segunda-feira, 2 de abril de 2018

A PÁSCOA ESPIRITUAL



             A Páscoa, que acabamos de celebrar, é a causa da salvação de todo o gênero humano, a começar pelo primeiro ser humano, que é salvo e vivificado em cada um de nós.
              Mas a salvação foi preparada por diversas instituições, imperfeitas e provisórias, que eram símbolos e imagens das coisas perfeitas e eternas, para anunciarem em esboço a realidade que surge atualmente à plena luz da verdade.  Contudo, uma vez que essa verdadeira realidade se tornou presente, a figura deixa de ter sentido. Quando chega o rei, ninguém, deixando de lado a pessoa própria do rei.
             Assim se vê claramente em que medida a figura é inferior à realidade verdadeira, pois a figura representa a vida breve dos primogênitos dos judeus, ao passo que a realidade celebra a vida eterna de todos os seres humanos.
            Não é grande coisa alguém livrar-se da morte por algum tempo, se pouco depois terá de morrer. O que é admirável é evitar a morte de uma vez para sempre, como aconteceu conosco por meio de Cristo, que foi imolado como nosso cordeiro pascal.
             O próprio nome da festa, se compreendermos o seu verdadeiro significado, nos sugere a sua peculiar excelência. Páscoa, com efeito, significa "passagem" , pois o anjo exterminador, que feria de morte os primogênitos dos egípcios, passava adiante, sem entrar nas casas dos hebreus. Todavia, em relação a nós, a passagem do exterminador é um fato, porque passou realmente sem nos tocar, a nós que por Cristo ressuscitamos para a vida eterna.
            E o que significa, em seu sentido místico, o fato de se determinar como início do ano, o tempo em que se celebrava a Páscoa e a salvação dos primogênitos?  Significa que também para nós o sacrifício da verdadeira Páscoa constitui o início da vida eterna.
        Na verdade, o ano é símbolo da eternidade. Sendo a sua órbita circular, o ano gira continuamente sobre ela sem nunca parar. Mas Cristo, pai do mundo novo, oferecendo-Se por nós em sacrifício, como que anulou a nossa existência anterior, proporcionando-nos, pelo batismo do novo nascimento, o começo de uma outra vida, à semelhança da Sua morte e ressurreição.
            Por conseguinte, quem tiver consciência de que a Páscoa foi imolada em seu benefício, deve aceitar como início de sua vida o momento em que Cristo se imolou por ele. Ora, tal imolação atualiza-se em cada um de nós quando reconhecemos essa graça e compreendemos que a vida nos foi dada por esse sacrifício.
            Quem chegou a esse conhecimento, esforce-se por aceitar o começo da vida nova, sem pretender voltar à vida antiga que foi ultrapassada. De fato, "se já morremos para o pecado,- pergunta o apóstolo Paulo - como vamos continuar vivendo nele?" (Rm 6,2). 

