quarta-feira, 13 de junho de 2012

A PRECE QUE LIBERTA


     
      Somos convidados a orar, orar sempre, em todos os instantes de nossa vida. Mas somos também convidados a fazer que nossa prece não seja uma palavra que divide, pois se há quem creia na prece e nela sempre se apóie, há também muitos para quem a prece é já um capítulo superado.
      O fato é que todos nós, de uma maneira ou de outra, fazemos nossas preces, no sentido de manifestarmos nossos desejos mais íntimos e mais profundos, seja a Deus, seja a quem nos rodeia.
      Que prece poderá fazer em comum a família dos que creem na Fé, na Esperança e na Caridade, na crença sincera de que estas três virtudes teologais sejam a alavanca que conduza a humanidade  e o mundo ao encontro da justiça, da paz e da fraternidade?
      Que os nossos olhos se abram e comecemos pela urgência de superar o próprio egoísmo, sair de nós mesmos e nos dedicarmos, ainda que às custas de quaisquer sacrifícios pessoais, à luta não violenta por uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais humana!
      Que não deixemos para amanhã: comecemos hoje, agora, sem arrebatamentos passageiros, com decisão, firmeza e pertinácia!
       Que olhemos em volta para descobrir irmãos e irmãs, marcados pela mesma vocação de dizer adeus ao comodismo e de marcar encontro com todos os que têm fome de verdade e juraram dedicar a vida tentando abrir através da justiça e do amor, caminhos para a paz familiar e social.
       Que não percamos tempo em questiúnculas paroquiais, em divisões confessionais, em discutir lideranças de bairro ou de organizações; que o importante para nós seja unir-nos e caminhar, firmes, para o nosso objetivo, lembrados de que o tempo corre contra nós.
      Que demos o melhor de nós mesmos à  missão, através da qual, assim esperamos, a pressão moral libertadora da sociedade organizada se tornará capaz de atingir as indispensáveis mudanças de estruturas, principalmente na política e na administração da coisa pública, acabando com essa corrupção desenfreada que vai solapando a base de nossa democracia.
      Que sejamos capazes do máximo de firmeza e de rigor, sem cair no ódio,  no combate implacável a todo deslize funcional de nossos servidores públicos, e principalmente sem cair, com eles, na convivência com o mal.
      Façamos nossa a prece de Francisco de Assis, e seja ideal de nossa vida concretizá-la em todos os nossos atos do dia a dia:

      Senhor, fazei de mim um instrumento de Vossa paz¹
      Onde há ódio, que eu traga o amor.
      Onde há ofesnsa, que eu traga o perdão.
      Onde há discórdia, que eu traga a união.
      Onde há erro, que eu traga a verdade.
      Onde há dúvida, que eu traga a fé.
      Onde há desespero, que eu traga a esperança.
      Onde há trevas, que eu traga a luz.
      Onde há tristeza, que eu traga a alegria.
      Ó Mestre, possa eu preferir
      Consolar, que ser consolado.
      Compreender, que ser compreendido.
      Amar, que ser amado,
      Pois:
      É dando que se recebe;
      É no auto-esquecimento que se pode ser encontrado;
      É perdoando que se é perdoado;
      É morrendo, que se ressuscita para a Vida Eterna!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

PARTIR... CAMINHAR...



