segunda-feira, 7 de agosto de 2017

MEU VIZINHO E O DANADO DE SEU GATO...



            Conversando hoje com um vizinho, que é Ministro da Eucaristia na minha Paróquia cá em Curitiba, nosso assunto eram pormenores interessantes da Bíblia Sagrada.
            Em certo ponto de nosso bate-papo ele me disse:
            - "A título de curiosidade, nunca encontrei na Bíblia qualquer alusão ao gato, enquanto o cachorro é citado muitas vezes..."
            Então foi a minha deixa para mostrar-lhe que a Bíblia, na verdade, fala várias vezes do cachorro, mas não se esquece do gato, animal para mim tão encantador. E lhe respondi:
            - "Engano seu. Abra sua Bíblia em Baruch , capítulo 6, versículos 20-21, e lá Você encontrará o seu gato".
            Dei-lhe minha Bíblia para procurar o texto citado, e o vizinho o encontrou e o leu em voz alta:
             - "Suas faces estão negras da fumaça que se espalha na casa. Corujas, andorinhas e outros pássaros voam sobre seus corpos e suas cabeças, e gatos também passam sobres eles."
            Referência aos ídolos da Babilônia... É   ali que o gato aparece na Bíblia... O homem agradeceu-me pela informação, e eu fiquei satisfeito com a dica que lhe dei gratuitamente...
            Para que o benévolo leitor também encontre o danado do bichano em seu texto sagrado, não se esqueça, lembro mais uma vez:
            - "Procure Você também: Livro de Baruch, 6, 20-21."
            E assim consegui praticar uma boa ação, satisfazendo a curiosidade do meu vizinho, e eventualmente também a sua!...


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sexta-feira, 21 de julho de 2017

SAUDADES DE MINHA FILHA RAQUEL



            A data mais triste do ano para minha esposa Cleusa, para meus filhos Carlos e Aroldo Jr., para mim, e muito especialmente para minha querida neta, a Isabela, está chegando: o fatídico dia 21 de agosto, em que a mãe da Isabela e minha filha inesquecível, a Raquel, partiu deste mundo de dores para a Casa do Pai de todos os pais.
            A tristeza infindável que nos martiriza pela ausência física da pessoa amada é, paradoxalmente, aliviada pela alegria e pela certeza absoluta de que a Raquel, pela sua vida profundamente vivida, pela sua Caridade ardente para com todos que a rodeavam, descansa hoje na bem-aventurança eterna.
            Com seu organismo debilitado por um insidioso câncer que lhe corroía coluna vertebral e pulmão, com metástase cerebral, ela esperava a morte iminente, mas sua alma transfigurada pela resignação, pela acendrada confiança em Deus, e pelo amor de toda a sua pequena família que sofria com ela dia após dia.
            Permanece a dor da saudade no coração de sua filha Isabela, de seus pais, de seus irmãos, que dedicam à Raquel este singelo poema brotado da alma e fruto da dor, mas aliviada pela certeza de que ela descansa em paz junto ao "Abbá"/PaiMãe de Jesus de Nazaré, e Pai absoluto de todas as vidas:



                                            "Eu esperei a morte como se espera o Bem Amado
                                              Ignorava como ela viria
                                              Nem como viria
                                              Mas eu a esperava
                                              E não havia medo nessa expectativa
                                              Havia somente ânsia e curiosidade
                                              Porque a morte do cristão é bela
                                              Porque a morte do cristão é uma porta
                                              Que se abre para lugares desconhecidos
                                              Mas imaginados
                                              Como o Amor
                                              Que nos promete uma outra vida
                                              Diferente da nossa

                                                                    Eu esperei a morte
                                                                    Como se espera o Bem Amado
                                                                    Porque sei que em breve ela viria
                                                                    E me receberia
                                                                    Em seus braços amigos

                                               Seus lábios frios tocarão a minha face
                                               E sob a sua carícia
                                               Eu adormeceria o sono da Eternidade
                                               Como nos braços do Bem Amado