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A FACE HUMANA DE DEUS



            Quem é Jesus de Nazaré, que acabamos de celebrar semanas atrás, nas festividades do Natal?
            A Bíblia Sagrada nos afirma que Jesus de Nazaré é o Cristo de Deus, o Messias predito e esperado ansiosamente pelos profetas, com ênfase principalmente em Isaías, e que deveria vir ao mundo para trazer-lhe a salvação, conforme os desígnios de Deus.
             Na Sua humanidade, Jesus de Nazaré, convém insistir, não  é um Deus-homem  neutro, impessoal e distante, mas é o Verbo de Deus ou o Filho encarnado e que, feito homem, Se relacionou sempre, de modo pessoal e constante, com o Seu Abbá/Pai, e eu acrescentaria a esse Abbá/Pai, pela ternura com que Jesus O apresenta, a característica materna, designando-O por Abbá/Pai-Mãe.
             Celebrando a pessoa, a mensagem e os atos de Jesus na Sua vida pública nas estradas da Palestina, nós cristãos cultivamos aquilo que a Teologia chama de cristocentrismo, porque Cristo é o centro fundamental da obra de salvação querida por Deus, e que Jesus nos trouxe e testemunhou pela Sua morte e ressurreição.
             Não nos esqueçamos, porém, que o cristocentrismo, por sua própria natureza, é teocêntrico,
porque Jesus de Nazaré nos revela o mistério de Deus de modo único e incomparável. Assim, estudando a Cristologia, descobrimos que o cristocentrismo atinge as suas culminâncias, abrindo-nos caminho para o mistério do Deus/Trindade. Em Jesus Cristo, na Sua encarnação por obra do Espírito Santo, o Verbo de Deus entrou pessoalmente, na história humana, baixou até nós para fazer-nos participantes de Sua filiação divina. Por isso, confessamos, com certeza absoluta, que o acontecimento Jesus Cristo é a história humana de Deus.
             Afirmamos que nessa história humana o Filho assumiu por nossa causa revelar-nos o segredo da intimidade divina: o Pai, que é fonte, a origem; o Filho, que vem eternamente do Pai e, através do Filho, o Pai nos envia eternamente o Espírito Santo. Mostrando-nos essas relações interpessoais, cerne da intimidade e da comunhão divina, o evento Jesus Cristo nos ensina que "Deus é Amor",
na memorável intuição do evangelista João, e que o amor que Deus é transborda abundantemente até a nossa humanidade.
            Em Jesus de Nazaré Deus Se revela um "Deus diferente". Não no sentido de que Ele é outro Deus, mas no sentido de que Ele é o Deus Único, e que nos falou e Se comunicou conosco pessoalmente, na pessoa de Seu Verbo feito carne, Jesus de Nazaré. Em consequência, Jesus é para nós, então, a "face humana" de Deus. Essa imagem de Deus impressa no rosto de Jesus constitui a realidade de um Deus que, livremente, por amor, quis, nos termos admiráveis do apóstolo Paulo, auto-esvaziar-Se em Sua própria auto-doação. Em Jesus, Deus Se tornou "o Deus-para-homem-e-mulher-de-modo-humano", como nos desvela o teólogo e pastor luterano Bonhoeffer, num texto inesquecível.
            Livre em Sua auto-doação, o Deus de Jesus de Nazaré é também um Deus que nos liberta e nos resgata, transmitindo-nos, de forma humana, a liberdade gratuita com que Deus-Pai nos liberta para sermos filhos seus, conforme vários textos paulinos.
            Em Jesus de Nazaré, nossa história humana se tornou também história de Deus. Para sempre e pessoalmente, Deus Se uniu com a humanidade, por um vínculo indissolúvel, e permanece comprometido conosco de maneira irrevogável, num diálogo de salvação e de dom de Si mesmo, pelo Seu Espírito Santo, que nos inspira e nos mostra o caminho do autêntico seguimento de Cristo.
            Todo este elenco de verdades sobrenaturais está implícito nas festividades do Natal de Jesus, que acabamos de celebrar semanas atrás em todas as igrejas do mundo inteiro.

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Aroldo Teixeira de Almeida é bacharel em Teologia Sistemática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Capital paulista.

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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

