quinta-feira, 23 de março de 2017

SAUDADES DE MINHA FILHA RAQUEL




            Neste mês de março de 2017,  em que comemoramos, chorando, mais um ano após a morte de minha inesquecível filha Raquel, pus-me a meditar sobre o significado da morte de um ente querido, e, dentro da fé católica que professo, é possível uma visão positiva do fenômeno angustioso da morte? E a fé que me anima responde-me que sim, porque dentro da vida humana há uma chance única na qual homem e mulher, pela primeira vez, renascem totalmente ou acabam de nascer na morte. Com efeito, de acordo com meu mestre de Teologia na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, não há um problemático tempo intermediário entre a morte e a ressurreição, porque essa ressurreição acontece justamente no momento da morte.
            Esta opinião de meu mestre, Padre Leonardo Boff, pode ser profundamente frustradora, pois a morte sempre foi entendida como um final de festa, ou como o derradeiro aceno de uma despedida.
            A morte é, sim, o fim da vida terrena. Ela marca a ruptura de um processo vital. Como que criando um corte entre o tempo presente e a eternidade . Mas a morte, como eu a entendo, cobre  apenas um aspecto do ser humano, o biológico e o temporal.  Homem e mulher constituem algo muito superior ao biológico, porque são mais do que um animal. São também superiores ao tempo, porque suspiram pela eternidade do amor e da vida, numa esfera superior.
            Homem e mulher são pessoas e, mais que isso, interioridade. Para eles, a morte não é simplesmente um fim, mas um fim-plenitude, um fim-meta-alcançada, o lugar do verdadeiro e definitivo nascimento. Lembra-me a mulher grávida que, entre dor e angústia, mas iluminada por uma doce esperança, logo pode segurar o filhinho recém-nascido em seus braços, e murmura, agradecida: atingi meu fim, alcancei minha meta como mulher: sou mãe!
            Este fim-plenitude, que é alcançado pela morte, só pode ser encontrado em um espírito de fé.  É nesta fé que encontramos a base para a esperança de que nossa vida não se perde no vazio do nada. Esta nossa convicção  está profundamente fundada em Deus. Neste Deus que Se revelou na ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que ressuscitará também a nós pelo Seu poder infinito.
            E foi nesta fé que minha inesquecível filha Raquel alcançou, na morte, o seu nascimento definitivo! Junto ao Pai de todos os pais, junto ao qual não existe mais a morte, mas a Vida Eterna!
            
           

terça-feira, 21 de março de 2017

SAUDADES DA RAQUEL



                 Saudades da Raquel - no seu aniversário

                            Minha filha Raquel, que te partiste
                                          tão cedo, desta vida, descontente:
                                          repousa lá no Céu, eternamente,
                                          e viva eu cá na Terra sempre triste.

                                          Se lá no assento etéreo aonde subiste
                                          lembrança desta vida se consente,
                                          não te esqueças daquele amor ardente
                                          que em meus olhos de pai tu sempre viste

                                          E se vires que pode merecer-te
                                          alguma coisa, a dor, que me ficou
                                          da mágoa sem remédio, de perder-te,

                                           Roga a Deus, que teus anos encurtou,
                                           que tão logo daqui me leve a ver-te,                 
                                           quão cedo de meus olhos te levou!