                                                                    Sei que este sono
                                                                    Será um ressurgimento
                                                                     Porque sei que a Morte é a Ressurreição
                                                                     A Libertação
                                                                     A Comunhão Total
                                                                     Com o Amor Infinito
                                                                      Junto ao Coração
                                                                      Do Pai de todos os pais


                                      
                                            Descanse na paz do Senhor, minha inesquecível Raquel
                                           
           



quinta-feira, 22 de junho de 2017

DEPOIMENTO PESSOAL



            Oitenta e um anos de idade, boa saúde, e ainda com o privilégio de ser amante de um bom vinho, não me falta melhor fortuna  que me sentar  à sombra de bela árvore no quintal de minha casa e mergulhar na leitura de meus autores prediletos: os lá dos primeiros séculos da história da Igreja, como o que estou lendo atualmente, São Cipriano, bispo e mártir do século III depois de Cristo.
            Antes do mais, ele, Doutor da paz e Mestre da unidade, não gostava que um cristão rezasse sozinho e em particular, como que  rezando só para si mesmo. De fato, não dizendo: - "Meu Pai que estais no Céu"; nem "Meu pão de cada dia dai-me hoje". O correto, para São Cipriano, seria dizer: "Nosso Pai; Nosso pão".
            Do mesmo modo, rezando-se o "Pai nosso", não se pede só para si o perdão da dívida de cada um, ou que não caia em tentação e seja livre do mal, rogando cada um para si mesmo.   Nossa oração, dizia ele, deve ser pública e universal, pois quando oramos não o fazemos para um só, mas para o povo todo, já que todo o povo forma uma só realidade, que é a Igreja.
            O Deus da paz e Mestre da concórdia, Jesus, que nos ensinou a viver a unidade, quis que orássemos um por todos, como Ele em Si mesmo carregou a todos, na Sua obra de redenção.
            Lemos no Antigo Testamento que os três jovens, lançados na fornalha  ardente, observaram esta lei da oração, harmoniosos na prece e concordes pela união dos espíritos. A firmeza da Bíblia Sagrada assim o declara e, narrando de que maneira eles oravam,  apresenta-os como exemplo a ser imitados em nossas preces, a fim de que nos tornássemos semelhantes a eles. Então, nos ensina a Bíblia, os três jovens, como que por uma só boca, cantavam um hino de louvor  e bendiziam  a  Deus. Falavam como se tivessem uma só boca e que Cristo ainda não lhes havia ensinado a orar.
            Por isto a palavra foi favorável e eficaz para os orantes. De fato, a oração pacífica, simples e espiritual, mereceu sempre a Graça do Senhor.
            De igual modo oravam os apóstolos e os discípulos depois da ascensão do Senhor: -"Eram perseverantes, todos unânimes na oração com as mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e seus irmãos".
            Perseveram unânimes na oração, manifestando tanto pela persistência como pela concórdia de sua oração, que Deus os faz habitar unânimes na Sua casa, só admite na Sua eterna e divina casa aqueles cuja oração é unânime.- "Rezai assim, diz o Senhor:  Pai nosso, que estais nos céus".
            Homem e mulher, renascidos pela Graça, restituídos a Deus, dizem, em primeiro lugar, "Pai",
porque já começaram a ser filhos.
            - "Veio ao que era seu e os seus não O receberam. A todos aqueles que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, a todos aqueles que creem em Seu nome.
            Quem, portanto, crê em Seu nome e se fez filho de Deus, deve começar por aqui, isto é, por dar graças e por confessar-se filho de Deus ao declarar ser Deus o seu Pai nos céus.
            E paro por aqui, encerrando o texto de hoje com uma oração muito do gosto de São Cipriano, e que ela se torne também para nós a oração de todo o dia, mesmo naqueles dias em que não pudermos passar sem uma bela taça de vinho:
            - "Ó Deus, anunciarei o Vosso nome a meus irmãos enólogos pela alegria que nos dais ao degustarmos sobriamente o fruto da videira, lembrando que Vós,  no Vosso amor para conosco, deu-nos a graça de Vos termos sempre conosco, no sacrário de nossas igrejas, sob as espécies sacramentais do pão e... do vinho, consagrados pelo sacerdote, durante a Santa Missa.
             Assim seja. Amém.