      Meu último texto foi "Caminhar pelos caminhos da vida". Este, com outras palavras, continua o mesmo assunto: Partir... Caminhar... Pelas estradas da vida. Em busca da Casa do Pai.
      Partir é, antes de tudo, sair de si mesmo. Romper a casca de egoísmo que tende a aprisionar-nos dentro do próprio e exclusivo eu.
      Partir é não rodar, permanentemente, em torno de si, numa atitude de quem, na prática, se considera o centro do Mundo e da vida.
      Partir é não rodar apenas em volta dos problemas do meio a que pertencemos. Por mais que esse meio em que vivemos nos seja prazeroso, maior é a humanidade que nos rodeia e que temos a obrigação de servir.
      Partir, mais do que devorar estradas, cruzar mares ou atingir velocidades supersônicas, é abrir-se aos outros, ao nosso próximo, descobri-lo, ir-lhe ao encontro.
      Partir é abrir-se às idéias, inclusive contrárias às próprias, demonstrar fôlego de bom andarilho, de bom caminheiro. Feliz de quem entende e vive este pensamento que encontrei num livro do saudoso Dom Hélder Câmara, dos meus tempos de estudante de teologia: -"Se discordas de mim, tu me enriqueces."
      Ter ao próprio lado quem só sabe dizer amém, quem concorda sempre, para começo de conversa não é ter um companheiro de jornada mas, sim, uma sombra de si mesmo. Desde que a eventual discordância não seja sistemática nem proposital, que seja fruto de visão diferente da realidade, a partir de ângulos novos de conhecimento, ela constitui de fato um enriquecimento.
      É possível partir e caminhar sozinho. Mas o bom viajante, o bom peregrino, sabe que a grande caminhada é a própria vida, e esta supõe e exige companheiros. Companheiro, etimologicamente, diz-nos o dicionário, é quem come o mesmo pão, em comunidade.
      Feliz de quem se sente em perene caminhada e de quem vê no próximo um eventual e desejável companheiro de jornada.
      O bom caminheiro pelas estradas da vida preocupa-se com os companheiros desencorajados, sem ânimo, sem esperança de chegar ao fim da caminhada. Adivinha o instante em que esse companheiro desanima e se encontra a um palmo da desistência. Conforta-o onde ele se encontra. Deixa que desabafe e, com inteligência, com habilidade e, sobretudo com amor, ajuda-o a recobrar ânimo e voltar a ter gosto na caminhada.
      Partir por partir, caminhar por caminhar não é ainda verdadeiramente caminhar.
      Caminhar é partir à procura de metas, é prever um fim, uma chegada, um desembarque prazeroso.
      Lembremo-nos que há caminhada e caminhada.
      Para os que buscam um objetivo, uma meta a alcançar, um alvo a atingir, partir, caminhar significa mover-se e ajudar muitos outros a se moverem também, na procura de tudo fazer para colaborar na construça de um mundo mais justo e mais humano, para si e para os companheiros de jornada.
      Partir... caminhar... Mas à procura de quem se transviou, se perdeu nos caminhos tortuosos da vida, para mostrar-lhe a estrada certa que deve palmilhar, para mostrar-lhe que toda estrada bem palmilhada leva definitivamente, sem erros ou desvios, à Casa do Pai!
  

domingo, 10 de junho de 2012

CAMINHAR PELOS CAMINHOS DA VIDA


      É bom caminhar. E eu o faço diariamente, desde manhãzinha. Saio de casa bem cedo para buscar o pão para o café. E procuro, no bairro, a padaria mais distante, justamente a pretexto de caminhar. Utilizo pouco os ônibus do transporte coletivo. Só quando tenho urgência para chegar ao meu destino é que os utilizo.
