segunda-feira, 16 de outubro de 2017

CUIDAR DE QUE OU DE QUEM?



                  Eis aí uma questão que nos obriga a refletir:  a Caridade nos convoca a estarmos sempre prontos a atender às necessidades de todos quantos nos rodeiam, sem distinção de classe, de cor, de religião. Como quer que seja, somos todos irmãos em Cristo, e responsáveis cada qual pelas necessidades e carências de cada um.  Neste sentido, o desafio prático do cuidado com o outro consiste na determinação de seu objeto. Que valor, que pessoa, que causa, que bem, merece o esforço pessoal de nosso cuidado?
                 Por vezes a perspectiva da retribuição facilita a escolha, quer haja apenas reciprocidade ou até mesmo lucro. Muitos fenômenos de nossa vida de cada dia podem ser analisados do ponto de vista do cuidado: expressam escolhas de objetos privilegiados por e para nosso cuidado com o outro.
                 Como quer que seja, o preceito é amar o  próximo como a si mesmo, onde e como ele estiver, e amar a Deus conjuntamente.
                  A humanidade, no fundo, não mudou muito depois do poeta latino da antiguidade romana, Ovídio, que estudei nos tempos de ginásio, e que em seus escritos dizia que "a humanidade não mudou muito, porque o que conta sempre é o poder do dinheiro. Ele consegue honras, ele consegue amizades e, com isso, o pobre é sempre pisoteado."
                  O crente piedoso reza sem saber como se entrosam o cuidado que cabe a nós e o cuidado para com o divino. A oração de pedido, muito exercida entre nossa gente, entende pressionar o cuidado divino num sentido que sempre nos pareça favorável, esquecendo-se de que o cuidado divino em resposta à nossa oração de pedido não toma obrigatoriamente a forma de milagre contrário às leis naturais quando atendido.
                  Diz-nos o catecismo que Deus age normalmente pelo jogo normal da natureza, de modo que o mesmo acontecimento pode, de um certo ponto de vista, explicar-se cientificamente e, de outro ponto de vista, ser atribuído pelo crente à vontade de Deus, no plano da oração de pedido e de ação de graças.
                 De qualquer maneira, o cuidado brota num contexto de solidariedade. Seu horizonte terrestre, humano, é a justiça e a paz. Muitos, entretanto, não conseguem ver que a paz, como todo bem, possui seu preço a pagar, pois resulta em benefício pessoal, este interesse pessoal sem o qual a maioria das pessoas não é capaz de levantar um dedo.
                Frequentemente se esquece que  cuidar das coisas que se referem a Deus, cuidar da terra, cuidar do próximo, é também cuidar de si mesmo, tarefa de toda uma vida.
                É sempre bom pensar nisso de vez em quando.

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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O PROBLEMA DO MAL E O DILEMA DE EPICURO



            "Ou Deus quer eliminar o mal do mundo, mas não pode, ou pode, mas não quer eliminá-lo, ou não pode nem quer; ou pode e não quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode  e não quer, não nos ama; se não pode nem quer, não é o Deus bom e, ademais, é impotente. Se quer e pode - e isto é o mais seguro - então, de onde vem o mal e por que Ele não o elimina?",  (Epicuro, apud Lactâncio,  in "Ira Dei" - "A ira de Deus)."