AOS MEUS FILHOS E NETOS



            "Como um sopro se acabam os nossos anos. Pode durar setenta anos a nossa vida; os mais fortes talvez cheguem a oitenta."  (salmo 89).
            Foi meditando nestas palavras do salmo 89, que rezo diariamente na "Liturgia das Horas", é
que  me decidi a escrever-lhes esta carta, parafraseando, aliás, uma outra escrita pelo professor Afonso Antoniuk. Ele, com certeza, é também pai e avô, e por isso compreenderá o por quê eu me atrevi a imitá-lo.
            Em janeiro entro no meu octogésimo segundo ano, dentro, portanto, dos limites estabelecidos pelo salmista. Sendo assim, talvez muito em breve, ou talvez com maior demora, quando este velhote meio careca já não for o mesmo, peço-lhes a caridade de terem comigo um pouco mais de paciência e compreensão.
            Quando eu derramar sopa ou café na roupa, ou esquecer de amarrar os cordões dos também velhos sapatos, lembrem-se das muitas vezes em que passei um bom tempo mostrando a vocês como amarrar os seus.
            Quando amigos e vizinhos vierem conversar comigo e vocês me ouvirem repetir sempre as mesmas histórias de antigamente, e que vocês já sabem de cor e salteado como é que terminam, não me olhem com olhos gozadores, nem me interrompam. Lembrem-se de que, quando eram pequenos,
à beira de seus leitos eu lhes contava centenas de vezes a mesma história do Chapeuzinho vermelho e do lobo mau, até que o sono chegasse, e vocês conseguissem adormecer. Sem esquecer, é claro, que muitas vezes eu me atrevia até a cantarolar com voz desafinada ingênuas cantigas de ninar, quando o sono lhes custava a chegar.
            Quando me virem embasbacado e ignorante diante da parafernália eletrônica que hoje é café pequeno para vocês, tenham paciência e não me lastimem com sorrisos zombeteiros. Lembrem-se de que fui eu quem lhes ensinou as primeiras letras e a vencerem os obstáculos da vida, como agora vocês o fazem muito bem, manuseando com maestria teclados de computadores, engenhosos celulares ou cordas de guitarras elétricas.
            Quando eu for à igreja e demorar muito a sair de lá, atrapalhado entre os bancos ou porque me foi difícil encontrar a saída, sejam pacientes e saibam que dezenas de vezes me dirigi a esse lugar santo para pedir a Deus que nunca faltasse nada aos meus filhos e netos, nem alimentos, nem passeios, nem divertimentos sadios, nem tudo aquilo que pudesse dar-lhes alegria e torna-los contentes e felizes.
            Quando me faltarem as pernas no caminhar, e nem a bengala conseguir manter-me em pé,
deem-me suas mãos para ajudar-me a trocar os passos, como eu fiz com vocês para ensiná-los mais depressa a andar.
            Se porventura eu molhar ou sujar as roupas íntimas por conta da incontinência própria da velhice, não me censurem, pois quantas vezes eu ajudei sua mãe ou avó a trocar as fraldas sujas ou molhadas de vocês...
            Peço-lhes agora, e isto é muito importante para mim, perdão pelas minhas constantes ausências naqueles tempos já distantes em Barbosa Ferraz, vocês ainda crianças, ir e voltar do trabalho, manhã, tarde e noite, deixando-os dormindo de manhãzinha e encontrando-os adormecidos à noite, isto me fazia sofrer muito. Mas deveu-se à luta pela subsistência e para conseguir, com meu trabalho diuturno, proporcionar-lhes o melhor, o que nem sempre foi possível fazer, e aqui também lhes peço compreensão.
            Quando me ouvirem dizer que estou cansado  da vida e que me custa muito carregar nas costas oitenta e dois anos de idade, não fiquem zangados nem tristes, pois algum dia vocês entenderão que o que digo não contradiz o carinho e o amor que sempre tive por vocês.
            Não fiquem chorosos ao me verem encurvado e trêmulo, muitas vezes perdendo o equilíbrio e desabando no chão, deem-me as mãos, ajudem-me a levantar e me amparem, como eu os acompanhei em suas caminhadas, e eu lhes devolverei gratidão e sorrisos pela atenção que tiverem comigo.
            E se eu, em consequência da idade, começar a esquecer os seus próprios nomes e até a confundir uns com os outros, por caridade, nunca se esqueçam de mim!...
           
            Seu pai, e seu avô, Aroldo.

