segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O CRISTÃO E O SEU CORPO



            Compulsando os dados históricos, verificamos que na antiguidade a concepção maniqueísta causou grandes lutas ao Catolicismo. Em certas épocas o maniqueísmo era o adversário mais forte e mais perigoso do Catolicismo na conquista do Ocidente. Nessa luta, o perigo foi tanto maior, quanto mais o maniqueísmo penetrara na hierarquia eclesiástica, sob formas camufladas, pois havia muita semelhança  aparente entre a abstinência dos cristãos e a dos maniqueus.
            O Apóstolo Paulo já lutara contra ambos os extremos maniqueus na comunidade de Corinto, em cujo porto marítimo não só havia o comércio de bens materiais entre o Oriente e o Ocidente, mas também a troca de idéias. Ao lado dos laxistas, que gozavam o sexo à maneira da comida e da bebida diárias, o Apóstolo combateu igualmente os rigoristas cristãos, que queriam desprezar o matrimônio, julgando-o pecaminoso em si.
            A História conta-nos que também Tertuliano apostatou, porque não concordava com o "laxismo" do Papa Calixto, que readmitia, na comunidade eclesial, tais pecadores quando convertidos.
            E o grande Orígenes foi tão fiel discípulo de Platão que, reverenciando a hostilidade ao corpo, castrou-se a si mesmo. Talvez o caso de Orígenes exemplifique melhor a penetração maléfica do dualismo platônico e maniqueísta na ascese cristã. Mas, ao mesmo tempo, também mostra a reação decidida da autoridade eclesiástica e a prontidão com que desde os primórdios a Igreja lutou contra tais idéias extremistas.
           As tendências maniquéias, contudo, conseguiram infiltrar-se no monaquismo oriental. Isto foi possível, porque as formas externas da ascese maniquéia mal se distinguiam da cristã. As formas externas do rigorismo manifestam-se particularmente na habitação, na alimentação, na veste, na renúncia total ao conforto, ao banho, no gênio inventivo para toda a espécie de extravagâncias penitenciais, de flagelações, etc.
           Tudo isso hoje nos parece nada mais que uma caricatura monstruosa da virtude cristã. Por outro lado, nos desertos da Síria florescia uma espiritualidade equilibrada, como nos mostram os exemplos de Santo Atanásio, São Basílio e muitos outros.
            O grande organizador do monaquismo ocidental, São Bento, combateu conscientemente esses exageros advindos do menosprezo moral do corpo. Consciente das suas consequências nefastas, deixou-se guiar por uma visão mais harmoniosa do humano.
            Enquanto Antônio e Pacômio apenas permitiam uma refeição diária, que consistia de vegetais e raízes, e exigiam abstinência total de carne e vinho, sono curto, veste pobre e suja de seus monges, São Bento concedia duas refeições diárias e, aos que exerciam trabalhos pesados,  até mais. Além disso, tolerou o consumo do vinho e da carne. Ademais, exigia que em viagens e aos domingos os monges vestissem roupa boa, que se banhassem, dormissem bem, para melhor louvar a Deus no santo ofício.
            Esta concepção harmoniosa da pessoa humana abriu os beneditinos à cultura, tornando-os pioneiros da cultura ocidental moderna. Somente ulteriores reformas da ordem vulneraram a harmonia original da visão de São Bento.
            A virtude cristã não consiste na idolatria do corpo, nem na sua hostilidade. Na linguagem totalizante da Bíblia, os conceitos de carne e espírito têm outra consonância, que na filosofia grega ou racionalista. Ora servem para acentuar um, ora outro aspecto de uma e mesma realidade.
            Assim, o Antigo Testamento não fala da queda do corpo humano e sim da queda do homem. E Cristo não veio para redimir almas, mas para redimir homens e mulheres, e com eles todo o cosmos material. No  juízo final não ressuscitarão almas, mas homens e mulheres.
           A Graça Batismal santifica nosso corpo nas suas últimas fibras, tanto que podemos exclamar com o Apóstolo Paulo:
            - "Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?"
            O cristão realiza-se tanto mais e melhor, quanto mais, a exemplo de Cristo nos Evangelhos, harmonizar em si a dimensão física e espiritual, individual e social, de sua personalidade.

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Aroldo Teixeira de Almeida, professor aposentado de Português e Francês, do Quadro Próprio do Magistério Paranaense, é bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da PUC da Capital paulista.
           


       

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