quinta-feira, 10 de outubro de 2013

SE EU PUDESSE!...


          Se eu pudesse...
          contrataria barcos que deslizassem suavemente, na hora em que Curitiba, à tarde, volta em disparada para casa...
          Se eu pudesse, à noite, no caminho de todas essas pessoas minhas irmãs desanimadas, pessimistas, amargas, revoltadas contra tudo e contra todos, arranjaria rodas de crianças brincando e cantando:

           - Sozinho eu não fico
              nem hei de ficar
              pois uma destas meninas
              há de ser o meu par...

          Se eu pudesse, na hora mais dolorosa do sepultamento de meus filhos Raquel e Júlio, quando suas urnas funerárias eram levadas túmulo a dentro, eu faria com que uma revoada de andorinhas pairasse sobre as cabeças dos presentes, lembrando a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, penhor da Ressurreição de meus queridos filhos falecidos...
          Se eu pudesse, pertinho das casas em que houvesse pessoas se sentindo sós e abandonadas como eu, haveria uma voz bonita cantando canções dessas que nunca morrem, são sempre belas e vão diretas ao coração de quem sofre:

           Sempre em meu coração...
           Eu sei e Você sabe...
           Faz tanto tempo, e eu me lembro sempre...

          Também serviria algum instrumento musical bem tocado, bem bonito, bem saudoso: um violão, um bandolim, uma flauta, uma clarineta...
          Aqui perto de casa mora uma vizinha que tem o dom de adivinhar quando estou triste, pensando em meus mortos queridos, e ela se põe a tocar em seu piano aquelas músicas de sempre, mensagens para mim tão cheias de harmonia, de beleza, de consolo e de paz...
          Se eu pudesse, nas caminhadas solitárias de quem enfrentasse estradas sem fim, sem luz, sem companhia, eu faria surgir vagalumes alumiando o caminho, e colocaria nem que fosse o canto de uma cigarra para quebrar a solidão...
          Se eu pudesse, ao cair da noite, todas as igrejas de Curitiba tocariam o Ângelus, convidando a rezar... É uma hora diferente, marcada pela Graça de Deus... No cair da tarde, até as pedras do calçamento perdem a dureza... Os enormes edifícios de cimento armado não esmagam a gente; quase se harmonizam, perdem de todo a aparente agressividade...
           Se eu pudesse, as bandas de música, de vez em quando, sairiam sozinhas, aqui pelas ruas do bairro por onde circularam felizes a Raquel e o Júlio, voltariam a tocar aquelas retretas saudosas que foram a alegria de suas vidas agora cortadas... Há "dobrados" das bandas de música que ficam para sempre no coração da gente...
           Se eu pudesse, estenderia no céu de Curitiba o arco-íris, e tentaria descobrir um jeito de fazer o arco-íris aparecer de noite, iluminando a minha solidão...
          Se eu pudesse, daria a esse mesmo arco-íris a força mágica de desfazer ódios, intrigas, divisões, de modo que ele voltasse, de fato, como sinal e mensagem de entendimento, de amizade, de amor e de paz...
          Ah! Como seria bom se eu pudesse!...
          E se Vocês, meus amigos, também pudessem, o que aconteceria?...

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         (Dedico este texto a todas as pessoas que, como eu, estão chorando a morte de um ente querido!)

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