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            Nesse livro, escrito provavelmente em 313, Lactâncio adverte os partidários de Epicuro de que Deus não é somente bondade, mas também é justiça vindicativa contra os maus.
            Antes de entrar no tema em foco, peço licença ao benévolo e eventual leitor, para uma ressalva: quando,  pelas minhas colocações, pareço atribuir a Deus a responsabilidade pela presença  do mal físico e moral no mundo,  ou uma alusão mais desairosa à Igreja,  isto não representa necessariamente, e em sua totalidade, o que penso a respeito. Minha intenção é provocar uma reflexão mais aprofundada sobre alguns problemas da vida eclesial e da Teologia, porque não podemos instalar-nos sobre as conquistas já feitas, sob o pretexto de coisa definitiva e absoluta. Tratando do problema do mal no mundo, eu o trato sob as perspectivas abertas por Andrés Torres Queiruga, em três de suas obras: "Do terror de Isaac ao Abbá de Jesus", "Recuperar a Salvação", e "Creio em Deus Pai". E o cito:
            -"Desde que a primeira mãe deu à luz com dor e a primeira criança nasceu chorando, foi posto o problema. A vida humana está assediada pelo mal, o mundo está cheio de crucificados, e surge a pergunta pelo porquê disso tudo. Pergunta inaugural e permanente". (Andrés Torres Queiruga, "Teologia em Diálogo").
             Lendo também o livro de H. Bechert, "Buddismus", na página 322, em que ele fala da concepção budista do nirvana como símbolo da aniquilação absoluta da existência pessoal, encontrei um dito que vem muito a propósito do que pretendo tratar neste nosso diálogo: -"Tudo é dor."
             À  primeira vista, nada tão oposto ao Deus de Jesus de Nazaré, que conhecemos pelos Evangelhos como Pai de amor e de bondade infinita, que a presença do mal no mundo criado por Ele, presença terrível e sem remédio, que se estende por todos os tempos e a todos os seres, sem exceção. Em forma de catástrofe cósmica, de enfermidade e sofrimento  orgânico, de padecimento ou deformação física ou moral, o mal se ergue como uma barreira,  aparentemente intransponível, entre a sensibilidade espontânea do homem e mulher, e a bondade presente em Deus.
             "O problema do sofrimento e do mal está na raiz de numerosas crises de Fé. Se Deus existe, por que este fracasso, esta morte prematura, esta traição ao nosso amor, este acidente de trânsito, esta doença que me faz sofrer, esta perda de emprego, este revés na vida?" (Missal Dominical, segundo domingo da Quaresma).
             Andrés Torres Queiruga, ao tratar do tema em seu livro "Do Terror de Isaac ao Abbá de Jesus", nos lembra que, considerando-se em abstrato a onipotência divina, impõe-se reconhecer que, em pura honestidade lógica, as alternativas propostas pelo Dilema de Epicuro são insuperáveis. Com efeito, nessa perspectiva, se no mundo há mal, é porque Deus onipotente não quer eliminá-lo. E da mesma forma, se considerarmos o dilema sob o prisma da possibilidade de um mundo sem mal, e se apesar de tudo, o mal existe, é porque o Deus   "bom" não pode evitá-lo.
             Sendo assim, não seria o ateísmo a única solução lógica para o ser humano acossado pelo mal sem remédio, conforme  proclama pelo mundo inteiro o profeta do ateísmo moderno, Richard Dawkins, com seu livro recente, "Deus, um delírio?"
             Diga-se o que se disser, apresentem-se os mais consoladores argumentos, recorra-se à teodiceia ou à retórica piedosa, atéia ou agnóstica, o fato é que um "deus" que em si mesmo fosse     impotente e limitado não seria Deus. Um "deus" bom que, podendo, não quisesse evitar o imenso horror do mal no mundo, tampouco seria Deus. Inclusive, qualquer pessoa simples e decente estaria em patamar superior a esse pretenso "deus", pois ninguém  que possua um mínimo de humanidade deixaria, se estivesse em seu poder, de acabar com a miséria e a fome de milhões de crianças em vastas áreas do planeta, com o espanto dos crimes e das guerras, do terrorismo sem freio, ou com os tormentos da doença e da morte.
             Este é o dilema que proponho à consideração do prezado e benévolo leitor.
             Como católico, lembro que o Concílio do Vaticano II abriu a Igreja Católica para o mundo, arejou o marasmo em que se encontrava a sua teologia, e se tornou uma alvorada de esperança para as pessoas de boa vontade de toda a ecumene e, na sequência, o novo Código de Direito Canônico, a seguir publicado, deveria continuar esta abertura e inserção no mundo, mas o Código frustrou as expectativas ao insistir na centralização do poder eclesiástico na Cúria Romana, castrando assim a colegialidade do episcopado e a efetiva participação do Povo de Deus nas decisões de interesse de suas comunidades.