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sábado, 18 de novembro de 2017

MEUS DOIS AMORES



                                             Darcy minha irmã
                                             quarenta e quatro anos
                                             Raquel minha filha
                                             quarenta e três anos
                                             ambas meus dois amores

                                              morte e vida severina
                                              
                                              ambas na minha memória
                                              Darcy
                                              numa mesa de cirurgia plástica
                                              procurando mais vida
                                              na vida encontrou a morte
                                             
                                               morte e vida severina

                                              Raquel
                                              num hospital a sofrer
                                              lutava contra a morte
                                              mas lutando contra a morte
                                              na morte encontrou 
                                              a Vida  eterna 
                                                
                                               morte e vida severina

                                              Darcy e Raquel
                                              ambas meus dois amores
                                              descansem na Casa do Pai
                                              do Pai de todos os pais

                            


                              
                               

                                  
                                             


                                       




                                             

                                              
                 
                                             
                                             
                                              
                                             
                                            

                                             

                                                                                          


                                  

                                             


                                             
                                             



                                           

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

CUIDAR DE QUE OU DE QUEM?



                  Eis aí uma questão que nos obriga a refletir:  a Caridade nos convoca a estarmos sempre prontos a atender às necessidades de todos quantos nos rodeiam, sem distinção de classe, de cor, de religião. Como quer que seja, somos todos irmãos em Cristo, e responsáveis cada qual pelas necessidades e carências de cada um.  Neste sentido, o desafio prático do cuidado com o outro consiste na determinação de seu objeto. Que valor, que pessoa, que causa, que bem, merece o esforço pessoal de nosso cuidado?
                 Por vezes a perspectiva da retribuição facilita a escolha, quer haja apenas reciprocidade ou até mesmo lucro. Muitos fenômenos de nossa vida de cada dia podem ser analisados do ponto de vista do cuidado: expressam escolhas de objetos privilegiados por e para nosso cuidado com o outro.
                 Como quer que seja, o preceito é amar o  próximo como a si mesmo, onde e como ele estiver, e amar a Deus conjuntamente.
                  A humanidade, no fundo, não mudou muito depois do poeta latino da antiguidade romana, Ovídio, que estudei nos tempos de ginásio, e que em seus escritos dizia que "a humanidade não mudou muito, porque o que conta sempre é o poder do dinheiro. Ele consegue honras, ele consegue amizades e, com isso, o pobre é sempre pisoteado."
                  O crente piedoso reza sem saber como se entrosam o cuidado que cabe a nós e o cuidado para com o divino. A oração de pedido, muito exercida entre nossa gente, entende pressionar o cuidado divino num sentido que sempre nos pareça favorável, esquecendo-se de que o cuidado divino em resposta à nossa oração de pedido não toma obrigatoriamente a forma de milagre contrário às leis naturais quando atendido.
                  Diz-nos o catecismo que Deus age normalmente pelo jogo normal da natureza, de modo que o mesmo acontecimento pode, de um certo ponto de vista, explicar-se cientificamente e, de outro ponto de vista, ser atribuído pelo crente à vontade de Deus, no plano da oração de pedido e de ação de graças.
                 De qualquer maneira, o cuidado brota num contexto de solidariedade. Seu horizonte terrestre, humano, é a justiça e a paz. Muitos, entretanto, não conseguem ver que a paz, como todo bem, possui seu preço a pagar, pois resulta em benefício pessoal, este interesse pessoal sem o qual a maioria das pessoas não é capaz de levantar um dedo.
                Frequentemente se esquece que  cuidar das coisas que se referem a Deus, cuidar da terra, cuidar do próximo, é também cuidar de si mesmo, tarefa de toda uma vida.
                É sempre bom pensar nisso de vez em quando.

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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O PROBLEMA DO MAL E O DILEMA DE EPICURO



            "Ou Deus quer eliminar o mal do mundo, mas não pode, ou pode, mas não quer eliminá-lo, ou não pode nem quer; ou pode e não quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode  e não quer, não nos ama; se não pode nem quer, não é o Deus bom e, ademais, é impotente. Se quer e pode - e isto é o mais seguro - então, de onde vem o mal e por que Ele não o elimina?",  (Epicuro, apud Lactâncio,  in "Ira Dei" - "A ira de Deus)."


