quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Carta aberta a meus filhos e netos

                                    CARTA ABERTA A MEUS FILHOS E NETOS

          - "Como um sopro se acabam os nossos anos. Pode durar setenta anos a nossa vida; os mais fortes talvez cheguem a oitenta." (Salmo 89)

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      Queridos filhos e netos:

      Foi meditando nestas palavras do salmo 89, que rezo diariamente na Liturgia das Horas, é que me decidi a escrever-lhes esta carta. Hoje estou com 80 anos, dentro, portanto, dos limites estabelecidos pelo salmista. Sendo assim, talvez muito em breve, ou talvez com maior demora dentro dos desígnios de Deus, quando este velhote meio careca já não for o mesmo, peço-lhes que tenham paciência e compreensão.
      Quando eu derramar  sopa, café ou remédio na roupa, ou me esquecer de amarrar os cordões dos meus velhos sapatos, lembrem-se das muitas vezes em que passei um bom tempo ensinando a Vocês como amarrar os seus.

      Quando amigos e vizinhos vierem conversar comigo e Vocês me ouvirem repetir sempre as mesmas histórias de antigamente, e que Vocês já sabem de cor e salteado como terminam, não me olhem com olhos gozadores nem me interrompam. Lembrem-se de que, quando eram pequenos, à beira de seus leitos eu lhes contava dezenas de vezes a mesma história do Chapeuzinho Vermelho e do Lobo Mau até que o sono chegasse e Vocês conseguissem adormecer. Sem esquecer, é claro, que muitas vezes eu até me atrevia a cantarolar com voz desafinada cantigas de ninar, quando o sono lhes custava a chegar.

      Quando me virem todo embasbacado e ignorante diante da parafernália eletrônica que hoje é café pequeno para Vocês, tenham paciência e não me lastimem com sorrisos zombeteiros. Lembrem-se de que fui eu quem lhes ensinou as primeiras letras e a vencerem os obstáculos da vida, como Vocês fazem muito bem agora, manuseando com maestria teclados de computadores, engenhosos celulares ou cordas de guitarras elétricas.

      Quando eu for à igreja, e demorar muito a sair de lá, atrapalhado entre os bancos, ou porque me foi difícil encontrar a saída, tenham compreensão, e saibam que dezenas de vezes me dirigi a esse lugar santo para pedir a Deus que nunca faltasse nada aos meus queridos filhos e netos, nem saúde, nem alimentos, nem lazer, nem tudo aquilo que pudesse dar-lhes alegria e torná-los contentes e felizes.

      Quando me falharem as pernas ao caminhar, e nem a bengala conseguir manter-me em pé, dêem-me suas mãos para ajudar-me a trocar os passos, como eu fiz com Vocês para ensiná-los mais depressa a andar.

      Se porventura eu molhar ou sujar as roupas íntimas, não me censurem, pois quantas vezes eu não ajudei sua mãe ou avó a trocar as fraldas sujas ou molhadas de Vocês?

      Peço-lhes agora, e isto é muito importante para mim, perdão pelas minhas constantes ausências naqueles tempos já distantes em Barbosa Ferraz. Ir e voltar do trabalho de magistério, quarenta e quatro aulas semanais, manhã, tarde e noite, deixando-os dormindo de manhãzinha e encontrando-os adormecidos à noite, isto me fazia sofrer muito. Mas deveu-se à luta pela sobrevivência e para conseguir proporcionar-lhes o melhor, o que nem sempre foi possível fazê-lo, e aqui lhes peço também compreensão.

      Quando me ouvirem queixar-me que estou cansado da vida e que me custa muito carregar o peso dos anos, não fiquem zangados nem tristes, pois algum dia entenderão que o que digo não contradiz o carinho e o amor que sempre tive por Vocês.

      Não fiquem chorosos ao me verem encurvado e trêmulo; dêem-me seus corações, compreendam-me e me apóiem, como eu fiz quando Vocês começavam a viver. Como eu os acompanhei ao iniciarem suas caminhadas, acompanhem-me ao terminar a minha. Dêem-me amor e paciência, e eu lhes devolverei gratidão e sorriso pelo imenso amor que sinto por Vocês.