             Tomo aqui a liberdade de fazer ao benévolo leitor os seguintes questionamentos: a Igreja Católica, tanto em nível local como em nível universal, continuará exibindo essa estrutura fortemente piramidal, conforme o espírito do  Concílio Vaticano I, em uma única mão, a do  Papa? ou, ao contrário, estará mais próxima das bases eclesiais, segundo o Vaticano II?  Ou ela continuará centralista ou pluralista, dogmática ou dialógica, de forma ingenuamente autocentrada ou, apesar de todas as dúvidas da Fé, capaz de encarar decididamente o futuro?
             Neste enfoque, trago um texto do grande e controvertido teólogo suíço, Hans Kung, no seu livro "Teologia a Caminho".  A citação é um tanto longa, mas creio que é de suma e vital importância para o que venho tratando até aqui. A seguir:
             - "A Igreja Católica procurou conservar seu paradigma medieval e da Contra Reforma até o Concílio Vaticano II, por meio de decretos autoritários, sanções disciplinares e estratégias políticas. (...) Ela se refugiou na centralização e burocratização. Será que a imposição autoritário-inquisitorial por parte da Cúria, de uma estrutura hierárquico-burocrática corresponde à situação religiosa pós-moderna, embora essa estrutura fosse legitimada e elevada à condição de dogma de fé pelo Vaticano I (1870)? Será que a atual ressacralização dessas estruturas eclesiais, (no pontificado de João Paulo II), feudais e pré-modernas, é a resposta correta à situação religiosa pós-moderna de esvaziamento de um catolicismo culturalmente hermético e fechado em si mesmo?"
             O certo é que não podemos permanecer enclausurados na repetição por assim dizer mecânica de um passado morto, mas devemos abrir-nos para a recriação autêntica de uma experiência que há de ser tão atual como a refletida nos textos tradicionais e que exige de nós seja traduzida em palavras vivas que falem à nossa compreensão, e alimentem as possibilidades de nossa vida e de nossa história, nos tempos em que vivemos. Gostemos ou não, temos que pagar nosso tributo à pós-modernidade e aos sinais dos tempos, como diria o saudoso João XXIII.
             Devo dizer que não aceito uma leitura literalista ou fundamentalista da Bíblia Sagrada, isto é, tomar ao pé da letra o que nela está contido,  sem uma segura exegese histórico-crítica de seu conteúdo. Muitas denominações evangélicas fazem isto, e acabam resvalando para os maiores absurdos. Vários setores do catolicismo também o fazem, inclusive boa parte do "Catecismo da Igreja Católica" e a comunidade "Canção Nova", sem esquecer, é claro, a maioria das pregações nos púlpitos de nossas igrejas. Por causa dessa leitura fundamentalista da Bíblia, há muitas verdades que os cristãos, católicos e protestantes, afirmam, mas no íntimo chegam a não crer nelas. São demasiadas as palavras da Bíblia que dizem aceitar, mas suspeitando que alguma coisa pode não ser bem assim como está nela.
             Diz-nos o teólogo Andrés Torres Queiruga ("Recuperar a Salvação") que atualmente, diante dos progressos da pesquisa e da hermenêutica bíblica, nem o mais conservador dos teólogos pode - embora o pretendesse - levar ao pé da letra a estrela de Belém, ou a fuga para o Egito, ou a ascensão física de Jesus atravessando as nuvens para chegar ao Céu. Como dificilmente poderá "crer" na milagrosa entrada de uma legião de demônios numa vara de porcos, nem na moeda na boca do peixe para pagar o imposto devido aos romanos.
             E mais:
              - Quem é capaz de pensar que Deus castigou durante milênios a milhões de seres humanos por um pecado pretensamente atribuído a nossos primeiros pais, quando nenhuma pessoa decente é capaz de maltratar uma criança, por maior que seja o crime que seu pai ou sua mãe tenham praticado?
             - Acredita-se que o pecado de Adão e Eva tenha sido transmitido ao longo da linhagem masculina de acordo com santo Agostinho. Que tipo de filosofia ética é essa, que condena todas as crianças, mesmo antes de nascer, a herdar o pecado de um ancestral remoto?
            - Qual a mãe que poderia crer de verdade que sua pequenina criatura recém-nascida, diante da qual seu coração se desfaz em ternura, está em pecado e condenada a nunca fruir da visão beatífica, se morrer antes de ser batizada?
             Felizmente a nova liturgia do Batismo, após o Concílio Vaticano II, abandonou aquela esdrúxula fórmula usada até tempos atrás, quando o sacerdote, depois de soprar três vezes sobre o rosto da criança a ser batizada, dizia com voz enfática: -"Sai dela, ó espírito imundo, e dá lugar ao Espírito Santo Paráclito..."
             - Em que cabeça cabe que Deus pudesse exigir a morte violenta de Seu filho feito homem, Jesus de Nazaré, para resgatar os pecados da humanidade, como lemos nos manuais de piedade em uso por aí?
             William P. Loewe, em seu livro "Introdução à Cristologia", adverte-nos de que esta maneira de falar "pode levar a imagens grotescas de Deus como um tirano sanguinário, que exige a morte de um filho inocente para apaziguar Sua ira, imagens da morte de Jesus como um caso supremo de crueldade divina contra o próprio filho."