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         I - Continuando viva entre nós, por essa humilde, invisível e misteriosa presença de cada dia, de cada hora, de cada momento, com que impregnamos de esperança a nossa saudade, como também a grande alegria da certeza de que ela, na Casa do Pai de todos os pais, passou a velar por nós, agora na plenitude de sua vida com Deus e com os santos do Céu. Foi  da Raquel bíblica que escolhi o nome para minha filha, ao batizá-la.
            Raquel, do hebraico "hael" (ovelha), era filha de Labão, irmão de Rebeca, e pertencia à linhagem do patriarca Abraão. Conheceu Jacó à beira do poço da aldeia e os dois logo se apaixonaram à primeira vista. Labão contratou Jacó para trabalhar durante sete anos para ele, em troca da mão de sua filha Raquel. Começou assim a história das doze tribos de Israel, o Povo de Deus.
            O texto bíblico mostra-nos Raquel como a mãe de José, o patriarca de uma grande tribo do Povo de Deus. - "Então Deus se lembrou de Raquel. Deus atendeu às preces dela, tornando-a fecunda. Ela concebeu e deu à luz a um filho, e disse: - "Deus retirou a minha desonra". Deu ao filho o nome de José, e rogou que Deus lhe desse mais um filho.
            A história da Raquel bíblica revela que os filhos dela com Jacó nasceram sempre com a ajuda direta de Deus, que interveio na vida dela e curou-lhe a esterilidade. Como nos conta a Bíblia, Deus se lembrou de Raquel, e ela deu à luz José, o patriarca da grande tribo que recebeu as bênçãos de Deus e que se destacou entre seus outros irmãos.
            A história das duas mulheres de Jacó, Lia e Raquel, personagens de um dois mais belos sonetos da língua portuguesa, pela pena mágica de Camões, e mães dos doze filhos que formaram as doze tribos de Israel, vem contada nos capítulos 29 a 31 do "Gênesis". Jacó trabalhava havia sete anos para seu tio Labão. Seu "salário" seria o casamento com a prima mais jovem, Raquel. Labão, porém, seguiu os costumes da região e, na noite de núpcias, introduziu furtivamente na tenda nupcial a filha mais velha, Lia.
            O autor bíblico diz que Lia era odiada, mas não revela quem a odiava. O pai a entregou a um homem que não a amava. A mulher que Jacó amava era realmente sua prima Raquel. Nas sociedades patriarcais a posição das mulheres era determinada pelo número de seus filhos. Lia tornou-se mãe de quatro. Com o nascimento de cada filho ela esperava ganhar o amor de Jacó, mas em vão. Foi uma mãe feliz pelos filhos que teve, mas mal amada pelo marido.
            A Bíblia narra com detalhes os nascimentos dos descendentes de Lia e de Raquel. Elas são as grandes matriarcas de Israel. Infelizmente, não havia meios para Lia, a irmã mais velha e menos atraente, de segurar o amor de seu marido. Até o fim da vida, Raquel foi a predileta de Jacó.
            Retornando ao nosso tempo atual: assim como para o tão grande amor de sua filha Isabela, de seus irmãos Carlos e Júnior, assim também foi tão curta a vida de Raquel, minha filha inesquecível. Mas, como a Raquel bíblica, que deixou dois filhos que foram os fundamentos do Povo de Israel, assim também minha falecida filha Raquel deixou uma filha, Isabela, que na sua radiosa personalidade, é a esperança e a alegria de seus velhos e sofridos avós.

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                                 II - Que Deus a tenha na Sua Paz

            17 de março de 2017 - Se minha filha Raquel fosse ainda viva até essa data , iria completar 50 anos de idade. Não podemos festejar seu aniversário natalício, apenas chorar, desconsolados, a sua ausência física dentre nós. A morte inexorável a levou para a Casa do Pai/Mãe de todos os pais e mães que ainda peregrinam pelas estradas deste mundo.
            Ela separou-se fisicamente de nós, mas passou a viver mais intensamente com sua filhas Isabela, com seus irmãos Carlos e Aroldo Júnior, e com seus chorosos pais, após o seu falecimento em 21 de agosto de 2010, em hospital de São José dos Pinhais, vitimada por insidioso câncer.
            Numa união misteriosa e singular no Espírito Santo, comunicada às coisas que deixou e aos acontecimentos do dia-a-dia em que viveu conosco por esse tão curto tempo, a verdade é que ela partiu para a eternidade, mas continua a viver conosco pela dor sem remédio da saudade.
           Sua morte fez com que a revivamos nos objetos em que tocou, nas vestes que deixou e que nós conservamos com carinho, na lembrança das palavras que com ela trocávamos, nos fatos alegres ou tristes que juntos vivemos, e agora até nos fatos que se seguiram à sua morte, e que nós lhe comunicamos diariamente na prece, e com ela conversamos como se estivesse ainda viva em nosso hoje solitário lar.
            A morte, destino de todos os viventes, a levou, mas a devolveu de novo a nós, banhada pela luz da Eternidade com Deus e pela gloriosa certeza de sua ressurreição NA morte, que é a Fé que anima e conforta seus pais, e que os mantém ainda vivos para cultuarem sua memóriabém a grande alegria da certeza de ela, na Casa do Pai de todos os pais, passou a velar por nós, agora na plenitude de sua vida com Deus e os santos do Céu.
            Nesta certeza, nós a temos sempre a nosso lado, em nossa vida de cada dia, velando por sua filha Isabela, por seus irmãos, por seus já idosos pais.
            Presença permanente nos labores do dia-a-dia, no silêncio e na solidão das noites indormidas, enxugando-nos as lágrimas da saudade que não passa.