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quarta-feira, 7 de junho de 2017

O CRISTÃO E O MUNDO SEM DEUS



            Volto ao tema, porque ele me parece importantíssimo em nossa peregrinação pelos caminhos muitas vezes tortuosos e espinhentos da vida.
            Em Português, a palavra "mundo"  comporta uma grande variedade de sentidos. Na cristandade da  Idade Média e em épocas posteriores o conceito de "mundo" era religioso,  além de que parecia algo que devia ser rejeitado e esquecido pelo crente.
             Para isto era sempre lembrada a primeira carta de João (2, 15-17) na qual eram os cristãos exortados:
             - "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Quem ama o mundo, não está nele o amor do Pai, porque todas as coisas do mundo, tais como a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o fausto da vida não vêm do Pai, mas do mundo. E quem faz a vontade do Pai permanece eternamente."
             É muito clara esta advertência, não deixando margem a nenhuma dúvida porque, neste caso concreto, "mundo"  é o reino do egoísmo e do pecado. O mundo, assim considerado, "não pode receber o Espírito Santo"  (Jo 14,7), porque a paz de Cristo não é um dom semelhante aos dons deste mundo. Com certeza, "mundo", neste sentido, deve ser tomado como uma "criação má", algo puramente material oposto por sua natureza ao mundo espiritual.
             Infelizmente, esta interpretação derivada do maniqueísmo e do agnosticismo nos foi imposta durante muito tempo no decorrer da História, como uma visão "tenebrosa" do mundo, carente da luz de Cristo e oposta à vontade de Deus.
             Entretanto, o mundo material, porque criado por Deus, no rigor do termo não pode ser "tenebroso", e nem por sua natureza se opõe a Deus. As trevas do mundo não estão no seu aspecto
material, mas unicamente no pecado de homem e mulher, que rejeitaram o amor de Deus, muitas vezes sob o pretexto de uma religiosidade mal compreendida. Neste sentido, o mundo "tenebroso"  não passa de um mundo sem amor, distante de Cristo, um mundo formado por pessoas enrodilhadas sobre si mesmas, egoístas e sem calor humano.
             Tradicionalmente, a oposição cristã ao "mundo" é uma oposição de fundo teológico, enquanto rejeita o mundo na medida em que confina a liberdade de homem e mulher numa escravidão a preconceitos e paixões, sumariamente descritos pelo apóstolo Paulo na sua Carta aos Romanos (1, 18-32).
            Creio que há, sem dúvida nenhuma, o lado positivo deste quadro. Se o cristão deve permanecer "no mundo", mas não ser "do mundo"  (Jo 15, 18-19; 17,11), deve entretanto permanecer no mundo como testemunho e manifestação de Cristo, que é a "luz do mundo" (Jo 8,12) e que por Sua morte e ressurreição expulsa  dele o mal e atrai homens e mulheres para Si, para um mundo novo, mundo este vivido pelo cristão, no qual  não há mais lugar para o mal, o ódio, a ganância, o egoísmo, a mentira, a frustração e o desespero; mas que, muito mais que isso, tem como seu trabalho
central e mais íntimo a realização das promessas salvíficas de Deus, no Reinado de Cristo e na Sua obra de redenção.
              A Fé cristã, ao confessar esta verdade, esta presença redentora de Cristo num mundo de pecado, e por isso mesmo pecador, assume a chave do sentido pleno de homem e de mulher, do mundo e da história, inclusive de todas as injustiça e desumanidades, que corroem a profundamente a vida humana.
              Precisamente porque a Fé não se baseia na evidência clara, externa e científica, mas na fidelidade ao Deus das promessas bíblicas, ela exige de nós um compromisso pessoal com a pessoa de Cristo, que ama o mundo e sua História, que redimiu homem e mulher, e que sustém a vida, o mundo e seu destino em Suas próprias mãos benéficas e benfazejas.
              E esta é a esperança que nos anima a caminharmos sem descanso, apesar de todos os pesares e percalços trazidos pelos nossos pecados, em busca deste Reino que nunca terá fim: o reinado de nosso Deus e redentor, Jesus Cristo, o Filho de Maria. Amém.  