      Com isso, cheguei à conclusão de que caminhar é expressão tão profunda e tão bela, que não se aplica apenas à marcha que nossos pés realizam, pelos caminhos da vida, pelas ruas da cidade, ou estradas a fora... Se caminhar fosse apenas isso, já seria muito proveitoso.
      Gosto de percorrer as ruas do bairro, já conheço todo o Tingui, o bairro onde moro.  Adoro caminhar pela Avenida Erasto Gaertner do começo ao fim, não me importando com o barulho e a poluição dos ônibus, caminhões e carros que a tornam um verdadeiro carrossel desordenado. Gosto mais ainda quando caminho por ela à noite ou de manhã, quer esteja ela cheia de gente, ou quer esteja quase vazia, o que é difícil de acontecer.
     Gosto de percorrer estradas, sobretudo quando nelas há árvores, muitas árvores, sombras acolhedoras, às vezes até cantos de passarinhos, coisa rara no tumulto da Capital.
      Hoje, não sei se porque à noite sonhei com minha querida filha Raquel, recentemente falecida, mas o fato é que me levantei de manhãzinha pensando nas caminhadas que se dizem espirituais. Caminhar, sinônimo  de não parar, não se acomodar, mas avançar sempre, progredir nas caminhadas da Fé, da Esperança, do Amor.
      Caminhar na compreensão humana, fugindo de qualquer conflito com meus irmãos de caminhada. Em lugar de apressar-me em julgá-los ou condená-los, entendê-los sempre mais, pois cada criatura de Deus é única e insubstituível.
      Caminhar sobretudo na capacidade de ouvir. Quanto falo, na maioria das vezes, inutilmente! Como tenho dificuldades em dar a vez aos outros, aos que me circundam, aos que desejo que aceitem minhas opiniões, que considero as melhores do mundo!
      Caminhar, sobretudo, na capacidade de dialogar. Dialogar não é fazer de conta que se escuta os outros, e já trazer minhas conclusões prontas e definitivas.
      Dialogar é pesar e prezar os argumentos válidos que os companheiros de jornada me apresentam. Saber vencer e, principalmente, saber perder.
      Muito melhor do que vencer sempre, é conseguir unir-nos com quem discutimos, para que, juntos, consigamos ver mais dentro da realidade e ir mais longe, do que ficando isolados no meio do caminho...
      Caminhar também na compreensão da natureza: em lugar de caçoar de quem fala em ouvir o silêncio das coisas; em lugar de achar cafona e pueril a alegria dos que amam ouvir o farfalhar das árvores, o murmúrio das fontes, a luz das estrelas. o canto dos pássaros, a sinfonia da chuva sobre os telhados.
      Saber que a Natureza, obra-prima de Deus, tem vozes. Nós é que, com os nossos barulhos inúteis, não temos as antenas necessárias para entender as pedras do calçamento, as árvores, os pombos que ciscam na grama verde dos jardins.
      Principalmente, caminhar na paciência consigo mesmo. É orgulho ficar sem entender que também nós estamos ameaçados de cair... Ter paciência consigo não quer dizer deixar de lutar, para não cair. Apenas que somos fracos, pecadores, e sujeitos também ao mal.
      Caminhar na confiança da Graça de Deus e no amor do próximo. É triste e malsão viver desconfiando de tudo e de todos.
       Bom mesmo é caminhar. Aproveitar a vida que Deus na Sua misericórdia nos concedeu. Sobretudo, ganhar companheiros e companheiras na caminhada.
      Caminhar sempre, mas sem perder o rumo, sabendo que a meta final de nossa caminhada é a Casa do Pai!       
       