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                          III - Vida para além da morte

            A morte de minha filha Raquel fez-me refletir sobre o seu sentido espiritual e, com isso, perguntar a mim mesmo: dentro da Fé cristão-católica que professo é possível uma visão positiva do fenômeno doloroso da Morte? E a Fé que me anima responde-me que sim, porque dentro da vida humana há uma chance única na qual homem e mulher, pela primeira vez, nascem totalmente ou acabam de nascer: na Ressurreição, que acontece justamente no instante da morte, como defendem os maiores teólogos da atualidade, contestando a doutrina tradicional, segundo a qual a Ressurreição só acontecerá no final dos tempos.
            Com isso, afirmo que a morte significa já o final dos tempos, o fim do mundo para a pessoa que morre. Na morte, homem e mulher entram num modo de ser que anula as coordenadas do tempo e passam para a atmosfera de Deus, que é a Eternidade. Já a partir deste ponto de vista se deve dizer que não é mais compreensível afirmar qualquer tipo de "espera", de "tempo intermediário" entre a morte e uma suposta Ressurreição no final dos tempos. Por isso, a "espera" pela Ressurreição no final dos tempos é uma representação mental inadequada ao modo de existir da Eternidade.
            Para acabar com esta concepção errada e muito comum, é preciso repetir sempre: na Eternidade não há tempo. A Eternidade é um eterno hoje, um eterno presente. Se na Eternidade não há tempo, como é que os mortos vão esperar o tempo final? O final dos tempos para a pessoa que morre é justamente o seu falecimento.
            Na morte, a pessoa, pela Ressurreição que acontece na morte, nem antes nem depois, entra no final dos tempos, e aí recebe a sua destinação final. Nesta concepção concordam os mais influentes teólogos dos tempos modernos.
            A morte sempre foi entendida como o fim da vida corporal. Ela é dolorosa e triste como um fim de festa ou como o derradeiro aceno de uma despedida.
            A morte é sim o fim da vida. Ela marca a ruptura de um processo. Como que criando uma cisão entre o tempo presente e a Eternidade. Mas ela cobre apenas um aspecto do ser humano: o biológico e o temporal. Homem e mulher constituem algo muito superior ao biológico, porque são mais do que um animal. São também superiores ao tempo, porque suspiram pela perenidade do amor e da vida.
            Homem e mulher são pessoa e, mais que isso, interioridade. Para eles a morte não é simplesmente um fim, mas um fim-plenitude, um fim-meta alcançada, o lugar do verdadeiro e definitivo nascimento, alcançado na Ressurreição. E eu tenho a firme convicção que a Ressurreição acontece no próprio instante da morte, como me ensinou o mestre em teologia, Frei Leonardo Boff.
Lembra-me a mulher grávida que, entre angústia, dor e esperança, segura o filhinho recém-nascido e murmura, agradecida: atingi meu fim: sou mãe!
            É nesta Fé que minha filha Raquel, alcançando na morte a sua Ressurreição, alcançou também o seu nascimento definitivo.
            Se a sua ausência física entre nós enche-nos de uma angustiosa e pungente tristeza, paradoxalmente, pela sua vida plenamente vivida, pela sua Caridade ardente por todos que a rodeavam, a certeza inabalável de que a Raquel descansa hoje no Reino de Deus, enche-nos também de uma radiosa  e prazerosa alegria...