terça-feira, 30 de maio de 2017

O PROBLEMA DO MAL NO MUNDO



           
           - "Ou Deus quer eliminar o mal do mundo, mas não pode; ou pode, mas não quer eliminá-lo; ou não pode nem quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, não ama o ser que criou; se não pode nem quer, não é o Deus bom e, ademais, é impotente. Se pode e quer - e isto é o mais seguro - então, de onde vem o mal real que nos acabrunha, e por que Ele, todo poderoso, não o elimina de vez?"  (Epicuro, apud Lactâncio, em "De ira Dei" -  A ira de Deus).


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            A citação acima é um texto de Lactâncio, filósofo grego, nascido no ano 341 antes de Cristo, escrevendo sobre a relação entre Deus e o mal presente no mundo. Nesse livro, o autor adverte os seus partidários de que Deus não é somente bondade, mas também justiça vindicativa contra os maus.
            Na verdade,  à primeira vista, nada tão oposto ao Deus de Jesus de Nazaré, que conhecemos pelos Evangelhos como Pai de amor e de bondade infinita, que a presença do mal no mundo criado por Ele, presença esta terrível e sem remédio, que se estende por todos os tempos e a todos, inocentes e pecadores, sem exceção. Em forma de catástrofes cósmicas, de enfermidades e sofrimentos orgânicos, de padecimentos ou deformações físicas ou morais, o mal se ergue como uma barreira aparentemente intransponível, entre a sensibilidade espontânea do homem e da mulher, e a bondade proclamada de Deus.
            - "O problema do sofrimento e do mal está na raiz de numerosas crises de Fé. Se Deus existe, por que este fracasso, esta morte prematura, esta traição ao nosso amor, este acidente de trânsito, esta doença que me faz sofrer, esta perda de emprego, este fracasso na vida?" -  (Missal dominical, segundo domingo da Quaresma).
            Considerando-se em abstrato a onipotência divina, impõe-se reconhecer que, em pura honestidade lógica, as alternativas propostas pelo dilema de Epicuro são insuperáveis. Se nessa perspectiva, se no mundo há mal, é porque Deus onipotente não quer eliminá-lo. E da mesma forma, se considerarmos o dilema sob o prisma da possibilidade de um mundo sem mal, e se apesar de tudo, o mal existe, é porque o Deus bom e justo não pode evitá-lo.
            Sendo assim não seria o ateísmo a única solução lógica para o ser humano acossado pelo mal sem remédio, conforme proclama pelo mundo inteiro o profeta do ateísmo moderno Richard Dawkins, em seu livro "Deus, um delírio", que acabo de ler por estes dias?
            Em que cabeça cabe que Deus pudesse exigir a morte violenta de Seu Filho feito homem, Jesus de Nazaré, para resgatar os pecados da humanidade, como leio em muitos manuais de devoção em uso por aí?
            É aceitável a monstruosidade de um Deus que, chamado "Pai" pelos cristãos, tenha exigido de um outro pai, Abraão, que Lhe sacrificasse seu filho único e querido, Isaac, como prova de obediência?
           Quem veria hoje um gesto de fidelidade e religiosidade profunda de um voto que, como no caso de Jefté, no "Livro dos Juízes", implicava sacrificar a Javé sua filha inocente?
            Se Deus previu o pecado de Adão, com todas as suas funestas consequências, e nada fez para evitá-lo, carece de boa vontade para com o homem e mulher, e se podia fazer tudo para impedir a queda deles, e não o conseguiu. então voltamos ao dilema de Epicuro: Deus não é todo poderoso como supúnhamos (Pierre Bayle,  "Réponses aux questions").
            Pode-se conceber que um Deus "que é amor" se dedique a castigar com tormentos inauditos e por toda a eternidade, no assim dito inferno, um ser humano que muitas vezes, em um momento de fraqueza, cometa um pecado que os moralistas chamam de "mortal"?
            Se Deus é tão bom e quer salvar a todos os seres humanos, por que aguardar tanto, até a vinda de Jesus de Nazaré, deixando abandonados por séculos e séculos a todos os antepassados? É a pergunta feita por Celso, o pagão, aos apologistas cristãos de seu tempo?   