sexta-feira, 8 de junho de 2012

ECUMENISMO... QUE BICHO É ESSE?


     
      Até tempos atrás, antes do Concílio Vaticano II, em certos círculos integristas do catolicismo  era heresia falar em ecumenismo. Mas, nos últimos tempos, muitos homens e mulheres de todas as partes do mundo sentiram o impulso da Graça para restaurar a unidade de todos os cristãos. Esse movimento chama-se "movimento ecumênico".
      Engajadas nesse movimento, estão várias igrejas cristãs, como a Católica, a Ortodoxa Oriental, a Luterana, a Anglicana e a Copta. Deseja-se uma Igreja de Deus una e visível, verdadeiramente universal e enviada ao mundo inteiro.
      Trata-se, sobretudo, da unidade na Fé em Cristo e nos sacramentos, e não de uma uniformização da disciplina particular e dos ritos de cada Igreja. Homens influentes dentro da Igreja Católica temiam que tal movimento de abertura para as outras confissões pudesse abalar a certeza das verdades para ela incontestáveis, mesclando-se com teorias e sentimentalismos vagos.
      Muitos cristãos realmente não estavam preparados para o diálogo interconfessional, porque até teólogos de gabarito pretendiam construir uma Igreja à base de manuais de teologia, cujo conteúdo, muitas vezes, mais parecia acrobacia do intelecto humano, do que acolhimento da revelação divina.
      No Concílio Vaticano II os padres conciliares, felizmente, e certamente inspirados pela Graça de Deus, se distanciaram dessa orientação malsã e quiseram uma teologia viva, para os tempos de hoje, quiseram uma teologia orientada para os irmãos separados e para os homens e mulheres do mundo inteiro. Com efeito, a Igreja de Cristo deve estar a serviço de todos, indistintamente.
      Que culpa têm os milhões de homens e mulheres nascidos em comunidades separadas? Acaso  apenas os católicos, só porque nasceram em famílias tradicionalmente católicas, já têm o céu e a vida eterna garantidos?
      Somente um catolicismo por herança formalista ou integrista poderá temer a abertura consciente para o outro. O Cristianismo autêntico, voltado para o amanhã, será com certeza um Cristianismo por opção, à base da Fé pessoal, e não temerá encetar o difícil e longo caminho rumo à unidade cristã.
     Neste sentido, o movimento ecumênico não pretende fazer uma onda de sensacionalismo superficial, ocultando ou silenciando as graves dificuldades que separam os cristãos, também em matéria de doutrina ou de dogma.
      A sinceridade e a fidelidade à mensagem evangélica, igualmente, nos proibem reduzir tudo a uma forma simplista de amor fraterno, ou a construção de uma superigreja. O diálogo com o irmão separado pressupõe que ele seja tomado a sério, também naquilo que nos separa dele em matéria de dogma, de sempre reexaminarmos nossa própria posição à luz da revelação de Deus.
      Todo diálogo leal pressupõe uma auto-renovação, pois o Espírito Santo não é monopólio de determinada instituição, nem permite o controle de Sua ação. Ele sopra onde e quando quer. Nossa tarefa é abrir-nos à Sua inspiração, e não lhe construir obstáculos.
      Jesus Cristo quer que Seu povo cresça sob a ação do Espírito Santo, através da fiel pregação do Evangelho e da administração dos sacramentos, realizando a comunhão, na unidade. O centro de toda a profissão da Fé cristã é Jesus Cristo, no qual Deus assumiu toda a humanidade na obra da redenção que, por sua vez, pressupõe também a obra do Pai e exige a obra do Espírito Santo como consequência.
      O Espírito Santo, desde pentecostes, vivifica e dirige a Igreja de Jesus Cristo, na qual prolonga Sua presença histórica na Fé da comunidade a serviço da salvação do homem e da mulher. Por isso, a inquietação generalizada entre os cristãos de todo o mundo de hoje é santa e salutar, pois reflete a ação do Divino Paráclito, que nos quer purificar na Fé em Jesus Cristo, no qual nos encontramos, todos, unidos  com o Pai.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A "REVOLUÇÃO TEMPORAL" PARA A "SALVAÇÃO ETERNA"