             Esta afirmação de Loewe é corroborada por Joseph Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI) em "Introdução ao Cristianismo", pág. 208:  _ "Diante da atitude expressa em certas práticas religiosas impõe-se, praticamente, a convicção de que a Fé cristã na cruz se baseia na imagem de um Deus que, em Sua justiça intransigente, exige de um pai o sacrifício de um ser humano, o sacrifício do próprio filho.  Aterrorizadas, muitas pessoas mais sensíveis viram as costas a uma justiça que, com sua ira sinistra, torna implausível a mensagem do amor."
            - É aceitável a monstruosidade de um Deus que, chamado  "Pai" pelos cristãos, tenha exigido de um outro pai, Abraão, que lhe sacrificasse seu filho único e querido, Isaac, como prova de obediência?
          -  Quem pensaria hoje em louvar a Deus dizendo que Ele é um guerreiro que "Se cobriu de glória afundando no mar cavalo e cavaleiro", como rezamos semanalmente na "Liturgia das Horas"?
           - Quem veria hoje um gesto de fidelidade e religiosidade profunda no cumprimento de um voto que, como no caso de Jefté, no livro dos "Juízes", implicava sacrificar a Javé sua filha inocente?
           -  "Se Deus previu o pecado de Adão  com todas as suas funestas consequências, e não tomou medidas bem seguras para evita-lo, carece de boa vontade para com o homem... e se fez tudo o que pôde para impedir a queda do homem e não o conseguiu, então voltamos ao dilema de Epicuro: não é todo-poderoso como supúnhamos." (Pierre Bayle, "Réponses aux questions", citado por Queiruga, em "Recuperar a Salvação").
             A respeito do problema do pecado de Adão ser transmitido a toda a sua descendência, o teólogo luterano Pannemberg, em sua "Teologia Sistemática II", tem colocações muito oportunas que peço licença para citar:
             -"Foi rejeitado como revoltante para a sensibilidade ética a afirmação de que Deus teria imputado o pecado de Adão a seus descendentes como culpa, ainda antes que tivessem cometido, de sua parte, qualquer ato mau. Este princípio, imputar aos filhos de Adão o pecado de seu ancestral, pareceu inconciliável com a fé na justiça de Deus e em Seu amor que perdoa."
             - "Pode-se conceber que um Deus que é amor, na ousada afirmativa do evangelista João, se dedique a castigar com tormentos inauditos e por toda a eternidade, no assim dito inferno, um ser humano que em momentos de fraqueza tenha cometido uma ação que os moralistas chamam de mortal?
             - "E sem falar que o teólogo oficial da Igreja até tempos atrás, São Tomás de Aquino, tenha afirmado na sua "Suma Teológica" (questão XCIV, art. III) que a contemplação dos tormentos padecidos pelos condenados no inferno aumenta o gozo dos bem-aventurados no Céu?"
             Verdadeiro absurdo.
              Estes são apenas alguns exemplos do modo de falar dos cristãos, mas que não tem mais lugar hoje em dia, diante de uma leitura crítica da Bíblia Sagrada. Nesta leitura é de fundamental importância que se faça uma distinção urgentíssima entre aquilo que os autores bíblicos pensavam em seu tempo, e tudo aquilo que nós, aprendendo com eles, devemos pensar nos dias de hoje.
             Voltando finalmente ao dilema de Epicuro, não importa a que deus se refere ele, seja Marduc, Baal, Moloc, Júpiter, Javé, ou outro qualquer do panteão dos povos. O que interessa é que o seu questionamento atravessou os séculos, e tem intrigado filósofos e teólogos; teses e livros têm sido escritos sobre tal dilema, tanto entre católicos como entre protestantes. Inclusive homens sem religião, agnósticos, ateus, ou como Hegel, Kant, Kierkegard, Feuerbach, entre outros, se debruçaram sobre esse famoso dilema, e cada qual deles procurou dar-lhe uma resposta, o que nem sempre conseguiram.
             "Admitir que o mal tem sua origem na liberdade e no livre arbítrio do ser humano não é capaz de desonerar o Criador da responsabilidade por essa Sua criação. Seja qual for o modo como a criatura é livre, ela é criatura de Deus justamente nessa sua liberdade."  (Pannenberg, "Teologia Sistemática", II).
              Este é o âmago da questão, e é por esse âmago que Epicuro questiona os sábios de seu tempo, e esse fato ressoa até os dias de hoje, como nos atesta Torres Queiruga ao tratar do tema em vários de seus livros:
              - "Existe Deus? Se existe, onde está Ele, quando nos acontece uma desgraça, ou nos sentimos infelizes? Como se situa Ele em nossa vida e em nossa história? "
              E eu ponho ponto final no meu blog de hoje propondo, ao  eventual e benévolo leitor, dois pensamentos que me perturbaram durante todo o tempo em que redigia este texto:
               - "Toda a ciência do mundo não vale as lágrimas de uma criança que sofre, implorando a Deus, em vão, o fim desse sofrimento."  (Dostoievski, "Os irmãos Karamazov").
               - "Eu me recuso até à morte amar uma criação na qual crianças, seres inocentes, são torturadas." (Camus, "A Peste").

