domingo, 19 de março de 2017

Para a Isabela: um testemunho de dor


          Hoje, lembrando-me da Raquel, confesso que chorei. Antes de ela ser sua mãe, é minha filha, e por isso,  lembrando-me dos seus últimos dias neste mundo, não nego, chorei, e chorarei sempre que me lembrar dela.
          Seu fim eu o presenciei, dolorosamente, desta maneira:
          Certa manhã, estávamos na sala sua avó, eu e sua mãe, a Raquel. Num certo momento, a Raquel disse que ia subir para seu quarto, levantou-se e dirigiu-se para a escada. Eu vi que ela tentou três  vezes colocar o pé sobre o primeiro degrau, e não conseguiu. Senti um estalo na cabeça, imediatamente peguei o telefone e liguei para o Ecco Salva.
           Colocaram a Raquel em uma maca e a levaram para a ambulância. Eu fui junto. Chegando ao Hospital Erasto Gaertner e, examinada, o médico disse apenas: - Mega metástase!   
            Informando que o câncer tinha tomado todo o seu cérebro; fecharam-lhe a cabeça e ela ficou internada.
            Conversando com seu médico, ele me explicou que ela estava em estado terminal e que nada mais havia a fazer. Entrei no quarto e percebi que ela já sabia de seu estado. Ela me pediu que eu sentasse à beira da cama, pegou em minha mão, apertou-a até doer, e me disse: - Pai, você vai me  fazer uma promessa.
             Eu respondi que faria a promessa que ela quisesse, e ela então me disse que desejava que eu  fizesse Você, Isabela, feliz. Eu lhe prometi chorando. E assim foi. Mais tarde o médico entrou de novo no quarto, disse-nos que ia aplicar-lhe uma injeção para ela não sofrer mais. Como ela dormiu, voltei para casa, ficando sua mãe com ela.
            Hoje em dia, refletindo sobre esse fato, e sabendo por terceiros do costume do Erasto Gaertner, cheguei à conclusão de que, estando ela em estado terminal, a injeção que lhe foi aplicada era para apressar-lhe o fim, já que nada mais havia a fazer.
            Algum tempo depois, já em casa, tocou o telefone, era o Carlão que ficara com a Raquel no hospital, e disse que se quiséssemos vê-la ainda com vida, era para irmos imediatamente ao hospital. Você, querida Isabela, era muito pequena e achei que não deixariam você entrar, então sua avó foi sozinha, eu abracei você, nós dois sentados chorando à beira da cama, e ai  ficamos não sei por quanto tempo.
            De madrugada a Raquel morreu. Deixou este mundo de dor e sofrimento, e partiu para a Casa do Pai de todos os pais.
            Não sei onde foi o velório. Só sei que o sepultamento foi no Memorial da Saudade. Eu não consegui ir à beira do sepulcro onde ela estava sendo sepultada. Fiquei à distância, sentado em um banco, chorando. Só me lembro que um antigo vizinho, o senhor João, hoje ministro da Eucaristia na paróquia, sem dizer nenhuma palavra, sentou-se ao meu lado, silencioso, até terminar toda a cerimônia.  Dias atrás mandei-lhe um bilhete agradecendo sua atitude caridosa, simplesmente sentando-se ao meu lado, dando-me apoio e conforto, mesmo sem palavras, pois elas de nada adiantariam, diante das circunstâncias.
            Terminado o sepultamento, voltamos para a solidão de nossa casa, que continua solitária até os dias de hoje, apesar do valioso presente que a Raquel nos deixou, que é você, minha querida neta Isabela!

Nenhum comentário:

Postar um comentário