                                        
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           IV - Descanse na paz do Senhor
           Neste 21 de agosto de 2013 , na Igreja Paroquial, durante a Santa Missa celebrada pelo Padre Alceu, em sufrágio da alma da Raquel, mais uma vez familiares, ex-companheiros de trabalho na Caixa Econômica Federal, e inumeráveis membros da comunidade paroquial, nos irmanamos na imorredoura saudade e no dolorido pranto por ocasião de mais um aniversário do falecimento de nossa inesquecível filha.
           A tristeza infindável que nos martiriza pela ausência física da pessoa amada é, paradoxalmente, aliviada pela alegria da certeza absoluta de que ela, pela sua vida cristãmente vivida, pela Caridade ardente que animava todo o seu relacionamento com as pessoas com quem convivia, descansa hoje na Bem-aventurança eterna, junto ao Pai de todas as vida.
           Com seu organismo debilitado pelo câncer que lhe corroía coluna vertebral, pulmões e cérebro, ela esperava a morte, com plena consciência, mas transfigurada pela resignação, pela acendrada confiança em Deus e pelo amor de toda a sua pequena família, que também sofria em comunhão com ela.
            Permanece a dor da saudade no coração de sua filha Isabela, de seus pais Aroldo e Cleusa, de seus irmãos Carlos  e Aroldo Júnior, que dedicam à saudosa Raquel este singelo poema nascido da dor, abrandada, porém, pela certeza de que ela repousa em paz junto ao "Abbá" de Jesus de Nazaré, junto ao Pai de todas as vidas:
                                                 Eu esperei a morte como se espera o Bem Amado
                                                 ignorava como ela viria
                                                 nem como viria
                                                 mas eu a esperava
                                                 e não havia medo nessa expectativa
                                                 havia somente ânsia e curiosidade
                                                 porque a morte do cristão é bela
                                                 porque a morte do cristão é uma porta
                                                 que se abre para mundos desconhecidos
                                                 mas imaginados
                                                 como o amor
                                                 que nos leva para um outro mundo
                                                 como o Amor
                                                 que nos promete uma outra vida
                                                 diferente da nossa
                                                 Eu esperei a morte como se espera o Bem Amado
                                                 porque eu sei que em breve ela viria
                                                 e me receberia
                                                 em seus braços amigos
                                                 Seus lábios frios tocarão a minha face
                                                 e sob a sua carícia
                                                 eu adormeceria o sono da Eternidade
                                                 como nos braços do Bem Amado
                                                 Sei que este sono
                                                 será um ressurgimento
                                                 porque sei que a morte é Ressurreição
                                                 é Libertação
                                                 é Comunhão Total
                                                 com o Amor Total e Infinito
                                                 do Pai de todas as vidas


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            V - O último andar
            Hoje, de manhãzinha, este velhote já meio careca, ralos cabelos brancos na cabeça,   bastante carcomido pelo peso de seus 81 anos, confessa francamente, de público, que chorou .Estava dando uma arrumadela em seus livros, na estante, e encontrou ali, meio escondido entre pesados livros de Teologia, um pequeno volume intitulado "Um olhar sobre a cidade", do saudoso Dom Hélder Câmara, falecido em 28 de agosto de 1999.
            O velhote chorou, confesso mais uma vez, porque encontrou na primeira página do livro esta dedicatória: -"Para o pão-duro, munheca e boco-moco do meu irmão, que esta oferta grátis faça que o próximo ano marque para Você uma maior abertura de si mesmo. Darcy".
            Darcy. Minha irmã. Quem tem a pachorra ou a curiosidade de entrar no meu "blog do mestre"
encontra lá uma espécie de poema intitulado "Meus dois amores", e nele se fala da Darcy que, procurando mais vida numa mesa de cirurgia, na vida encontrou a morte, ao lado de Raquel, aquela que lutando contra a morte num leito de hospital, na morte encontrou a Vida Eterna
            Pois é, ambas, meus dois amores: Darcy, minha irmã;  Raquel, minha filha
            Folheando o belo livro de Dom Hélder, encontrei lá nas últimas páginas um poema de Cecília Meireles, com o sugestivo título de "O último andar".
            Peço licença  à Cecília Meireles para transcrever aqui os versos maravilhosos que também me fizeram chorar:
                                         No último andar é mais bonito
                                         do último andar se vê o mar
                                         é lá que eu quero morar
                                         O último andar é muito longe
                                         - custa-me muito lá chegar -
                                         mas é lá que eu quero morar
                                         todo o céu fica a noite inteira
                                         sobre o último andar
                                         é lá que eu quero morar
                                         Quando faz lua
                                         no terraço fica todo o luar
                                         é lá que eu quero morar
                                         Os passarinhos lá se escondem
                                         prá ninguém os maltratar
                                         No último andar
                                         de lá se avista o mundo inteiro
                                         tudo parece perto, no ar
                                         É lá que eu quero morar



            Chorei de manhãzinha porque, relendo o poema de Cecília Meireles, lembrei-me da Raquel,
minha filha querida que flechou verticalmente o Céu em busca do infinito. E este infinito, novo nome para "O último andar", é ali que se tornou definitivamente a morada eterna da Darcy e da Raquel, ambas os meus dois amores.
           Ambas no último andar. Será vaidade querer morar no último andar, onde ambas agora estão morando? Se de lá se vê o mar, se a noite inteira todo o Céu fica sobre o último andar; se de lá se avista o mundo inteiro, como não querer ir para o último andar? Sobretudo se é lá, no último andar, que os passarinhos se escondem para ninguém os maltratar, como pode ainda haver dúvida, quanto a meus dois amores terem querido ir morar no último andar?
            Para os meus dois amores, a Darcy e a Raquel, como foi também para os santos do Céu, a morte não lhes apareceu como um horrendo esqueleto com uma foice nas mãos. Elas, como os santos, não tiveram medo de morrer. Se morrer, para elas, é ressuscitar,  sei que elas nunca falaram em morrer. Quando fosse o caso, elas falavam em ressurreição na morte, ou então preferiam falar em partir...
            E como fez São Francisco de Assis, uma que procurava mais vida, e procurando mais vida se
deparou com a morte, a outra, que lutava contra a morte num leito de hospital,  e lutando contra a morte, na morte encontrou a Vida Eterna, saíram ambas vitoriosas, porque saudaram a Morte como uma irmã querida, que veio para leva-las para a Casa da Vida Eterna.

