque há a Esperança, há o Mundo que se refaz à ordem de Deus, sem nos consultar, a nós, que nos passamos por sábios.
            Lembremos que o Poeta  não fez perguntas em relação a mentiras, nem com elas se preocupa.  O Poeta vê apenas o Mundo a refazer-se como semente viva plantada por Deus. E assim poderemos, confiantemente, levar pela mão uma criancinha à janela, para olhar os edifícios falsos, cintilantes de luzes falsas.
            O cintilar deles é falso? Bem, mas a luz que os ilumina é verdadeira.
             E é esta luz que procuro, com a menina que levo pela mão.
            O cintilar deles, mesmo falso, deixou de ter importância. É até mesmo belo.
            Porque, na verdade, não é o cintilar deles que nos ilumina.
            Quem nos ilumina é a Luz da Sabedoria de Deus!

           E, com esta afirmação mais gongórica que verdadeira - (porque raramente sou sincero ao escrevê-la), coloco ponto final neste meu texto de hoje, que me saiu como os versos de poetas nefelibatas, cujas palavras não dizem nada, porque são apenas palavras, e nada mais que palavras.
            Como a vida...




             

                                              
  



                                              


            

                    
                                               


      

      )

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Por que? Por que, Deus meu?



          Sozinho ali na sala, enquanto a Cida arrumava os quartos, lembrando-me da Raquel e do Júlio, me invadiu uma tal melancolia, que chegou a me assustar. E chorei, chorei desabridamente, confesso, pois me foi muito difícil manter o auto-controle. Na verdade, meu coração pedia "revolta", em lugar de "melancolia". Mas, como cristão católico que sou,  é-me impossível falar em revolta com relação a Deus, Pai de todos os pais.
           Mas creio que mesmo assim até cometi o pecado de blasfêmia, pois apostrofei a Deus com veemência pela morte precoce  -  duas mortes em três anos - dos meus dois filhos, ainda na metade de suas vidas.
         - " Por que? Por que?" -  Foi o questionamento que fiz a Deus, lembrando-Lhe que Ele também foi Pai, e com toda certeza, segundo nosso senso comum, chorou de igual modo a morte cruel de Seu Filho, Jesus, o Messias.
            Deus, ser supremo de todas as coisas, em quem não é imaginável o sofrimento, pois Ele está acima de todas essas contingências humanas, - o que dizer de Seus sentimentos diante da morte de Jesus?
            Será que Ele permaneceu impassível por trás das nuvens, enquanto na Terra Seu Filho feito homem padecia os mais terríveis tormentos?
            E  que dizer diante do sofrimento de um pai e de uma mãe terrenos, que apostrofam a Deus: - "Por que? Por que, Senhor? Eu Vos chamo de Pai, e Vós permaneceis impassível escondido lá no Céu, atrás das nuvens,enquanto eu, como outros pais aqui na Terra, padecemos tormentos indizíveis com a morte de filho e filha tão queridos?"
             Um padre da paróquia, questionado por mim, respondeu-me que Deus também é Pai, e teve um Filho, Jesus, morto sobre terríveis sofrimentos, pregado em uma cruz.
              Respondi ao padre que a comparação não tem sentido. Como comparar Deus com um homem? Deus eterno, infinito, todo-poderoso, imune a qualquer sofrimento, a qualquer dor? Comparar Deus a um ser frágil, contingente, mortal, sujeito a todos os dissabores do mundo, tem alguma lógica ou, em outras palavras, é lícita  uma comparação entre o Criador e o criado?
              É possível dizer que Deus Pai SOFREU realmente pela morte de Jesus, ou esse sofrimento é apenas uma metáfora, pois Deus é imune ao sofrimento?
              Eu sofri pela morte de meus dois filhos = Deus sofreu pela morte de Seu Filho.
              Confesso: não posso aceitar tal paralelismo.
              O Absoluto e o Contingente estão em planos metafisicamente opostos, e entre eles não pode haver  nenhuma comparação ou paralelismo.
              Os melhores instruídos do que eu, que me expliquem essa antinomia... Estou totalmente no escuro, chorando noite e dia a morte precoce da Raquel, minha filha, e a morte precoce do Júlio, meu filho!...
               Peço a misericórdia de Deus para o Júlio, que num momento de desespero deu fim à própria vida; e tenho a certeza de que minha filha Raquel, por toda a retidão de sua curta mas benéfica existência,, descansa na paz do Pai de todos os pais.