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            Nesse livro, escrito provavelmente em 313, Lactâncio adverte os partidários de Epicuro de que Deus não é somente bondade, mas também é justiça vindicativa contra os maus.
            Antes de entrar no tema em foco, peço licença ao benévolo e eventual leitor, para uma ressalva: quando,  pelas minhas colocações, pareço atribuir a Deus a responsabilidade pela presença  do mal físico e moral no mundo,  ou uma alusão mais desairosa à Igreja,  isto não representa necessariamente, e em sua totalidade, o que penso a respeito. Minha intenção é provocar uma reflexão mais aprofundada sobre alguns problemas da vida eclesial e da Teologia, porque não podemos instalar-nos sobre as conquistas já feitas, sob o pretexto de coisa definitiva e absoluta. Tratando do problema do mal no mundo, eu o trato sob as perspectivas abertas por Andrés Torres Queiruga, em três de suas obras: "Do terror de Isaac ao Abbá de Jesus", "Recuperar a Salvação", e "Creio em Deus Pai". E o cito:
            -"Desde que a primeira mãe deu à luz com dor e a primeira criança nasceu chorando, foi posto o problema. A vida humana está assediada pelo mal, o mundo está cheio de crucificados, e surge a pergunta pelo porquê disso tudo. Pergunta inaugural e permanente". (Andrés Torres Queiruga, "Teologia em Diálogo").
             Lendo também o livro de H. Bechert, "Buddismus", na página 322, em que ele fala da concepção budista do nirvana como símbolo da aniquilação absoluta da existência pessoal, encontrei um dito que vem muito a propósito do que pretendo tratar neste nosso diálogo: -"Tudo é dor."
             À  primeira vista, nada tão oposto ao Deus de Jesus de Nazaré, que conhecemos pelos Evangelhos como Pai de amor e de bondade infinita, que a presença do mal no mundo criado por Ele, presença terrível e sem remédio, que se estende por todos os tempos e a todos os seres, sem exceção. Em forma de catástrofe cósmica, de enfermidade e sofrimento  orgânico, de padecimento ou deformação física ou moral, o mal se ergue como uma barreira,  aparentemente intransponível, entre a sensibilidade espontânea do homem e mulher, e a bondade presente em Deus.
             "O problema do sofrimento e do mal está na raiz de numerosas crises de Fé. Se Deus existe, por que este fracasso, esta morte prematura, esta traição ao nosso amor, este acidente de trânsito, esta doença que me faz sofrer, esta perda de emprego, este revés na vida?" (Missal Dominical, segundo domingo da Quaresma).
             Andrés Torres Queiruga, ao tratar do tema em seu livro "Do Terror de Isaac ao Abbá de Jesus", nos lembra que, considerando-se em abstrato a onipotência divina, impõe-se reconhecer que, em pura honestidade lógica, as alternativas propostas pelo Dilema de Epicuro são insuperáveis. Com efeito, nessa perspectiva, se no mundo há mal, é porque Deus onipotente não quer eliminá-lo. E da mesma forma, se considerarmos o dilema sob o prisma da possibilidade de um mundo sem mal, e se apesar de tudo, o mal existe, é porque o Deus   "bom" não pode evitá-lo.
             Sendo assim, não seria o ateísmo a única solução lógica para o ser humano acossado pelo mal sem remédio, conforme  proclama pelo mundo inteiro o profeta do ateísmo moderno, Richard Dawkins, com seu livro recente, "Deus, um delírio?"
             Diga-se o que se disser, apresentem-se os mais consoladores argumentos, recorra-se à teodiceia ou à retórica piedosa, atéia ou agnóstica, o fato é que um "deus" que em si mesmo fosse     impotente e limitado não seria Deus. Um "deus" bom que, podendo, não quisesse evitar o imenso horror do mal no mundo, tampouco seria Deus. Inclusive, qualquer pessoa simples e decente estaria em patamar superior a esse pretenso "deus", pois ninguém  que possua um mínimo de humanidade deixaria, se estivesse em seu poder, de acabar com a miséria e a fome de milhões de crianças em vastas áreas do planeta, com o espanto dos crimes e das guerras, do terrorismo sem freio, ou com os tormentos da doença e da morte.