Para o ´Ultimo Andar".



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domingo, 19 de março de 2017

Para a Isabela: um testemunho de dor


          Hoje, lembrando-me da Raquel, confesso que chorei. Antes de ela ser sua mãe, é minha filha, e por isso,  lembrando-me dos seus últimos dias neste mundo, não nego, chorei, e chorarei sempre que me lembrar dela.
          Seu fim eu o presenciei, dolorosamente, desta maneira:
          Certa manhã, estávamos na sala sua avó, eu e sua mãe, a Raquel. Num certo momento, a Raquel disse que ia subir para seu quarto, levantou-se e dirigiu-se para a escada. Eu vi que ela tentou três  vezes colocar o pé sobre o primeiro degrau, e não conseguiu. Senti um estalo na cabeça, imediatamente peguei o telefone e liguei para o Ecco Salva.
           Colocaram a Raquel em uma maca e a levaram para a ambulância. Eu fui junto. Chegando ao Hospital Erasto Gaertner e, examinada, o médico disse apenas: - Mega metástase!   
            Informando que o câncer tinha tomado todo o seu cérebro; fecharam-lhe a cabeça e ela ficou internada.
            Conversando com seu médico, ele me explicou que ela estava em estado terminal e que nada mais havia a fazer. Entrei no quarto e percebi que ela já sabia de seu estado. Ela me pediu que eu sentasse à beira da cama, pegou em minha mão, apertou-a até doer, e me disse: - Pai, você vai me  fazer uma promessa.
             Eu respondi que faria a promessa que ela quisesse, e ela então me disse que desejava que eu  fizesse Você, Isabela, feliz. Eu lhe prometi chorando. E assim foi. Mais tarde o médico entrou de novo no quarto, disse-nos que ia aplicar-lhe uma injeção para ela não sofrer mais. Como ela dormiu, voltei para casa, ficando sua mãe com ela.
            Hoje em dia, refletindo sobre esse fato, e sabendo por terceiros do costume do Erasto Gaertner, cheguei à conclusão de que, estando ela em estado terminal, a injeção que lhe foi aplicada era para apressar-lhe o fim, já que nada mais havia a fazer.
            Algum tempo depois, já em casa, tocou o telefone, era o Carlão que ficara com a Raquel no hospital, e disse que se quiséssemos vê-la ainda com vida, era para irmos imediatamente ao hospital. Você, querida Isabela, era muito pequena e achei que não deixariam você entrar, então sua avó foi sozinha, eu abracei você, nós dois sentados chorando à beira da cama, e ai  ficamos não sei por quanto tempo.
            De madrugada a Raquel morreu. Deixou este mundo de dor e sofrimento, e partiu para a Casa do Pai de todos os pais.
            Não sei onde foi o velório. Só sei que o sepultamento foi no Memorial da Saudade. Eu não consegui ir à beira do sepulcro onde ela estava sendo sepultada. Fiquei à distância, sentado em um banco, chorando. Só me lembro que um antigo vizinho, o senhor João, hoje ministro da Eucaristia na paróquia, sem dizer nenhuma palavra, sentou-se ao meu lado, silencioso, até terminar toda a cerimônia.  Dias atrás mandei-lhe um bilhete agradecendo sua atitude caridosa, simplesmente sentando-se ao meu lado, dando-me apoio e conforto, mesmo sem palavras, pois elas de nada adiantariam, diante das circunstâncias.
            Terminado o sepultamento, voltamos para a solidão de nossa casa, que continua solitária até os dias de hoje, apesar do valioso presente que a Raquel nos deixou, que é você, minha querida neta Isabela!

sexta-feira, 17 de março de 2017

SAUDADES DE MINHA FILHA RAQUEL



                                           Minha filha Raquel, que te partiste
                                           tão cedo desta vida, descontente,
                                           repousa lá no Céu, eternamente,
                                           e fique eu cá na Terra  sempre triste.