            O poeta e ensaísta francês Charles Péguy dizia numa de suas crônicas que "é necessário fazer uma revolução temporal" para a "salvação eterna" da humanidade. Não é possível deixar homens, mulheres e crianças no "inferno da miséria". É necessário fazê-los transpor o limiar que os separa da pobreza, que é em si "um purgatório". E citava um texto evangélico:
      - "Aquele que diz amar a Deus, e que não ama seu irmão, é um mentiroso; porque, como pode ele dizer que ama Deus, que ele não vê, se não ama seu irmão, a quem vê?"
      Estas palavras são de uma simplicidade esmagadora. Impossível alguém furtar-se a elas. O cristão deve estar presente em todos os esforços da cidade temporal, quando esta procura edificar um mundo mais humano. Não pode jamais resignar-se "com o sofrimento dos outros".
      Ele sabe, melhor do que ninguém, que a causa fundamental do sofrimento no universo, é o pecado. Não apenas o pecado de Adão, que introduziu a morte no mundo, mas os seus próprios pecados cotidianos. Ele sabe que as guerras, as revoluções sociais, os levantes, as revoltas de povos desesperados, provêm dos pecados coletivos das nações: regiões onde reina uma espécie de feudalismo, fundamentado na corrupção principalmente política, que dá a alguns a posse privilegiada de imensos recursos desviados da coletividade, são terras de injustiça que clamam aos céus.
      O pecado das nações é também o dos indivíduos. Nossos maus pensamentos e nossas más ações envenenam o ar. A cadeia dos nossos atos desdobra-se até ao infinito. Nós próprios somos já vítimas, antes de por nossa vez nos convertermos também em carrascos e pestíferos.
      No livro de George Gheorgiu, escritor romeno que acabo de ler, no seu impressionante romance A Vigésima Quinta Hora, o mal estendeu-se às dimensões do globo, a ponto de ninguém poder dizer onde está a raiz envenenada que seria preciso arrancar; e contudo esse mal vem da estupidez e da maldade de homens e de mulheres. A maldade de homens e de mulheres contra outros homens e mulheres. Contra semelhante peste todos, indistintamente, deveriam unir-se.
      O cristão consciente sabe melhor do que ninguém até que ponto é responsável por ela. Até que ponto também, se ele vivesse a sua religião com autêntica santidade, o mundo se tornaria melhor. O exemplo de santos como Francisco de Assis, Vicente de Paula e Terezinha do Menino Jesus assim o mostra. Suas vidas permitem entrever onde pode chegar a Graça tomada a sério; ela salva a alma, mas também salva o corpo. Os milagres operados pelos santos, através da Graça de Deus, são tão importantes para a salvação do mundo, quanto as reformas sociais mais urgentes.
      É necessário que a santidade se encarne nas estruturas sociais, políticas, judiciais e econômicas. Aqui principia o drama. A Igreja, que é santa na sua estrutura divina, é também humana, porque está nas mãos de homens que precisam ser cotidianamente resgatados de seus pecados, que a salvação do mundo redimiu. Embora transcendente no tempo, pela sua essencial mensagem de ressurreição, a Igreja deve também esforçar-se por cristianizar as formas sucessivas que revestem as estruturas humanas.
      Muito grave é a tentação de nos instalarmos num estado de coisas estabelecido há certo tempo. Quanto mais perigosa ainda a tentação de nos servirmos de meios temporais para obrigar o mundo a proteger a Igreja, ou de utilizar meios espirituais com o fim de ser obtido um proveito temporal. A "cristandade" da Idade Média foi uma coisa bela. Mas que perigo para os cristãos de hoje sonhar com a sua restauração!
      A Igreja deve "sujar as mãos"; ela deve viver no mundo, porém sem ser do mundo. O que a humanidade pede aos cristãos é uma religião pura de toda a ligação terrestre malsã; uma presença leal nos esforços sociais e políticos. Os cristãos devem mais do que nunca testemunhar que a sua Fé não é uma ideologia, um mito social político ou econômico.
      Os cristãos não devem misturar suas esperanças do além, com seus esforços temporais. Um Cristianismo baseado na esperança pascal da ressurreição, numa alegria de ressuscitado, tal deve ser o seu testemunho: uma colaboração real com todas as forças de justiça deste mundo, tal é o seu dever concreto.
      Os cristãos têm também  "encontros" na Terra. Direi mesmo que os seus únicos "encontros" são aqui, porque é no amor aos homens e mulheres que eles praticam o amor de Deus. Sua Fé neste ponto é muito mais exigente ainda que a "religião" dos "sem Deus", porque não lhes reclama uma filosofia puramente humana, mas uma prova de amor sobrenatural.
      Quando os cristãos trabalham para o aperfeiçoamento da vida social, é necessário que transpareça em seu amor o amor de Deus, aquele amor que Jesus de Nazaré proclamou quando deu ao mundo a mensagem das Bem-aventuranças.
      Se, materialmente, os seus gestos são os mesmos, a luz que os ilumina é sobrenatural. Se o mundo visse que o amor dos cristãos pelo próximo, que o seu sacrifício pelos homens e mulheres salva mais profundamente os seus irmãos humanos, sem dúvida se volveria com melhor vontade para a fonte desse amor, que é a mensagem pascal de Jesus, o Cristo de Deus.
      Termino, parodiando o poeta e ensaísta francês, Charles Péguy, afirmando que a revolução temporal e a salvação devem realizar-se simultaneamente.
      Ora ET labora - reze E trabalhe -  dizia o monge São Bento.
      É preciso lutar, como se tudo dependesse de nós. Mas também pôr-se de joelhos, como se tudo dependesse de Deus.