             Este é o dilema que proponho à consideração do prezado e benévolo leitor.
             Como católico, lembro que o Concílio do Vaticano II abriu a Igreja Católica para o mundo, arejou o marasmo em que se encontrava a sua teologia, e se tornou uma alvorada de esperança para as pessoas de boa vontade de toda a ecumene e, na sequência, o novo Código de Direito Canônico, a seguir publicado, deveria continuar esta abertura e inserção no mundo, mas o Código frustrou as expectativas ao insistir na centralização do poder eclesiástico na Cúria Romana, castrando assim a colegialidade do episcopado e a efetiva participação do Povo de Deus nas decisões de interesse de suas comunidades.
             Tomo aqui a liberdade de fazer ao benévolo leitor os seguintes questionamentos: a Igreja Católica, tanto em nível local como em nível universal, continuará exibindo essa estrutura fortemente piramidal, conforme o espírito do  Concílio Vaticano I, em uma única mão, a do  Papa? ou, ao contrário, estará mais próxima das bases eclesiais, segundo o Vaticano II?  Ou ela continuará centralista ou pluralista, dogmática ou dialógica, de forma ingenuamente autocentrada ou, apesar de todas as dúvidas da Fé, capaz de encarar decididamente o futuro?
             Neste enfoque, trago um texto do grande e controvertido teólogo suíço, Hans Kung, no seu livro "Teologia a Caminho".  A citação é um tanto longa, mas creio que é de suma e vital importância para o que venho tratando até aqui. A seguir:
             - "A Igreja Católica procurou conservar seu paradigma medieval e da Contra Reforma até o Concílio Vaticano II, por meio de decretos autoritários, sanções disciplinares e estratégias políticas. (...) Ela se refugiou na centralização e burocratização. Será que a imposição autoritário-inquisitorial por parte da Cúria, de uma estrutura hierárquico-burocrática corresponde à situação religiosa pós-moderna, embora essa estrutura fosse legitimada e elevada à condição de dogma de fé pelo Vaticano I (1870)? Será que a atual ressacralização dessas estruturas eclesiais, (no pontificado de João Paulo II), feudais e pré-modernas, é a resposta correta à situação religiosa pós-moderna de esvaziamento de um catolicismo culturalmente hermético e fechado em si mesmo?"
             O certo é que não podemos permanecer enclausurados na repetição por assim dizer mecânica de um passado morto, mas devemos abrir-nos para a recriação autêntica de uma experiência que há de ser tão atual como a refletida nos textos tradicionais e que exige de nós seja traduzida em palavras vivas que falem à nossa compreensão, e alimentem as possibilidades de nossa vida e de nossa história, nos tempos em que vivemos. Gostemos ou não, temos que pagar nosso tributo à pós-modernidade e aos sinais dos tempos, como diria o saudoso João XXIII.
             Devo dizer que não aceito uma leitura literalista ou fundamentalista da Bíblia Sagrada, isto é, tomar ao pé da letra o que nela está contido,  sem uma segura exegese histórico-crítica de seu conteúdo. Muitas denominações evangélicas fazem isto, e acabam resvalando para os maiores absurdos. Vários setores do catolicismo também o fazem, inclusive boa parte do "Catecismo da Igreja Católica" e a comunidade "Canção Nova", sem esquecer, é claro, a maioria das pregações nos púlpitos de nossas igrejas. Por causa dessa leitura fundamentalista da Bíblia, há muitas verdades que os cristãos, católicos e protestantes, afirmam, mas no íntimo chegam a não crer nelas. São demasiadas as palavras da Bíblia que dizem aceitar, mas suspeitando que alguma coisa pode não ser bem assim como está nela.