                                                              Se lá no assento etéreo, aonde subiste,
                                                              lembrança desta vida se consente,
                                                              não te esqueças daquele amor ardente
                                                              que em meus olhos de pai tu sempre viste.

                                          E se vires que pode merecer-te
                                          alguma coisa a dor, que me ficou
                                         da mágoa, sem remédio, de perder-te,

                                                             Roga a Deus, que teus anos encurtou,
                                                             que tão logo daqui me leve a ver-te,
                                                             quão cedo de meus olhos te levou!

                                  
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            Faz hoje cinco anos e sete meses que minha inesquecível filha Raquel partiu definitivamente para a Casa do Pai de todos os pais.
            Se ainda estivesse viva, faria hoje 50 anos de idade.
            Infelizmente, não podemos festejar seu aniversário natalício, mas apenas chorar, sua filha Isabela, sua mãe Cida, seus irmãos Carlos e Aroldo Júnior,e eu, seu pai que, chorando, escreve este texto.
           Todos nós, desconsolados, choramos a sua ausência física dentre nós.
          A morte inexorável a levou, enquanto sua pequena família, que ainda peregrina pelos caminhos deste mundo, o melhor que pode fazer é rogar a Deus para que Ele a tenha na Sua paz.
          Ela  separou-se fisicamente de nós, mas passou a viver mais intensamente do que nunca com sua filha Isabela, com seus irmãos e com seus chorosos pais, após seu falecimento  ocorrido em 21 de agosto de 2010, em hospital de São José dos Pinhais, Paraná, vitimada por insidioso câncer.
            Numa união misteriosa e singular no Espírito Santo, comunicada às coisas que deixou e aos acontecimentos do dia-a-dia em que viveu conosco por tão curto tempo, a verdade dolorosa é que ela partiu para a Casa do Pai de todos os pais e mães, na Eternidade, mas continua a viver conosco pela dor sem remédio da saudade.
            Sua morte faz com que a reavivamos nos objetos em que tocou, nas roupas que deixou, na lembrança das palavras que com ela trocávamos, nos fatos alegres ou tristes que juntos vivemos, e agora até mesmo  nos fatos que se seguiram à sua partida, e que nós lhe comunicamos diariamente nos momentos da prece, e com ela conversamos como se estivesse ainda viva em nosso lar.
            A morte, destino de todos os agora ainda viventes, a levou, mas a devolveu de novo a nós, banhada pela luz da Eternidade e pela gloriosa certeza de sua ressurreição NA morte, que é a Fé que anima seus pais, sua filha e irmãos, e que lhes permite cultuarem a sua imorredoura memória.
            Continuando ainda viva entre nós por essa humilde, invisível e misteriosa presença de cada dia, de cada hora, de cada momento, com que banhamos de esperança a nossa saudade, como também a grande alegria da certeza de que ela, na Casa do Pai, na Eternidade, passou a velar por nós, agora, na plenitude de sua vida com Deus.
            Neste certeza, nós a temos sempre a nosso lado, em nossa vida de cada dia, velando por sua filha Isabela, por seus irmãos, por seus já idosos pais.
            Presença permanente nos trabalhos do dia-a-dia, no silêncio e na solidão das noites quase sempre indormidas, enxugando-nos as lágrimas da saudade imorredoura!
           Descanse em paz junto de Deus Pai, minha filha, junto de Nosso Senhor Jesus Cristo, junto de Maria Santíssima, a quem Você amava acima de tudo, em sua curta mas frutuosa vida!

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segunda-feira, 13 de março de 2017