        
        

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A SINFONIA DO MUNDO



                    Outro dia, não tendo nada mais útil para fazer, resolvi subir ao mirante do edifício mais alto de Curitiba, e dali contemplar a cidade lá embaixo, iluminada pelo sol que já se preparava para sua despedida...
                    Quando, de um ponto alto da Cidade se contemplam os edifícios e mais ao longe as casas, muitas vezes este fato se torna para mim instantes de meditação e de prece.
                    Com toda certeza há Casas felizes em que os amigos, reunidos, cantam, para algum aniversariante, "Parabéns prá Você"...
                    Quem sabe, ali adiante, lá pelos lados do Bacacheri, se festeja o nascimento do primeiro filho de um casal, ou, em casa de felizes Avós, a vinda do primeiro neto?...
                    O champanhe espoucou ali no Cabral: o dono da Casa, depois de muita espera e ansiedade, foi promovido a Gerente da Empresa em que trabalha.
                    Mais além, muito além, no imenso Boqueirão, tenho certeza de que não há champanhe, mas está correndo guaraná e coca-cola a rodo, pois chegaram dos cafundós de Minas Gerais, para uma curta temporada em casa dos parentes, que há muito tempo não viam, pai, mãe e meia dúzia de filhos, estes, muito felizes por estarem pela primeira vez numa Capital de Estado.
                    Contemplando deste mirante a hospitaleira Curitiba, que se espraia a perder de vista, claro que tem de haver Casas felizes. E eu, como religioso que sou, acho muito importante rezar pelas pessoas felizes: não só porque a felicidade hoje em dia, neste nosso Brasil afundado na inflação e na corrupção dos poderosos, é dom concedido a poucos e, nas poucas horas em que se pode ser feliz, é hora também de pensar em Deus e agradecer.
                    Mas deste ponto alto de Curitiba, debaixo de muitos telhados que daqui eu contemplo, deve haver muita tristeza e sofrimento, esperando pela ajuda e pela prece de irmãos!
                   Sei, com certeza, que em vários lares há pessoas enfermas, causando preocupação aos familiares. Há luta entre a vida e a morte. Há agonizantes quase partindo desta vida...
                   Quanto sofrimento em todos os hospitais da Capital! Só quando se entra em qualquer um deles, é que se pode ver como, a cada hora e a cada instante, há Gente se torcendo de dor!...
                   Debaixo destes telhados vistos cá do alto, ou dentro desses enormes Conjuntos Residenciais, quantos dramas que passam desapercebidos para os de fora...
                   Você já pensou como é duro voltar para Casa, e dizer à mulher e aos filhos que recebeu aviso prévio da Firma?
                   Ou chegar em Casa e ter que dizer que o dia inteiro procurando emprego deu em nada, e a esperança de consegui-lo vai enfraquecendo a cada dia?
                   Será demagogia dizer que, em muitas Casas da periferia o alimento vai ficando raro, que há sub-alimentação ou mesmo, abertamente, existe fome?...
                   Debaixo destes tetos que contemplo aqui de cima, quanto sofrimento moral! Desentendimentos entre marido e mulher, brigas com filhos adolescentes e um tanto quanto rebeldes, esposas abandonadas, maridos desempregados, solidão, solidão!
                  Espírito Santo de Jesus! Sopra entendimento e paz em todos os lares! Sopra calor humano, amizade, amor sobre  todas as pessoas! Sopra, principalmente, esperança, coragem, alegria em todos os lares!
                  Sopra pensamentos positivos em todas as mentes, em patrões e em empregados. Envia sono tranquilo e sem pesadelos a todos os insones. Tu mesmo, Jesus, sejas Companhia, Alento e Fé, para todos os que se sentem vencidos, marginalizados pela Sociedade egoísta, esmagados e sozinhos!
                  Espero e peço que Tu permitas, alargando o coração e vendo, através de minha Curitiba, todas as cidades do mundo, que todas elas encontrem espaço em Teu coração de Irmão e Amigo. Espero e peço que todos nós, juntos, em comunhão Contigo, façamos chegar até ao Pai de todos os pais uma estranha e imensa Sinfonia do Mundo, seja do Mundo Feliz que canta e se diverte, mas principalmente do Mundo que chora e que padece, não encontrando remédio para seus males. A não ser em Ti!....
                
          
                
              

                  


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A GRANDEZA DO ANTIGO TESTAMENTO