      E se eu, em consequência da idade, começar a esquecer os seus próprios nomes e até a confundir uns com os outros, por favor, façam-me esta caridade: não se esqueçam de mim!

      Seu pai e avô, Aroldo.



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                                            MORTE - ESPERANÇA E SAUDADE


            Os mortos, que nos são queridos (falo agora de minha filha Raquel, que há um ano e meio nos deixou), passam a viver mais intensamente conosco depois da morte. Embora acompanhados dessa chaga incurável em vida, com que nos deixaram, ao passarem para a Vida Eterna. Pois essa união conosco, depois da morte, não é nenhuma espécie de materialização espírita ou mesmo parapsicológica. É uma união singular no Espírito, comunicada às coisas ou nos acontecimentos. É nesse sentido que a morte é um desdobramento da vida.
      Ao partirem, os mortos que mais queremos, continuam a viver conosco uma vida quotidiana. Nos mais simples e íntimos momentos de nossa vida normal Sua morte, a morte dos bem-amados, no caso da morte de minha filha Raquel, nós os revivemos no seu amor pela sua filha de doze anos, Isabela, nos objetos em que tocou, nas palavras que com ela trocávamos, nos fatos que juntos vivíamos na alegria e nos dissabores, até mesmo naqueles fatos novos que se seguiram à sua partida, que nós lhe comunicamos e com ela conversamos e debatemos como em vida.
      Com ela e depois dela revivemos os momentos mais íntimos e quotidianos de nossos afetos, os vestidos dela conservados no guarda-roupa, os sapatos que usava para o trabalho, a vida social, o lazer; os grampos com que ela prendia os cabelos longos. Inclusive a peruca que lhe cobria a cabeça após as dolorosas sessões de quimioterapia a que se submeteu dezenas de vezes.
      Tudo revive. As coisas passam a ter uma vida nova. Uma vida nova banhada de Esperança e de Saudade. Levou-nos quem amávamos, mas continuamos a amá-la ainda mais nessa nova vida ressuscitada na morte e portanto sem mais risco de ser perdida. Mas a restitui também, multiplicada por essa sua presença na filha que deixou, na sua presença em tudo que fez e viveu na sua curta vida, e que agora se tornam muito mais vivos, porque banhados de eternidade.
     E também muito mais dolorosos, porque evocadores da implacável e dura separação. Mas a morte de quem tanto amamos é uma passagem, e isto para nós é uma imensa consolação, é a passagem de uma presença precária e finita, para uma presença perene e permanente. Perene na eternidade. Perene na saudade. Permanente no tempo.
      Revivendo a nosso lado, por essa humilde e invisível presença de cada dia, de cada hora, de cada momento, com que banhamos de esperança a nossa saudade. E paradoxalmente, também de alegria,  pela certeza de que nossa morta querida passou a velar por nós em sua vida de plenitude junto a Deus. Velar pela sua filha Isabela, pelos seus pais, pelos seus irmãos.
      E a reviver conosco, a nosso lado, a nossa vida mais íntima de cada dia.
      No silêncio doloroso de cada noite.


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3 comentários:

  1. Ô Paizão!!

    Nós é que temos que lhe agradecer por tudo o que você fez por nós. Tudo o que somos hoje é graças à criação que tivemos e aos valiosos ensinamentos que recebemos.

    Pode ter certeza que estaremos sempre ao seu lado... seja para te apoiar num momento de fraqueza, como também para tomarmos juntos uma garrafa de um bom vinho.

    Te amos muito!!!!!!!!!

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    1. Taí: estou esperando ansioso essa garrafa de um bom vinho!

      Paizão

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  2. ...devolverei gratidão e sorriso pelo imenso amor que sinto por Você...foi muito bom te conhecer,VÔ.Espero poder ter em meu coração, as palavras lindas que saem do teu.
    Que DEUS abençoe tua família.

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