segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

                                                   SAUDADES DA RAQUEL


      Faz cinco anos que minha filha Raquel faleceu. Morte cheia de angústia e sofrimento causados pelo câncer que lhe invadiu a coluna vertebral, o cérebro e o sistema linfático. Tenho meditado quase que diariamente nesse doloroso mistério que é a morte, principalmente a daqueles e daquelas que amamos e que viveram conscientemente uma vida de fé.
      É verdade que a morte cristã, como a de minha filha, se acompanha frequentemente de angústia, mas esta angústia nada tem a ver com o medo vil que sente quase sempre o arreligioso, o agnóstico ou o ateu, diante do imponderável que os aguarda. A angústia do cristão moribundo é apenas a angústia mística, o pressentimento, o temor ante a magnitude do mistério de Deus; é o frêmito de todo o seu ser à beira dessa mudança radical que dissolve e recompõe o corpo de pecado para o transfigurar em corpo de glória na ressurreição, e esta ressurreição eu a creio sinceramente como realizada na morte. É abandono humano, solidão, deserto de Deus; porém, no seio desse deserto, Deus fala, além da noite dos sentidos e do espírito. Por muito profunda que possa ser a angústia da morte para o cristão, ela é acompanhada por uma alegria que excede o sentimento.
      As mortes cristãs, além da angústia, são também doces, mas de uma doçura diferente da serenidade estóica dos arreligiosos, dos agnósticos e dos ateus. Essas angústias são aceitas, às vezes desejadas, como no caso dos santos, que pediam a Deus para sofrerem cada vez mais, a fim de salvar os outros, porque aqui se encontra o mistério da Páscoa: embora a morte cristã, a morte de Jesus de Nazaré, pareçam humanamente falando, trevas e angústias, são também alegria; e se essa alegria é aparentemente idêntica à angústia, idêntica à agonia de suor e sangue, não é porque seja ilusão, mas porque é sobre-humana, ultrapassando todo o entendimento. É uma alegria sobrenatural, divina, um dom de Deus.
      O cristão e a cristã, por sua fé, têm certeza da vitória de Cristo sobre a morte; as angústias que eles experimentam são as angústias de Jesus na cruz; elas resplandecem de alegria em meio aos sofrimentos e às trevas, ou ao pretenso abandono de Deus: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" - gritou Jesus de Nazaré na cruz.
      No livro de Georges Bernanos, "Diário de um Pároco de Aldeia", que acabo de ler pela terceira ou quarta vez, seu personagem principal, o vigário da aldeia, está consciente desta verdade; ele pronuncia, ao morrer, uma das mais belas frases que encontrei na literatura do século passado: "Tudo é Graça!" A razão teológica deste fato é que, na angústia da morte cristã, há a experiência do deserto, o deserto bíblico que todo homem e mulher devem atravessar para se unirem a Jesus no Calvário. No Calvário, porém, está a ressurreição, cujos primeiros vislumbres a alma cristã recebe já nos umbrais da morte. Aliás, eu sempre mantive a crença de que a ressurreição não é um futuro problemático, em um também problemático fim dos tempos. Para mim o fim dos tempos para cada um de nós ocorre justamente na morte, e é aí, na morte, que Deus nos concede a graça da ressurreição. Ressurreição NA morte.
      Na morte cristã é certo que pode haver vestígios de um medo, de um pânico da sensibilidade exaltada, mas não há apenas isso. Embora esse medo exista, só atinge um corpo já quase abandonado de todo, entregue aos reflexos naturais da matéria que se esvai.
      Digo que este medo pode existir, mas sob uma alegria misteriosa, sob misteriosa serenidade. Conheceu-a muito bem minha filha Raquel, quando murmurava na sua longa e dolorosa agonia: "Meu Deus, seja feita a Vossa vontade." Ela dizia Vossa vontade, pensando em Deus e não se queixando das atrozes dores que a atormentavam.
      Minha filha Raquel, na sua agonia sofreu muito. Só depois que recebeu uma injeção de morfina é que se acalmou e morreu em paz. Algum tempo antes, apertou tanto a minha mão, que até doeu. E me pediu, entre lágrimas,  que lhe prometesse fazer feliz sua filha Isabela, então com doze anos. E eu, entre lágrimas também, lhe prometi, e é o que tenho tentado fazer até hoje, apesar dos protestos de parentes, que dizem que estou sendo exagerado, e até prejudicando a menina. Isto não me impressiona. Tenho consciência de que estou cumprindo uma promessa sagrada, e tentarei cumpri-la enquanto viver.
      É pela sua morte sofrida e cheia de angústias, pelos indizíveis sofrimentos por que passou, e muito mais pela sua vida, que tenho a íntima certeza de que a Raquel ressuscitou na morte, e agora está em paz no Reino do Pai, velando por sua filha Isabela, velando por seus pais e irmãos.

Um comentário:

  1. Meu querido professor, impossível não chorar, diante de um relato tão emocionante e lindo, o amor, sentimento que transborda em você, me permita tratá-lo de você, é muito maior que qualquer censura por parte de outros. Ame, ame com todas as suas forças, pois o amor move o mundo, ame sua neta, seus filhos, sua esposa, seus amigos. Acredito que se o Senhor lhe dá a graça da vida, é porque tem a missão de amar e ensinar, sobre a vida, sobre Deus. Não conhecia este querido de Deus. Sempre o admirei por sua imensa inteligência, certa vez achei que fosse ateu. Fico tão feliz por saber que você tem Deus, porque ama intensamente. Você é meu irmão querido e espero vê-lo na promessa de uma terra nova governada por Deus, onde não há choro, onde viveremos em paz e com Deus para sempre, onde não há morte, separação e nada de ruim.
    Fique em paz, esteja em paz, ame sua neta e os seus, nossa Raquel está bem, tenha esta certeza.
    Abraço grande com amor e muita fé.

    ResponderExcluir