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(Quem visitar o Hospital Pequeno Príncipe, ou o setor de cancerologia do Hospital Erasto Gaertner, ambos aqui em Curitiba, poderá ser testemunha pessoal da terrível verdade das palavras do romancista russo).

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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

MEU VIZINHO E O DANADO DE SEU GATO...



            Conversando hoje com um vizinho, que é Ministro da Eucaristia na minha Paróquia cá em Curitiba, nosso assunto eram pormenores interessantes da Bíblia Sagrada.
            Em certo ponto de nosso bate-papo ele me disse:
            - "A título de curiosidade, nunca encontrei na Bíblia qualquer alusão ao gato, enquanto o cachorro é citado muitas vezes..."
            Então foi a minha deixa para mostrar-lhe que a Bíblia, na verdade, fala várias vezes do cachorro, mas não se esquece do gato, animal para mim tão encantador. E lhe respondi:
            - "Engano seu. Abra sua Bíblia em Baruch , capítulo 6, versículos 20-21, e lá Você encontrará o seu gato".
            Dei-lhe minha Bíblia para procurar o texto citado, e o vizinho o encontrou e o leu em voz alta:
             - "Suas faces estão negras da fumaça que se espalha na casa. Corujas, andorinhas e outros pássaros voam sobre seus corpos e suas cabeças, e gatos também passam sobres eles."
            Referência aos ídolos da Babilônia... É   ali que o gato aparece na Bíblia... O homem agradeceu-me pela informação, e eu fiquei satisfeito com a dica que lhe dei gratuitamente...
            Para que o benévolo leitor também encontre o danado do bichano em seu texto sagrado, não se esqueça, lembro mais uma vez:
            - "Procure Você também: Livro de Baruch, 6, 20-21."
            E assim consegui praticar uma boa ação, satisfazendo a curiosidade do meu vizinho, e eventualmente também a sua!...