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            A problemática do mal no mundo tem mil e uma nuances, e esta problemática sempre me preocupou. Um padre amigo, cá da paróquia que frequento e a quem expus as minhas dúvidas, me aconselhou a leitura dos livros de Santo Agostinho. Ledo engano. Li a todos, detendo-me muito mais nas suas famosas "Confissões". A mentalidade agostiniana, mais propensa a sublinhar o peso do pecado original e o perigo dos pecados pessoais, do que a valorizar a universalidade da salvação e a extensão infinita da misericórdia divina, sempre me desalentou.
            Ainda mais: quando no seu tratado clássico "De Gratia Dei" - A Graça de Deus - me deparei com a horripilante, desumana e cruel doutrina da predestinação, segundo a qual Deus  destina inapelavelmente alguns para o Céu e outros para o Inferno, sem possibilidade de reversão, fiquei ainda mais complexado do que antes. É verdade que já conhecia alguma coisa sobre predestinação, lendo Calvino e os jansenistas, mas nunca com a intensidade e definitividade  como em Agostinho.
            Isto me acompanhou durante durante um certo tempo, e só me libertei de meus fantasmas quando conheci o teólogo galego, Andrés Torres Queiruga, com o qual aprendi que a doutrina da predestinação deveria ser totalmente banida dos manuais de teologia, pois representa a parte mais condenável e falha de Agostinho sobre a Graça de Deus. - Por sorte esta doutrina, que parte de uma idéia de Deus que me faz estremecer, nunca foi totalmente acolhida na Igreja.
            Na verdade, como salienta Altaner em sua "Patrologia", a doutrina de Santo Agostinho sobre a Graça, baseada em uma idéia de um Deus temível e vingador, encontrou sempre, dentro da Igreja, muita contestação,  e provocou mais tarde, como em Lutero e Calvino, fautores do protestantismo, muitos e graves erros teológicos.

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            Já me estendi muito e paro por aqui, citando uma frase do teólogo suíço Hans Kung, de Frankfurt, Alemanha, na conferência de imprensa por ocasião do lançamento de seu controvertido livro "Ser Cristão":
            -"O autor escreveu o livro não por considerar-se a si mesmo um bom cristão, mas por considerar uma coisa sumamente boa ser cristão."

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                "...et sic transit gloria hujus mundi, et sic etiam Deus me adjuvet..." - completo eu.

 
           
           

sexta-feira, 26 de maio de 2017

VIDA PARA ALÉM DA MORTE



             Esta frase que serve de título ao meu texto de hoje, e lembrando-me também de meus filhos  inesquecíveis, minha  filha Raquel e meu filho Júlio, que flecharam o Céu buscando o Infinito, levou-me a meditar nesta manhã de sexta-feira e perguntar a mim mesmo: dentro da Fé que professo, se é possível uma visão positiva do fenômeno universal da morte. E a Fé que me anima responde-me que sim, porque dentro da vida humana há uma chance única na qual homem e mulher, pela primeira vez, nascem totalmente ou acabam de nascer, justamente na morte.
            Esta resposta pode ser profundamente frustrante, pois a morte sempre foi entendida como o fim da vida. Ela é dolorosa e triste como um final de festa ou como o derradeiro e definitivo aceno de uma despedida.
             A morte é, sim, o fim da vida. Ela marca a ruptura de um processo vital. Como que criando um corte entre o tempo presente e a eternidade. Mas ela, felizmente, cobre um aspecto apenas do ser humano: o biológico e o temporal. Homem e mulher  constituem algo muito superior ao biológico, porque são mais do que um animal. São também superiores ao tempo, porque suspiram pela eternidade do amor e da vida.
            Homem e mulher são pessoas, e mais que isso, interioridade. Para eles, a morte não é simplesmente um fim, mas um fim-plenitude, um fim alcançado, o lugar do verdadeiro e definitivo nascimento. Lembra-me a mulher grávida que, entre angústia, dor e esperança, segura o filhinho recém-nascido e murmura, agradecida: atingi, ó Deus, minha meta de mulher: sou mãe!
            Este fim-plenitude alcançado pela morte só é encontrado por nós na Fé. É nesta Fé que encontramos a base para a Esperança de que nossa vida não se perde no vazio do nada. Esta nossa convicção se baseia em Deus. Neste Deus que Se revelou na ressurreição de Jesus de Nazaré, e que ressuscitará também a nós pelo Seu poder infinito.
            E foi nesta Fé que meus filhos inesquecíveis, a Raquel e o Júlio, alcançaram, na morte, o seu nascimento definitivo, que é o Deus de Jesus Cristo e de todos nós, cristãos!