             Diz-nos o teólogo Andrés Torres Queiruga ("Recuperar a Salvação") que atualmente, diante dos progressos da pesquisa e da hermenêutica bíblica, nem o mais conservador dos teólogos pode - embora o pretendesse - levar ao pé da letra a estrela de Belém, ou a fuga para o Egito, ou a ascensão física de Jesus atravessando as nuvens para chegar ao Céu. Como dificilmente poderá "crer" na milagrosa entrada de uma legião de demônios numa vara de porcos, nem na moeda na boca do peixe para pagar o imposto devido aos romanos.
             E mais:
              - Quem é capaz de pensar que Deus castigou durante milênios a milhões de seres humanos por um pecado pretensamente atribuído a nossos primeiros pais, quando nenhuma pessoa decente é capaz de maltratar uma criança, por maior que seja o crime que seu pai ou sua mãe tenham praticado?
             - Acredita-se que o pecado de Adão e Eva tenha sido transmitido ao longo da linhagem masculina de acordo com santo Agostinho. Que tipo de filosofia ética é essa, que condena todas as crianças, mesmo antes de nascer, a herdar o pecado de um ancestral remoto?
            - Qual a mãe que poderia crer de verdade que sua pequenina criatura recém-nascida, diante da qual seu coração se desfaz em ternura, está em pecado e condenada a nunca fruir da visão beatífica, se morrer antes de ser batizada?
             Felizmente a nova liturgia do Batismo, após o Concílio Vaticano II, abandonou aquela esdrúxula fórmula usada até tempos atrás, quando o sacerdote, depois de soprar três vezes sobre o rosto da criança a ser batizada, dizia com voz enfática: -"Sai dela, ó espírito imundo, e dá lugar ao Espírito Santo Paráclito..."
             - Em que cabeça cabe que Deus pudesse exigir a morte violenta de Seu filho feito homem, Jesus de Nazaré, para resgatar os pecados da humanidade, como lemos nos manuais de piedade em uso por aí?
             William P. Loewe, em seu livro "Introdução à Cristologia", adverte-nos de que esta maneira de falar "pode levar a imagens grotescas de Deus como um tirano sanguinário, que exige a morte de um filho inocente para apaziguar Sua ira, imagens da morte de Jesus como um caso supremo de crueldade divina contra o próprio filho."
             Esta afirmação de Loewe é corroborada por Joseph Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI) em "Introdução ao Cristianismo", pág. 208:  _ "Diante da atitude expressa em certas práticas religiosas impõe-se, praticamente, a convicção de que a Fé cristã na cruz se baseia na imagem de um Deus que, em Sua justiça intransigente, exige de um pai o sacrifício de um ser humano, o sacrifício do próprio filho.  Aterrorizadas, muitas pessoas mais sensíveis viram as costas a uma justiça que, com sua ira sinistra, torna implausível a mensagem do amor."
            - É aceitável a monstruosidade de um Deus que, chamado  "Pai" pelos cristãos, tenha exigido de um outro pai, Abraão, que lhe sacrificasse seu filho único e querido, Isaac, como prova de obediência?
          -  Quem pensaria hoje em louvar a Deus dizendo que Ele é um guerreiro que "Se cobriu de glória afundando no mar cavalo e cavaleiro", como rezamos semanalmente na "Liturgia das Horas"?
           - Quem veria hoje um gesto de fidelidade e religiosidade profunda no cumprimento de um voto que, como no caso de Jefté, no livro dos "Juízes", implicava sacrificar a Javé sua filha inocente?
           -  "Se Deus previu o pecado de Adão  com todas as suas funestas consequências, e não tomou medidas bem seguras para evita-lo, carece de boa vontade para com o homem... e se fez tudo o que pôde para impedir a queda do homem e não o conseguiu, então voltamos ao dilema de Epicuro: não é todo-poderoso como supúnhamos." (Pierre Bayle, "Réponses aux questions", citado por Queiruga, em "Recuperar a Salvação").