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sexta-feira, 21 de julho de 2017

SAUDADES DE MINHA FILHA RAQUEL



            A data mais triste do ano para minha esposa Cleusa, para meus filhos Carlos e Aroldo Jr., para mim, e muito especialmente para minha querida neta, a Isabela, está chegando: o fatídico dia 21 de agosto, em que a mãe da Isabela e minha filha inesquecível, a Raquel, partiu deste mundo de dores para a Casa do Pai de todos os pais.
            A tristeza infindável que nos martiriza pela ausência física da pessoa amada é, paradoxalmente, aliviada pela alegria e pela certeza absoluta de que a Raquel, pela sua vida profundamente vivida, pela sua Caridade ardente para com todos que a rodeavam, descansa hoje na bem-aventurança eterna.
            Com seu organismo debilitado por um insidioso câncer que lhe corroía coluna vertebral e pulmão, com metástase cerebral, ela esperava a morte iminente, mas sua alma transfigurada pela resignação, pela acendrada confiança em Deus, e pelo amor de toda a sua pequena família que sofria com ela dia após dia.
            Permanece a dor da saudade no coração de sua filha Isabela, de seus pais, de seus irmãos, que dedicam à Raquel este singelo poema brotado da alma e fruto da dor, mas aliviada pela certeza de que ela descansa em paz junto ao "Abbá"/PaiMãe de Jesus de Nazaré, e Pai absoluto de todas as vidas:



                                            "Eu esperei a morte como se espera o Bem Amado
                                              Ignorava como ela viria
                                              Nem como viria
                                              Mas eu a esperava
                                              E não havia medo nessa expectativa
                                              Havia somente ânsia e curiosidade
                                              Porque a morte do cristão é bela
                                              Porque a morte do cristão é uma porta
                                              Que se abre para lugares desconhecidos
                                              Mas imaginados
                                              Como o Amor
                                              Que nos promete uma outra vida
                                              Diferente da nossa

                                                                    Eu esperei a morte
                                                                    Como se espera o Bem Amado
                                                                    Porque sei que em breve ela viria
                                                                    E me receberia
                                                                    Em seus braços amigos

                                               Seus lábios frios tocarão a minha face
                                               E sob a sua carícia
                                               Eu adormeceria o sono da Eternidade
                                               Como nos braços do Bem Amado

                                                                    Sei que este sono
                                                                    Será um ressurgimento
                                                                     Porque sei que a Morte é a Ressurreição
                                                                     A Libertação
                                                                     A Comunhão Total
                                                                     Com o Amor Infinito
                                                                      Junto ao Coração
                                                                      Do Pai de todos os pais


                                      
                                            Descanse na paz do Senhor, minha inesquecível Raquel
                                           
           