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sexta-feira, 12 de maio de 2017

RELENDO O "DIÁRIO DE ANNE FRANK"



            Estou lendo, pela terceira ou quarta vez, o diário de Anne Frank, a menina que, a seu tempo, por ocasião da segunda guerra mundial, emocionou o mundo inteiro, com a publicação de seu "Diário".
            Anne Frank morreu, juntamente com sua irmã, Margot, num campo de concentração nazista. (Margot morreu na câmara de gás, e Anne morreu de morte natural, vitimada pelo tifo).
Alguns dias antes de morrer Anne Frank escreveu em seu "Diário" estas palavras que sempre me emocionam quando eu o releio:
            - "Verdadeiramente minha vida mudou, e para muito melhor, porque Deus não me abandonou, e não me abandonará jamais."
             Estas palavras me fazem lembrar daquelas outras proclamadas não pelo Deus de Israel, mas por Seu Filho, tornado homem na Terra, para assumir a condição  e os sofrimentos de homens e de mulheres, bem como a dar a eles e a elas um novo sentido à sua esperança: - "Deixai vir a Mim os pequeninos."
             Apesar de sua saúde frágil, marcada por sofrimentos horríveis nos tempos de cativeiro, a alma de Anne Frank era daquelas  que, desde sempre,  responderam às palavras de Jesus de Nazaré: Deus, de fato, nunca a abandonou.]
             Naquele campo de torturas e de mortes, em Bergen-Belsen,  com seus fatídicos fornos crematórios e com o desencadeamento demoníaco das mais atrozes demonstrações da barbárie nazista, é preciso confessar que este Deus que Anne Frank  mal conseguia definir, mas cuja imagem estava presente em seu coração, nunca haveria mesmo de abandoná-la até seus últimos dias, como nos comprova o "Diário".
            E eu o creio, porque Deus, o "Abbá" de Jesus é Pai, e também porque, no mais profundo de nossas fraquezas humanas diante do sofrimento,  no recesso mais sombrio de nossas angústias e revoltas, Anne Frank representa para nós uma das mais eloquentes certezas da realização plena de nossa esperança teologal..
            Ela, que se considerava um nada, conseguiu romper a muralha de silêncio culposo  das religiões (o Papa Pio XII?) e mostrar ao mundo inteiro  nas páginas de seu "Diário", a chaga sangrenta das deportações em massa e do extermínio dos judeus nos campos de concentração. E pensar que nós, no Brasil,
estivemos bastante próximos dessa nefasta ideologia nazista na sua versão tupiniquim  do  integralismo de Plínio Salgado, cópia mal feita do fascismo de Mussolini, aliado confesso de Hitler.
            O Prêmio Nobel da Paz, o Padre Pire, que  à sua sexta aldeia européia  acolhia os refugiados de todas as regiões da Europa,  deu-lhe o nome de Anne Frank, a pequenina mártir que emocionou a  todos nós, e se tornou a menina querida do mundo inteiro..
            E termino o meu texto recomendando a todos que tenham oportunidade, que leiam o "Diário de Anne Frank", pedindo a Deus que nunca mais aconteça neste nosso mundo a tragédia da guerra e dos fatídicos campos de concentração, onde milhares e milhares de inocentes pagaram com a vida  a bestialidade dos que se julgam os senhores do mundo.

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