            A grandeza do Antigo Testamento, em nosso tempo, começou a se tornar cada vez mais evidente  em algumas das ótimas teologias do Antigo Testamento escritas por especialistas católicos e protestantes como Von Rad, Eichrot, Bittencourt, Thomaz Merton,  e muitos outros.
           Na verdade,  esses autores vieram nos lembrar que o Antigo Testamento é um universo de louvor, do qual homem e mulher constituem parte viva e essencial, lado a lado com os exércitos angélicos. Ora, o louvor é a mais segura manifestação da verdadeira vida.
           Neste sentido, a característica do "Xeol", a região dos mortos, é a ausência de louvor. Os salmos são, por seu lado, a mais pura expressão da essência do louvor na vida do Universo: Javé está presente a Seu povo quando os salmos são cantados com vigor triunfante (e não apenas murmurados e meditados individualmente na barba de cada um)...
           Permita-me o benévolo leitor trazer um fato presenciado por mim quando estudante de Teologia, em São Paulo. Na belíssima capela da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, reunimo-nos todos, Reitor, Mestre de Disciplina, Padres, Religiosos de várias ordens e congregações, e os seminaristas, para ouvir o então Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, que nos dava a honra de sua visita.
           Na Santa Missa celebrada por ele, justamente na festa da Ascensão do Senhor, a "Schola Cantorum" da Faculdade, à entrada do ilustre visitante no templo, entoou ao som do poderoso órgão de tubos o hino "Jubilate Deo omnis terra" (Cantai a Deus vossa alegria, terra inteira). E o "Jubilate" foi cantado com tanta empolgação, que pensei que íamos arrancar o teto da capela.
           Onde encontrar isso hoje em nossa liturgia? Será um verdadeiro grito de triunfo da liturgia, o triunfo  que experimentaremos quando a beleza divina e angélica se apoderar de todo o nosso ser, na alegria do louvor a Deus e a Cristo ressuscitado!
          Se o louvor a Deus é a mais segura manifestação da verdadeira vida cristã, ele possui também uma dimensão histórica. E aqui é importante lembrar  os pais da vida monástica no Catolicismo, sejam eles Pascásio Radberto, ou Odo de Cluny, ou ainda Pedro, o Venerável, sem percebermos que esse senso de arrebatamento no louvor nasceu nos mosteiros da Idade Média. No entanto, talvez, com o passar dos anos e dos séculos, isso se embotou, e acabamos ficando hoje com os hinos insossos cantados em nossos templos e igrejas.
          A beleza de Deus, celebrada no Antigo Testamento, é mais bem lembrada por homens e mulheres que atingem e percebem seus limites, sabendo que seu louvor não pode alcançar a Deus. É então que o longo e majestoso  "jubilate" deve outra vez entrar em cena, mesmo que seja no recesso de nossa alma.
          Então, o nosso louvor atingirá não só o coração de Deus, mas também o coração da própria Criação, encontrando, por toda parte, o belo da majestade de Javé, nosso Deus.
         A grandeza do Antigo Testamento, eu o creio profundamente estará, então, na descoberta que nele fizermos da necessidade do louvor a Deus, em todos os instantes de nossa vida de cristãos.
        
          

domingo, 2 de fevereiro de 2014

SOBE... FALA... ORDENA... AMA...



            Sobe
            tendo sempre o coração preparado 
            para descer...
            Fala
            desejoso de ouvir, de escutar, de entender...
            Ordena
            mas com alma
            de quem apenas obedece
            Àquele de cujos planos divinos
            Tu e eu
            devemos participar.
            Ama
            sem medir, sem calcular.
            Amor que exige amor de volta,
            amor com dosagem milimetrada
           com cálculo,
           com restrições,
           com medo,
           pode ser tudo
           - menos Amor!

           É ou não importante a quem sobe estar preparado para descer? Quem desce, sem estar preparado, quem imaginava andar sempre pelas alturas, se amargura, se enche de travo...
          É ou não importante a quem fala ser capaz de ouvir, desejar atender? Quem não sabe ouvir, quem só sabe falar, quem quer ser o único a falar, fique sabendo que só é ouvido quem ouve, quem sabe ouvir e gosta de ouvir...
          É ou não importante a quem dá ordens, dar ordens como quem sabe receber ordens, como quem sabe obedecer?
          Cada vez mais, quem só sabe mandar, quem pretende mandar a gritos e mais do que gritos, será obedecido apenas por fora: por dentro será odiado, desprezado, ridicularizado.... Só manda de verdade quem manda sem mandar, quem manda pelo coração...
          É ou não importante lembrar a quem pensa que ama, a quem deseja amor, crescer no amor, que amor que exige pagamento ( = quero a quem me quer; meio quilo de amor a quem de amor me der meio quilo; um quilo a quem me der um quilo), isto é comércio, não é amor! Todo amor com dosagem, com cálculos, com restrições, amor com medo, pode ser tudo, menos Amor!
          Será que tudo isso é bonito demais para ser verdadeiro? Será que tudo isso é para Anjos e não para criaturas humanas que pisam no barro e na lama, que tropeçam e caem, que se convertem e minutos depois voltam a pecar?...
          Claro que Eu e Você somos frágeis e pecadores. Mas devemos confessar que há Criaturas que crescem interiormente, se aperfeiçoam no dia-a-dia de sua vida...
          Você e eu temos visto gente descendo e até sendo posta para rolar morro a baixo, sem perder a paz de espírito, sem perder a tranquilidade interior
          Você e eu temos visto Criaturas que falavam por todas as gentes, sem dar vez aos outros, sem aprender também a escutar...
          Você e eu temos visto Criaturas que não sabiam mandar, mas não sabiam mesmo, adquirir tanto mais força quanto mais sumia a agressividade...
          Creio que em matéria de crescimento no amor, há lições esplêndidas: há quem tenha feito toda uma caminhada de um pseudo-amor, prá lá de egoísta, que nem merecia o nome de amor, até o mais puro e belo Amor.
          Nada como tentar! Nada como ter a coragem de começar! Você e eu, meu benévolo leitor, não deixemos para amanhã... Que seja hoje mesmo!