quinta-feira, 22 de junho de 2017

DEPOIMENTO PESSOAL



            Oitenta e um anos de idade, boa saúde, e ainda com o privilégio de ser amante de um bom vinho, não me falta melhor fortuna  que me sentar  à sombra de bela árvore no quintal de minha casa e mergulhar na leitura de meus autores prediletos: os lá dos primeiros séculos da história da Igreja, como o que estou lendo atualmente, São Cipriano, bispo e mártir do século III depois de Cristo.
            Antes do mais, ele, Doutor da paz e Mestre da unidade, não gostava que um cristão rezasse sozinho e em particular, como que  rezando só para si mesmo. De fato, não dizendo: - "Meu Pai que estais no Céu"; nem "Meu pão de cada dia dai-me hoje". O correto, para São Cipriano, seria dizer: "Nosso Pai; Nosso pão".
            Do mesmo modo, rezando-se o "Pai nosso", não se pede só para si o perdão da dívida de cada um, ou que não caia em tentação e seja livre do mal, rogando cada um para si mesmo.   Nossa oração, dizia ele, deve ser pública e universal, pois quando oramos não o fazemos para um só, mas para o povo todo, já que todo o povo forma uma só realidade, que é a Igreja.
            O Deus da paz e Mestre da concórdia, Jesus, que nos ensinou a viver a unidade, quis que orássemos um por todos, como Ele em Si mesmo carregou a todos, na Sua obra de redenção.
            Lemos no Antigo Testamento que os três jovens, lançados na fornalha  ardente, observaram esta lei da oração, harmoniosos na prece e concordes pela união dos espíritos. A firmeza da Bíblia Sagrada assim o declara e, narrando de que maneira eles oravam,  apresenta-os como exemplo a ser imitados em nossas preces, a fim de que nos tornássemos semelhantes a eles. Então, nos ensina a Bíblia, os três jovens, como que por uma só boca, cantavam um hino de louvor  e bendiziam  a  Deus. Falavam como se tivessem uma só boca e que Cristo ainda não lhes havia ensinado a orar.
            Por isto a palavra foi favorável e eficaz para os orantes. De fato, a oração pacífica, simples e espiritual, mereceu sempre a Graça do Senhor.
            De igual modo oravam os apóstolos e os discípulos depois da ascensão do Senhor: -"Eram perseverantes, todos unânimes na oração com as mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e seus irmãos".
            Perseveram unânimes na oração, manifestando tanto pela persistência como pela concórdia de sua oração, que Deus os faz habitar unânimes na Sua casa, só admite na Sua eterna e divina casa aqueles cuja oração é unânime.- "Rezai assim, diz o Senhor:  Pai nosso, que estais nos céus".
            Homem e mulher, renascidos pela Graça, restituídos a Deus, dizem, em primeiro lugar, "Pai",
porque já começaram a ser filhos.
            - "Veio ao que era seu e os seus não O receberam. A todos aqueles que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, a todos aqueles que creem em Seu nome.
            Quem, portanto, crê em Seu nome e se fez filho de Deus, deve começar por aqui, isto é, por dar graças e por confessar-se filho de Deus ao declarar ser Deus o seu Pai nos céus.
            E paro por aqui, encerrando o texto de hoje com uma oração muito do gosto de São Cipriano, e que ela se torne também para nós a oração de todo o dia, mesmo naqueles dias em que não pudermos passar sem uma bela taça de vinho:
            - "Ó Deus, anunciarei o Vosso nome a meus irmãos enólogos pela alegria que nos dais ao degustarmos sobriamente o fruto da videira, lembrando que Vós,  no Vosso amor para conosco, deu-nos a graça de Vos termos sempre conosco, no sacrário de nossas igrejas, sob as espécies sacramentais do pão e... do vinho, consagrados pelo sacerdote, durante a Santa Missa.
             Assim seja. Amém.

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quarta-feira, 7 de junho de 2017

O CRISTÃO E O MUNDO SEM DEUS



            Volto ao tema, porque ele me parece importantíssimo em nossa peregrinação pelos caminhos muitas vezes tortuosos e espinhentos da vida.
            Em Português, a palavra "mundo"  comporta uma grande variedade de sentidos. Na cristandade da  Idade Média e em épocas posteriores o conceito de "mundo" era religioso,  além de que parecia algo que devia ser rejeitado e esquecido pelo crente.
             Para isto era sempre lembrada a primeira carta de João (2, 15-17) na qual eram os cristãos exortados:
             - "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Quem ama o mundo, não está nele o amor do Pai, porque todas as coisas do mundo, tais como a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o fausto da vida não vêm do Pai, mas do mundo. E quem faz a vontade do Pai permanece eternamente."
             É muito clara esta advertência, não deixando margem a nenhuma dúvida porque, neste caso concreto, "mundo"  é o reino do egoísmo e do pecado. O mundo, assim considerado, "não pode receber o Espírito Santo"  (Jo 14,7), porque a paz de Cristo não é um dom semelhante aos dons deste mundo. Com certeza, "mundo", neste sentido, deve ser tomado como uma "criação má", algo puramente material oposto por sua natureza ao mundo espiritual.
             Infelizmente, esta interpretação derivada do maniqueísmo e do agnosticismo nos foi imposta durante muito tempo no decorrer da História, como uma visão "tenebrosa" do mundo, carente da luz de Cristo e oposta à vontade de Deus.
             Entretanto, o mundo material, porque criado por Deus, no rigor do termo não pode ser "tenebroso", e nem por sua natureza se opõe a Deus. As trevas do mundo não estão no seu aspecto
material, mas unicamente no pecado de homem e mulher, que rejeitaram o amor de Deus, muitas vezes sob o pretexto de uma religiosidade mal compreendida. Neste sentido, o mundo "tenebroso"  não passa de um mundo sem amor, distante de Cristo, um mundo formado por pessoas enrodilhadas sobre si mesmas, egoístas e sem calor humano.
             Tradicionalmente, a oposição cristã ao "mundo" é uma oposição de fundo teológico, enquanto rejeita o mundo na medida em que confina a liberdade de homem e mulher numa escravidão a preconceitos e paixões, sumariamente descritos pelo apóstolo Paulo na sua Carta aos Romanos (1, 18-32).
            Creio que há, sem dúvida nenhuma, o lado positivo deste quadro. Se o cristão deve permanecer "no mundo", mas não ser "do mundo"  (Jo 15, 18-19; 17,11), deve entretanto permanecer no mundo como testemunho e manifestação de Cristo, que é a "luz do mundo" (Jo 8,12) e que por Sua morte e ressurreição expulsa  dele o mal e atrai homens e mulheres para Si, para um mundo novo, mundo este vivido pelo cristão, no qual  não há mais lugar para o mal, o ódio, a ganância, o egoísmo, a mentira, a frustração e o desespero; mas que, muito mais que isso, tem como seu trabalho
central e mais íntimo a realização das promessas salvíficas de Deus, no Reinado de Cristo e na Sua obra de redenção.
              A Fé cristã, ao confessar esta verdade, esta presença redentora de Cristo num mundo de pecado, e por isso mesmo pecador, assume a chave do sentido pleno de homem e de mulher, do mundo e da história, inclusive de todas as injustiça e desumanidades, que corroem a profundamente a vida humana.
              Precisamente porque a Fé não se baseia na evidência clara, externa e científica, mas na fidelidade ao Deus das promessas bíblicas, ela exige de nós um compromisso pessoal com a pessoa de Cristo, que ama o mundo e sua História, que redimiu homem e mulher, e que sustém a vida, o mundo e seu destino em Suas próprias mãos benéficas e benfazejas.
              E esta é a esperança que nos anima a caminharmos sem descanso, apesar de todos os pesares e percalços trazidos pelos nossos pecados, em busca deste Reino que nunca terá fim: o reinado de nosso Deus e redentor, Jesus Cristo, o Filho de Maria. Amém.  