terça-feira, 5 de junho de 2012

O MISTÉRIO DA PALAVRA DE DEUS


      No mundo secularizado de hoje, muitos homens e mulheres procuram a palavra de Deus.  Mas onde encontrá-la? Sabemos que outrora Deus falou aos patriarcas e profetas, que a própria criação do mundo é um ato da palavra de Deus, que disse e tudo se fez. E, na plenitude dos tempos, Deus falou de novo na pessoa do Verbo, Jesus de Nazaré.
      As palavras de Deus, hoje, chegam até nós através das Sagradas Escrituras. Mas, para evitar um biblicismo simplista, é bom refletirmos um pouco sobre a transmissão da palavra de Deus, pois esta palavra sujeita-se a todo um processo com dimensões humanas.
      Nós não ouvimos a palavra diretamente da boca de Deus, ou da boca de Jesus Cristo. Entre nós e o Cristo de Deus há uma longa história, e esta história envolve a palavra de Deus com uma série de problemas. Sabemos que Jesus de Nazaré não deixou nenhuma palavra escrita. Os evangelhos, tais quais os conhecemos hoje, foram redigidos depois de muitos anos após a ascensão de Cristo aos céus.
      Jesus de Nazaré falava em língua aramaica. Nós, porém, só conhecemos suas palavras através dos originais gregos. As palavras e obras do Senhor foram colecionadas por escrito na Igreja primitiva. Durante longos séculos passaram de geração em geração em manuscritos. E as cópias chegadas até nós apresentam um número enorme de variantes, acréscimos e correções. Assim, hoje é praticamente impossível reconstruir a palavra original de Jesus, tal qual nos falou outrora. Além disso, parte dos redatores dos evangelhos não foram testemunhas oculares da vida de Jesus.
      A palavra de Jesus, desde logo, foi integrada na vida da Igreja, e esse fato nós o chamamos de tradição. Os evangelhos serviram-se dessa tradição para descrever-nos a vida e a obra de Jesus.
      O evangelista Lucas descreve o caminho dessa tradição até chegar ao evangelho escrito, distinguindo, por assim dizer, três etapas:
      1 - as testemunhas oculares: as pessoas "que desde o começo foram testemunhas oculares e ministros da palavra" fundamentam a tradição. São os discípulos do Senhor, particularmente os apóstolos. Eles pregaram o evangelho como fonte de toda a verdade salvífica.
      2 - Lucas refere-se a uma segunda etapa: "Muitos tentaram ordenar a narração daquelas coisas que se realizaram entre nós."  Portanto, antes de Lucas escrever o seu evangelho, outros já haviam tentado fazer o mesmo. E essas tentativas certamente serviram de fonte para o seu trabalho futuro.
      3 - Numa terceira etapa, diz Lucas: "E assim também eu me decidi a reunir e ordenar tudo por escrito."   Parece que a tarefa do evangelista é de selecionar ordenadamente o material já existente. Os evangelistas orientam-se nesta seleção, também em vista da comunidade a que se dirigem. Lucas dedica seu evangelho a um cristão chamado Teófilo!
      Os evangelhos, já na sua origem, apresentam um caráter eminentemente querigmático. Apresentam-se a nós como um e mesmo evangelho, legado a nós por quatro testemunhas diferentes. E se comparamos os quatro evangelhos, podemos ver que apesar de todas as possíveis divergências, há também uma grande unidade nas narrativas dos quatro evangelistas, Marcos, Mateus, Lucas e João.
      Quando hoje tomamos uma Bíblia nas mãos, sempre corremos dois perigos: ou acentuamos demais a objetividade da palavra de Deus, ou tendemos a diluí-la numa mera experiência subjetiva. A objetividade da palavra de Deus, testemunhada pelos evangelistas, em si é indiscutível. Fundamenta-se na historicidade da própria revelação: Jesus Cristo aparece na história como o Verbo do Pai, como o apóstolo enviado pelo Pai. Mas aparece na carne humana. De semelhante modo, as palavras de Cristo chegam até nós no testemunho histórico dos apóstolos e discípulos, o qual para nós se tornou um momento constitutivo da própria revelação. 
      Quando lemos a Bíblia, sempre devemos ter consciência de que, como Cristo chegou a nós na carne humana de Jesus de Nazaré,  tão misteriosamente, também sua palavra se oculta na palavra humana, para chegar a nós. Às vezes temos a impressão de que ela está tão escondida que só a Fé poderá ouvi-la.
      E a Fé sempre poderá ouvi-la na Igreja, pois ela é vivificada sempre pelo Espírito do Senhor!

     