DIDAQUÉ - O CATECISMO DOS PRIMEIROS CRISTÃOS



            Neste mês de março comecei a ler a "Didaqué',  chamada também de "Catecismo dos Primeiros Cristãos". É um documento que me permite conhecer mais profundamente o começo da assim dita "Cristandade", pois é, sem dúvida, uma das fontes mais antigas de catequese. Apesar do título, o texto não reivindica ser da autoria de um dos doze apóstolos.
            Estudando-se a "Didaqué", geralmente se admite que ela foi compilada entre os anos 90-100 dC, na Síria, na Palestina ou em Antioquia. São poucos os estudiosos que hoje ainda defendem a tese da data cerca da metade do século II, isto é, ainda do tempo do apóstolo Paulo.
            O certo é que os antigos padres da Igreja conheciam a "Didaqué".
            Trata-se, é verdade, de uma compilação, cujos autores - um ou mais - nos são desconhecidos. Pertence ela ao gênero literário das constituições, servindo de manual de catequese à comunidade, num ambiente judaico-cristão e pagão, como o revela a sua lista dos vícios. Com a "Didaqué", inicia-se a reflexão teológica pós-apostólica propriamente dita.
            Os escritos dos "Padres Apostólicos", isto é, do tempo imediatamente posterior aos apóstolos, sem dúvida foram importantes para a constituição do cânon neotestamentário,  as origens da liturgia e as estruturas eclesiais.
            Nos primeiros capítulos da "Didaqué" pude perceber particularmente influências não-cristãs. Apesar disso, essa parte pode figurar na literatura  pastoral e catequética da Igreja primitiva  devendo, evidentemente, ser considerada toda ela, em suas múltiplas interdependências teológicas e literárias, como dizem os estudiosos, com vários outros documentos da época.
            Nos seus dezesseis capítulos, a "Didaquè" desenvolve os seguintes temas: Os dois caminhos, Deveres para com a vida e a prosperidade do próximo,  Advertência contra a paixão e a idolatria,  Deveres do senhor e dos escravos,  Do caminho da morte,  Perfeito é quem aceita o jugo do Senhor, Instrução sobre o Batismo, Sobre o jejum e a oração, Sobre a celebração da Eucaristia, Ação de graças depois da Ceia, Da hospitalidade para com os apóstolos e profetas, Da hospitalidade para com os outros, Deveres para com os verdadeiros profetas, Santificação do domingo pela Eucaristia, Eleição dos bispos e diáconos, A parusia do Senhor.
            Creio que é indiscutível a importância da "Didaqué"  para o estudo da história dos dogmas e da vida da Igreja. Trata-se de um documento  precioso por sua antiguidade, cujos autores nos são desconhecidos. O importante é que nesta pequena obra podemos encontrar nela a primeira e mais completa reflexão teológica advinda da era pós-apostólica.
            Tomo a liberdade de recomendar este livro a todos quantos têm responsabilidade no ensino da Teologia, da Catequese, e da Liturgia da Igreja.
            O texto que tenho em mãos é publicado pela "Editora Vozes", com introdução, tradução do original grego e comentários, assinados por Urbano Zilles.
 
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domingo, 26 de fevereiro de 2017

BESTEIRAS DE UM JUIZ

           

            Nos felizes tempos em que eu cursava a Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, na Capital paulista, a língua latina era a minha maneira predileta de comunicar-me com professores e colegas.  E até hoje, os oitenta e um anos que me pesam nas costas não me impedem de ler a Bíblia Sagrada em Latim.
            Tenho sempre em minha mesa de trabalho um livro de provérbios latinos que leio todos os dias. E um desses provérbios que mais me agrada é o seguinte: -"De mulieribus numquam satis" - que, em língua de gente, poderia ser traduzido mais ou menos assim: - "Das mulheres nunca se diz o suficiente"
            Pois a "Gazeta do Povo", que eu leio diariamente junto ao café da manhã, publicou tempos atrás  reportagem com um  certo juiz de Sete Lagoas, MG, em que o magistrado, comentando a "Lei Maria da Penha", afirmou com todas as letras, que a desgraça humana entrou no mundo através de uma mulher, "fato que todos nós sabemos...", reforça ele.
            Além da enorme besteira de uma leitura fundamentalista da Bíblia Sagrada, tomando como verdade indiscutível o que nela foi escrito há milhares de anos atrás, ou seja, tomando ao pé da letra o que não passa de um mito, o egrégio e machista juiz continua sua arenga proclamando que o mundo é masculino, que a idéia que temos de Deus é que Ele é masculino, que Jesus é masculino, que os anjos são masculinos, que Satanás é masculino, que o Céu e o Inferno são também do gênero masculino... E por aí, vai...
            Não sei se é por causa dessa sua esquisita obsessão ou por outra qualquer, o fato é que a então Corregedora Nacional da Justiça, a ministra Eliana Calmon, emitiu a opinião de que o juiz faria bem em submeter-se a um exame de sanidade mental, visto que suas estapafúrdias declarações à imprensa configuram uma certeira incitação ao preconceito machista contra a mulher.
            Com efeito, o então emérito juiz de Sete Lagoas declarou à imprensa  que a "Lei Maria da Penha" contém um conjunto de "regras diabólicas, e que não passam de um monstrengo tinhoso..."
            E eu, cá do meu canto, na minha Curitiba cantada em prosa e verso,  e devidamente assistido pelos meus fecundos 81 anos no costado, só posso desejar ao incauto Juiz que ele faça juz (sem trocadilho), ao merecido e, no meu modesto entender, pequeno descanso a que foi justamente (outra vez sem trocadilho) condenado!...
 