             A respeito do problema do pecado de Adão ser transmitido a toda a sua descendência, o teólogo luterano Pannemberg, em sua "Teologia Sistemática II", tem colocações muito oportunas que peço licença para citar:
             -"Foi rejeitado como revoltante para a sensibilidade ética a afirmação de que Deus teria imputado o pecado de Adão a seus descendentes como culpa, ainda antes que tivessem cometido, de sua parte, qualquer ato mau. Este princípio, imputar aos filhos de Adão o pecado de seu ancestral, pareceu inconciliável com a fé na justiça de Deus e em Seu amor que perdoa."
             - "Pode-se conceber que um Deus que é amor, na ousada afirmativa do evangelista João, se dedique a castigar com tormentos inauditos e por toda a eternidade, no assim dito inferno, um ser humano que em momentos de fraqueza tenha cometido uma ação que os moralistas chamam de mortal?
             - "E sem falar que o teólogo oficial da Igreja até tempos atrás, São Tomás de Aquino, tenha afirmado na sua "Suma Teológica" (questão XCIV, art. III) que a contemplação dos tormentos padecidos pelos condenados no inferno aumenta o gozo dos bem-aventurados no Céu?"
             Verdadeiro absurdo.
              Estes são apenas alguns exemplos do modo de falar dos cristãos, mas que não tem mais lugar hoje em dia, diante de uma leitura crítica da Bíblia Sagrada. Nesta leitura é de fundamental importância que se faça uma distinção urgentíssima entre aquilo que os autores bíblicos pensavam em seu tempo, e tudo aquilo que nós, aprendendo com eles, devemos pensar nos dias de hoje.
             Voltando finalmente ao dilema de Epicuro, não importa a que deus se refere ele, seja Marduc, Baal, Moloc, Júpiter, Javé, ou outro qualquer do panteão dos povos. O que interessa é que o seu questionamento atravessou os séculos, e tem intrigado filósofos e teólogos; teses e livros têm sido escritos sobre tal dilema, tanto entre católicos como entre protestantes. Inclusive homens sem religião, agnósticos, ateus, ou como Hegel, Kant, Kierkegard, Feuerbach, entre outros, se debruçaram sobre esse famoso dilema, e cada qual deles procurou dar-lhe uma resposta, o que nem sempre conseguiram.
             "Admitir que o mal tem sua origem na liberdade e no livre arbítrio do ser humano não é capaz de desonerar o Criador da responsabilidade por essa Sua criação. Seja qual for o modo como a criatura é livre, ela é criatura de Deus justamente nessa sua liberdade."  (Pannenberg, "Teologia Sistemática", II).
              Este é o âmago da questão, e é por esse âmago que Epicuro questiona os sábios de seu tempo, e esse fato ressoa até os dias de hoje, como nos atesta Torres Queiruga ao tratar do tema em vários de seus livros:
              - "Existe Deus? Se existe, onde está Ele, quando nos acontece uma desgraça, ou nos sentimos infelizes? Como se situa Ele em nossa vida e em nossa história? "
              E eu ponho ponto final no meu blog de hoje propondo, ao  eventual e benévolo leitor, dois pensamentos que me perturbaram durante todo o tempo em que redigia este texto:
               - "Toda a ciência do mundo não vale as lágrimas de uma criança que sofre, implorando a Deus, em vão, o fim desse sofrimento."  (Dostoievski, "Os irmãos Karamazov").
               - "Eu me recuso até à morte amar uma criação na qual crianças, seres inocentes, são torturadas." (Camus, "A Peste").

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(Quem visitar o Hospital Pequeno Príncipe, ou o setor de cancerologia do Hospital Erasto Gaertner, ambos aqui em Curitiba, poderá ser testemunha pessoal da terrível verdade das palavras do romancista russo).

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