domingo, 3 de junho de 2012

O PROTESTANTISMO, AS BOAS OBRAS E EU


      O gênio religioso da pretensa Reforma Protestante (eu escrevi "pretensa" porque a autêntica reforma religiosa não foi a realizada pelo protestantismo do século XVI, mas a realizada pelo Concílio Vaticano II no século XX),  a meu ver, sempre esteve em luta com o problema da justificação, em toda a sua profundidade e mistério.
      O grande problema cristão é a conversão de homem e mulher e sua restauração à Graça de Deus em Cristo. E essa questão, em sua forma mais simples, é a conversão dos maus e pecadores a Cristo. Mas o protestantismo, com Lutero,  levantou essa mesma questão em sua forma mais radical com a pergunta: e quanto à conversão muito mais difícil e problemática dos piedosos e dos bons?
      Esta pergunta tem muita razão de ser: é relativamente fácil converter o pecador, mas os bons frequentemente são inconvertíveis, simplesmente porque não veem nenhuma necessidade de conversão.
      Assim, o gênio do protestantismo focalizou, desde o início, as ambiguidades contidas no "ser bom" e "ser salvo" ou "pertencer a Cristo."
      Com efeito, converter-se a Cristo não é apenas converter-se de hábitos maus a hábitos bons. É ser nova criatura, tornando-se um homem ou uma mulher inteiramente novos em Cristo e em Seu Espírito.
      Evidentemente, as obras e os hábitos do homem e da mulher novos devem corresponder à sua maneira de ser. Nada há de não católico nisso, muito pelo contrário. Contudo, as perspectivas católicas, ao insistir nas boas obras, levam por vezes a negligenciar o novo ser, isto é, a vida nova em Cristo, a vida no Espírito.
      E quando o protestantismo é infiel a seu dom, começa por diminuir mesmo o "novo ser" e a profundeza radical da conversão, por dar ênfase à pura Graça e ao dom do perdão de Cristo. (Por isso, permanecemos essencialmente maus). Ou então mais tarde, esquecendo a seriedade da necessidade de converter os bons, cai na autocomplacência satisfeita de uma bondade um tanto superficial, tal como uma cordialidade "social", um companheirismo do aperto de mão, do testemunho tagarela de banalidades morais, e semelhantes, quase sempre num biblicismo vazio e inconsequente. (Nisso, é claro, os protestantes são muitas vezes ultrapassados pelas frivolidades mais vulgares dos "bons católicos".)
       É aqui que a "sola fides" - só a Fé -  tão querida dos protestantes, pode dar provas de ser perigosa, pois a Fé que nos justifica não é uma Fé qualquer, ou mesmo uma Fé que se sente justificada por si mesma. Por fim, uma Fé insuficiente não é Fé em Cristo e obediência à Sua palavra, mas apenas questão de crer que cremos porque somos aceitos aos olhos de outros crentes como nós.
      O que importa então, nesse caso, seria  cultivar essa  qualidade de aceitação num meio sócio-religioso e, assim, mesmo obras objetivamente injustas podem ser tomadas por virtuosas e cristãs, uma vez que são aprovadas pelos que, no lugar, são considerados  "bons"... Daí, o grande problema é a salvação daqueles que, sendo bons, pensam não ter mais necessidade de salvação, e imaginam que sua urgente tarefa é tornar, muitos outros, "bons" como eles!
      Os que são fiéis à graça originária do protestantismo são precisamente os que veem toda a profundeza, como Lutero viu, que a "bondade" dos bons pode, em realidade, ser o maior desastre religioso para uma comunidade cristã, e que o problema crucial é a conversão dos bons a Cristo.
      Como católico que sou, confesso minha firme adesão, é claro, ao que minha Igreja ensina sobre a Justificação e a Graça. Ninguém pode ser justificado por uma Fé que não realiza as obras do amor, pois o amor é o testemunho e a evidência do "novo ser" em Cristo. Mas precisamente esse amor é, em primeiro lugar, obra de Cristo em mim, não simplesmente algo que tem origem em minha vontade, e é em seguida aprovado e recompensado por Deus.
      É a Fé que abre meu coração a Cristo e a Seu Espírito, para que Ele possa trabalhar em mim. Nenhuma boa obra minha pode receber o nome de "amor", no sentido cristão, se não vem de Cristo. Ora, os "bons" são tentados a crer na sua própria bondade e capacidade de amar. Enquanto isso, aquele ou aquela, que compreende a sua própria pobreza e seu nada, está muito mais apto ou apta a se entregar inteiramente ao dom do amor que, ele e ela sabem, não pode vir de algo de dentro deles, mas unicamente da misericórdia de Deus.
      É com isso na mente que é preciso considerar as ambiguidades que há em "fazer o bem", sabendo que, quando alguém está firmemente convencido da sua própria correção e bondade, pode, sem pestanejar, perpetrar o mais espantoso mal. Afinal, foram os bons, os corretos, os perfeitos cumpridores da Lei, que mataram na cruz o inocente Jesus de Nazaré.
      E mais tarde, em época de Cristandade, e em nome outra vez de Jesus de Nazaré, esses mesmos "bons"  sacrificaram, nas fogueiras "purificadoras" da Inquisição, milhares de crentes, considerados não tão bons como os "bons" que os sacrificaram.
      Seria isto o que muitos chamam de "ironia da história"?
    (PS: dedico esta matéria a meu filho Carlos porque, tenho certeza, ele não se enquadra em nenhuma das definições de "bom"  contidas no texto).