sexta-feira, 26 de maio de 2017

VIDA PARA ALÉM DA MORTE



             Esta frase que serve de título ao meu texto de hoje, e lembrando-me também de meus filhos  inesquecíveis, minha  filha Raquel e meu filho Júlio, que flecharam o Céu buscando o Infinito, levou-me a meditar nesta manhã de sexta-feira e perguntar a mim mesmo: dentro da Fé que professo, se é possível uma visão positiva do fenômeno universal da morte. E a Fé que me anima responde-me que sim, porque dentro da vida humana há uma chance única na qual homem e mulher, pela primeira vez, nascem totalmente ou acabam de nascer, justamente na morte.
            Esta resposta pode ser profundamente frustrante, pois a morte sempre foi entendida como o fim da vida. Ela é dolorosa e triste como um final de festa ou como o derradeiro e definitivo aceno de uma despedida.
             A morte é, sim, o fim da vida. Ela marca a ruptura de um processo vital. Como que criando um corte entre o tempo presente e a eternidade. Mas ela, felizmente, cobre um aspecto apenas do ser humano: o biológico e o temporal. Homem e mulher  constituem algo muito superior ao biológico, porque são mais do que um animal. São também superiores ao tempo, porque suspiram pela eternidade do amor e da vida.
            Homem e mulher são pessoas, e mais que isso, interioridade. Para eles, a morte não é simplesmente um fim, mas um fim-plenitude, um fim alcançado, o lugar do verdadeiro e definitivo nascimento. Lembra-me a mulher grávida que, entre angústia, dor e esperança, segura o filhinho recém-nascido e murmura, agradecida: atingi, ó Deus, minha meta de mulher: sou mãe!
            Este fim-plenitude alcançado pela morte só é encontrado por nós na Fé. É nesta Fé que encontramos a base para a Esperança de que nossa vida não se perde no vazio do nada. Esta nossa convicção se baseia em Deus. Neste Deus que Se revelou na ressurreição de Jesus de Nazaré, e que ressuscitará também a nós pelo Seu poder infinito.
            E foi nesta Fé que meus filhos inesquecíveis, a Raquel e o Júlio, alcançaram, na morte, o seu nascimento definitivo, que é o Deus de Jesus Cristo e de todos nós, cristãos!


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