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O LIXÃO DA GRANDE METRÓPOLE



            Manchete do jornal:

            - "Pessoas, vacas, cavalos, urubus e cães vadios dividem espaço no lixão do Embocoí".

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            Alguém menos prevenido poderia achar normal semelhante cena, mas, no meu entender, um mínimo de percepção da realidade em que vivem vastas parcelas de nosso povo das periferias da  Capital, marginalizadas e desassistidas pelos poderes públicos, nos diz que o quadro é tremendo.
            Quando os primeiros caminhões da coleta do lixo urbano nem bem acabam de descarregar no lixão da metrópole , numa imitação trágica das histórias da carochinha, eles vêm, não se sabe bem de onde. Uns "moram" por perto, outros vêm de longe, chegam, encostam carrinhos ou abrem sacos, e começa a disputa: de um lado, seres humanos, ansiosos e tristes; do outro, urubus e cães vadios, famintos.
            Os bandos de urubus e de cães ficam à espreita. Descarregados os caminhões, eles avançam sobre o lixo; os enormes veículos não os assustam. Então aparecem os perigosos concorrentes: crianças, jovens, adultos, velhos, todos irmanados na ânsia de colher alguns restos que lhes proporcionem um minguado dinheirinho para as necessidades do dia-a-dia. Ávidos, começam a procurar e a catar. Tudo serve: restos de comida, latas, ferro velho, papel, garrafas descartáveis, latinhas de cerveja, plásticos, papelão. Qualquer coisa que possam comer ou vender. É o espetáculo gratuito da miséria.
            Assustando as aves da carniça e os cães, espantando-os, os párias da celebrada Capital "fuçam", como porcos, a imundície. Armados de paus e pedras espantam os cães e os urubus que tentam roubar-lhes o pouco que esperam recolher. Quando já conseguiram o suficiente para vender no ferro-velho ou nos depósitos de recicláveis, correm para trocar por míseros reais o que a busca lhes proporcionou.
           Outros, com menos sorte, depois de seguidas vezes mexendo e remexendo o grande amontoado de lixo, sentam-se sobre a sujeira, contemplando-a desiludidos, até que os tratores da Prefeitura venham fazer o seu serviço, esparramando-a e cobrindo-a de terra.
           A poucos passos do grande palco onde se representa o mais vergonhoso drama da vida real, erguem-se os barracos de mais uma das centenas de invasões de que sofre a metrópole. Das portas, mulheres encarquilhadas, mais pela fome crônica do que pela idade, contemplam seus maridos e filhos na árdua e triste batalha com urubus e cães vadios.
           Nada mais as impressiona. Quem mora em favelas ou em áreas de invasão acostuma-se a assistir a qualquer dessas cenas sem se emocionar. Crianças desnudas de ambos os sexos, brigas, palavrões atirados em altas vozes, pragas e imprecações são comuns no linguajar de adultos, adolescentes e crianças. A ingenuidade, a pureza e a delicadeza de sentimentos não existem, desde os mais tenros anos, para aquelas pobres vítimas da sociedade globalizada e egoísta.
           Quantas vezes, após uma busca prolongada, que resultou infrutífera, uma frágil menina-moça ou um garoto ainda imberbe aceitam o convite de um dos malandros que de longe os observam, e daí a pouco haverá um ou mais jovens a perambular pelas ruas da Capital, nos caminhos da prostituição ou do tráfico de drogas.
            Este é o espetáculo da marginalização, da miséria e da fome, à sombra dos arranha-céus da celebrada metrópole paranaense, cantada em prosa e verso.
            Diante de quadros como este, compreendo melhor o grito de revolta e de incontida indignação do grande romancista e polemista, além de cristão dos bons, que a França nos legou, Léon Bloy:
            - "Ah! Se torcessem vossas roupas de grife, elas haveriam de sangrar! Se espremessem esse automóvel de luxo e vissem como foi adquirido, vocês o achariam feito do pão arrancado à boca dos pobres. Quando recordamos que é preciso que uma criança sofra fome e frio num barraco gelado, para que uma menina cristã e rica desfrute das delícias de uma boa mesa junto à lareira, como nos custa esperarmos a justiça de Deus!"
 
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Aroldo Teixeira de Almeida é licenciado em Teologia Dogmática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Capital paulista.
 
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